30 anos de crónicas

A menina que não conhecia Jesus e que agora descobre coisas novas com Frei Bento

| 5 Mai 2022

Terça-feira passada, dia 3, o 7MARGENS e o Público organizaram uma sessão evocativa dos 30 anos de crónicas de frei Bento Domingues naquele jornal diário. Depois de termos publicado a intervenção de Jorge Wemans, responsável pelo convite ao frade e teólogo dominicano em 1992, reproduzimos a seguir o texto de Carmen Garcia, cronista do Público. Na sessão interveio também o ex-deputado socialista Pedro Bacelar de Vasconcelos, que referiu a “cumplicidade e convergência” que sempre sentiu com Bento Domingues, a partir de um ponto de vista republicano, notando que há uma diferença: “Numa ética política, no lugar do amor, temos de colocar a decência e a rejeição da indiferença.” Além dos directores do 7MARGENS, António Marujo, e do Público, Manuel Carvalho, que também falaram, o Presidente da República enviou uma mensagem na qual considera frei Bento Domingues como uma personalidade política, no sentido nobre da expressão. No final, o homenageado fez também uma intervenção. 

A sessão integral pode ser vista em vídeo no endereço https://www.publico.pt/aovivo/detalhe/frei-bento-domingues-teologo-praca-publica-30-anos-401

 

Homenagem a Frei Bento Domingues, no jornal Público. Foto © Agência Ecclesia/HM.

Frei Bento Domingues durante a sessão evocativa dos 30 anos de crónicas no Público. Foto © Agência Ecclesia/HM.

 

Há trinta anos eu tinha cinco e ainda nem sequer andava na escola. Sabia escrever o meu nome, mas não conseguia ler ou escrever nenhuma outra palavra. Queria ser professora de ballet e nunca tinha entrado numa Igreja.

O meu pai, ateu convicto, arrepiava-se sempre que a minha tia materna começava com aquilo a que ele, zangado, costumava chamar beatices. E não raras vezes, quando ela começava com a conversa do “é uma vergonha vocês não serem casados”, ele abandonava a sala. A minha mãe, coitada, perdoem-me a expressão, ficava sozinha com a minha tia “à perna” e lá se ia justificando com um “tu sabes que ele é como os pais e os irmãos todos, não querem nada com a igreja”, ao que a minha tia, zangada, rematava sempre com aquele que, acreditava ela, era o derradeiro argumento: “enquanto viveres em pecado nem sequer podes comungar”.

Um dia, já na escola, apercebi-me que todos os meus amigos iam juntos para algum lado nas tardes de quarta-feira e, quando perguntei à minha mãe qual o destino, ela, contrariada, lá me respondeu um seco “vão para a catequese”.

No dia seguinte perguntei à minha professora o que era a catequese e ela lá me explicou que era o lugar onde as crianças aprendiam mais sobre a vida de Jesus. 

Mas eu nem sabia que tinha existido alguém chamado Jesus.

Em casa, cometi o erro de perguntar ao meu pai quem era Jesus e porque é que as crianças aprendiam sobre a vida dele. A resposta foi curta e seca: “sabes aquela cruz que a tua tia Maria José carrega ao peito? Jesus é o homem que lá está pregado”. 

Ao contrário do que o meu pai pretendia, contudo, a resposta rude aumentou-me a curiosidade e foi num instante que passei a pedir, sem tréguas, para ir para a catequese com as outras crianças. O meu pai, farto de me ouvir, acedeu, na condição de que não o importunasse com nada do que lá aprendesse. Sei agora que nessa noite ele confessou à minha mãe que estava convencido que me corria nas veias o mesmo sangue ateu que era marca da sua família e que, mais uns anos e eu, sozinha, acabaria por desistir. Enganou-se.

Tornei-me uma mini beata. 

