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A Mente Justa, uma apologia do entendimento sobre política e religião

| 2 Set 2023

Livro A Mente Justa, Foto Direitos reservados

Livro A Mente Justa, Foto Direitos reservados

 

Uma das metáforas centrais do livro A Mente Justa*, do psicólogo social Jonathan Haidt, é algo surpreendente: “A mente justa é como uma língua com seis receptores”. O autor, cujo labor investigatório se centra no campo da moralidade, começa por contar, a esse propósito, uma história curiosa: “Há uns anos, experimentei um novo restaurante, chamado O Verdadeiro Gosto. Por dentro, era todo branco. Cada mesa estava guarnecida apenas de colheres – cinco pequenas colheres em cada lugar. Sentei-me à mesa e olhei para o menu. Estava dividido em secções chamadas ‘Açúcares’, ‘Meles’, ‘Melaços’, ‘Resinas’ e ‘Artificiais’. Chamei o empregado e pedi-lhe que me explicasse. Eles não serviam comida?”

O empregado, ficou a saber, era o dono e o único trabalhador do restaurante. No mundo, não havia qualquer estabelecimento idêntico:” um bar de provas de doces”, onde era possível provar amostras da doçaria de 32 países. O autor fornece outros pormenores do que lhe disse o interlocutor: “Explicou-me ainda que era um biólogo especializado no sentido do sabor. Descreveu-me os cinco tipos de sabor que as papilas gustativas sentem  (e podem sentir se não na língua? Pergunta ao Artur) na língua – doce, azedo, salgado, amargo e saboroso (também chamado umami). E disse que nas suas investigações descobriu que a activação do receptor do doce produzia uma descarga mais forte de dopamina no cérebro, o que lhe indicava que os homens estão programados para procurar o doce acima dos outros quatro sabores. Por isso, pensava ser mais eficaz, em termos de calorias por unidade de prazer, consumir doces, e concebeu a ideia de abrir um restaurante que procurasse estimular apenas este receptor de sabor”. Jonathan Haidt indagou, finalmente, como corria o negócio e ficou a saber que pessimamente, ainda que o proprietário se estivesse a sair melhor do que o químico que tinha aberto um bar de provas de salgados na mesma rua.

O capítulo prossegue com Jonathan Haidt a assumir que, de facto, não tinha protagonizado o episódio, mas que a história lhe era conveniente enquanto “metáfora” sobre como se sente às vezes quando lê livros sobre filosofia e psicologia moral. É que, escreve, “a moralidade é muitíssimo rica e complexa, muitíssimo multifacetada e internamente contraditória”. Mais à frente, uma analogia fortalece o sentido da história contada: “Cinco bons candidatos a receptores gustativos da mente justa são o cuidado, a imparcialidade, a lealdade, a autoridade e a santidade”.

O capítulo seguinte, sobre os fundamentos morais da política, serve para aprofundar a caracterização destes “receptores gustativos da mente justa”, e dos respectivos opostos: cuidado/dano, equidade/engano, lealdade/traição, autoridade/subversão, santidade/degradação. O curso da investigação levaria Jonathan Haidt a acrescentar o sexto fundamento moral: liberdade/opressão.

A investigação, centrada na realidade americana, reflecte sobre os valores que a direita e a esquerda têm como mais relevantes, indicando as consequências que essas preferências têm tido na política e na religião (ou, mesmo, no ensino). Considera o autor que a matriz moral liberal, geralmente professada pelos democratas, tem como valor mais relevante o cuidado (“cuidar das vítimas de opressão”); a matriz moral libertária, seguida sobretudo por uma parte dos republicanos, valoriza a liberdade (a “liberdade individual”); e a matriz moral social-conservadora, adoptada por outra parte dos republicanos, tem como valores mais sagrados a lealdade, a autoridade e a santidade (tidos como os que melhor servem para “preservar as instituições e as tradições que sustentam uma comunidade moral”).

Jonathan Haidt demora-se a explicar as razões por que os valores de cada campo são tão mal percebidos e desdenhados pelo campo oposto. Citando duas narrativas, a do “progresso liberal” e a do “conservadorismo moderno”, o autor constata que elas se afiguram como o mais antagónicas possível e interroga: “Podem os militantes sequer compreender a história contada pelo outro lado?”

A Mente Justa inclui uma apologia do esforço de audição, da compreensão do ponto de vista contrário. “Tudo o que junte as pessoas em densas redes de confiança torna-as menos egoístas”, considera Jonathan Haidt.

Evitar as polarizações extremas, como as que têm emergido em tantos lados, é um propósito que o autor subscreve. Afirma ele que “a moralidade une e cega”. Se nos une “em equipas ideológicas que lutam entre si como se o destino do mundo dependesse do nosso lado”, também nos cega “para o facto de cada equipa ser composta de boas pessoas que têm algo importante para dizer”.

Acreditando na bondade de propósitos, Jonathan Haidt faz uma proposta bem-intencionada: “Se quer abrir a mente, abra primeiro o coração. Se consegue ter pelo menos uma interacção amigável com um membro do ‘outro’ grupo, verá que é bem mais fácil escutar o que eles dizem, e até talvez ver um tema controverso sob uma nova luz. Pode discordar, mas talvez mude um desacordo maniqueísta para um desacordo mais respeitoso e construtivo”.

A Mente Justa expõe com minúcia os amplos benefícios que podem advir do “entendimento humano” e os obstáculos que é necessário remover para o fomentar.

*Edições 70, 2023

 

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