Os anos foram passando e eu fui fazendo o meu percurso na Igreja. Um dia, já depois de crismada, tornei-me eu própria catequista. Mas uma coisa nunca consegui contornar: o meu desamor pela cruz e a minha incapacidade de a ver como símbolo de esperança. Era de tal ordem que na música que, em Maio, cantávamos no final do terço, mudei no cancioneiro da minha paróquia a letra do “boa noite, Maria”. Assim, creio que nos tornámos na única paróquia em Portugal que, em vez do “vivemos na mesma cruz, juntos com Jesus, na harmonia”, cantava “vivemos na mesma luz, juntos com Jesus…”. Rimava na mesma e parecia-me infinitamente melhor.

E isto tudo para quê? Para chegar ao dia em que, há uns anos, acredito que mais de dez e lamento não saber precisar quantos, o meu pai estava a ler o jornal e me chamou. “Depois lê aqui esta entrevista” – disse-me. “Mas é de um padre!”, exclamei admirada. “É” – respondeu-me, “mas este é um padre diferente e parece que, tal como tu, também não tem uma relação fácil com a cruz”.

E esta foi a primeira vez em que ouvi falar de Frei Bento.

* * *

Homenagem a Frei Bento Domingues, no jornal Público. Foto © Agência Ecclesia/HM.

Frei Bento Domingues “parecia-se ser a mais diferente das vozes da Igreja”, disse Carmen Garcia. Foto © Agência Ecclesia/HM.

 

Há dez anos, mais coisa menos coisa, eu já sabia ler. E já gostava de escrever. E comecei a acompanhar as palavras do homem, nascido Basílio, mas feito Frei Bento, que me parecia ser a mais diferente das vozes da Igreja.

O meu confessor, salesiano, costumava brincar comigo e dizer que eu o traía com as palavras de um dominicano. Mas eu sei que ele próprio, padre inconformado e pela liberdade, admirava Frei Bento. 

Até na minha família paterna havia por Frei Bento uma admiração transversal. “Este – dizia o meu tio quando o lia –, desafiou a PIDE. Houvesse mais padres assim e até eu começava a ir à missa”. E isto, acreditem, parecendo rude, é o maior dos elogios vindo de alguém como o meu tio que, sendo totalmente apartidário, nunca suportou o medo em que via mergulhado o país e que, em casa dos meus avós, persistiu mesmo depois do 25 de Abril.

Na entrevista que já referi e que não consegui encontrar para citar, creio que em algum lado e perdoem-me se invento, Frei Bento referia que quando começou a escrever para o Público acreditava que não ia conseguir aguentar nem seis meses. Entretanto passaram trinta anos e a única coisa que posso dizer é que ainda bem que aguentou.

Todos os Domingos leio as suas palavras. Ou melhor, lemos. O ateu lá de casa continua a ser-lhe fiel. E todos os Domingos descubro alguma coisa nova. Todos os Domingos percebo outro ângulo. Todos os Domingos encontro esperança num qualquer parágrafo. Todos os Domingos me sinto acompanhada.

Todos os Domingos sinto que há uma voz na Igreja que defende as mulheres “porque todos sois um só em Jesus Cristo”, que as admira, que lhes reconhece a força e a humanidade. Sinto que há uma voz de paz “que fizeste do teu irmão?”. Sinto que há uma voz de humanidade que nos relembra que o rosto de Deus se mostrou ao mundo num curral na periferia. Sinto, acima de tudo, que há uma voz de esperança, que não se rende ao fatalismo da pobreza e da desigualdade.

Quando leio Frei Bento sinto uma Igreja viva e jovem. Sinto a proximidade do encontro. Sinto que na Igreja onde ainda me custa ver esperança e beleza na cruz cabemos todos, sem excepção. E que, mesmo divorciada, posso voltar a encontrar o meu caminho para a comunhão.

Estamos em 2022. Passaram 30 anos. 

Obrigada, Frei Bento por nunca ter desistido. Obrigada por nunca se ter deixado silenciar. Obrigada por não ter medo de ser inconformado. Obrigada por nunca se ter cansado de ser uma voz dissonante.

Obrigada por cada uma das palavras ao longo destes 30 anos.

Em 1992 eu ainda não sabia ler. 

Em 2022, como católica, mãe e mulher estou e sou-lhe profundamente grata.


Carmen Garcia é enfermeira e escreve no
Público/P2 aos domingos.

Frei Bento Domingues, um percursor

 

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