7MARGENS/Antena 1

A mesa-de-cabeceira ou a toalha de mesa e as pessoas em situação de sem-abrigo

| 6 Fev 2024

Alexandre Abrantes, Alfredo Abreu, Pessoas em situação de sem-abrigo

Alexandre Abrantes (esqª), que viveu em condição de sem-abrigo durante 13 anos, e Alfredo Abreu, da Serve The City. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Dá-se pouco valor a isso, mas ter uma mesa-de-cabeceira é importante. E foi assim para Alexandre Abrantes, 57 anos, que durante 13 viveu na condição de sem-abrigo. Tal como jantar, mesmo no meio de ratos, numa mesa com toalha, louça e à luz de velas, também pode ser importante.

“A partir do momento em que tive casa, comecei a ter prioridades na vida, ter em casa comida, ter uma mesa-de-cabeceira, [a] que não damos valor mas faz imensa falta, um frigorífico…” Alexandre Abrantes, que trabalha em centros de atendimento telefónico, passou a ter há dois anos uma casa ao abrigo do programa Habitação Primeiro, que pretende retirar da rua as pessoas que nela vivem, atribuindo-lhes um alojamento. Com isso, Alexandre confessa, em entrevista ao programa 7MARGENS da Antena 1: “Voltei a ter uma vida comum, tenho o meu círculo de amigos, faço passeios…”

A ideia deste programa, Housing First, na sua versão original, é que cada pessoa em situação de sem-abrigo passe a ter um alojamento e um processo de acompanhamento paralelo com assistentes sociais e enfermeiros, de modo a que a pessoa recupere “um sentido, uma rotina, até a sua saúde”, e que abandone os consumos muitas vezes associados ao viver na rua – álcool, drogas –, como refere Alfredo Abreu, até Junho presidente mundial e que é ainda, por mais alguns dias, o responsável nacional da Serve The City (STC).

Iniciado em Nova Iorque, o programa tirou já centenas de pessoas de pessoas da rua, muitas delas com problemas de saúde mental. Mas, com a pandemia e o aumento do alojamento local em Portugal, as casas rarearam. “Havia pessoas extremamente degradadas por razões de saúde mental, havia pessoas que já não se lembravam do próprio nome”, diz Alfredo Abreu, 62 anos.

A STC, Servir a Cidade, é uma rede de voluntários que procuram o encontro com pessoas em situação de sem-abrigo ou que vive em solidão. Formado em sociologia em Lisboa e em espiritualidade cristã no Canadá, Abreu passou por organizações como o Corpo Nacional de Escutas, Grupo Bíblico Universitário, associação ambientalista A Rocha ou Sociedade Bíblica, onde dinamizou, há quase duas décadas, o projecto Bíblia Manuscrita. Há quase 18 anos, envolveu-se com a rede de voluntariado social STC e integra a actual direcção da Confederação Portuguesa de Voluntariado.

O que pode fazer a diferença é “as pessoas serem escutadas, diz o responsável da STC, que voltará a ser voluntário de base, quando deixar o cargo de presidente, ainda este mês. “Sentar-se à mesa e comer, fazer uma actividade, jogar futebol juntos” são coisas também muito importantes para as pessoas que vivem na rua.

Alfredo Abreu recorda, aliás, que não se sentia bem apenas a distribuir comida, tarefa que fez como voluntário da Comunidade Vida e Paz – e que destaca como essencial. Sentia que era preciso mais alguma coisa ao lado e um amigo disse-lhe que também sentia o mesmo, como se fosse uma relação desigual entre quem ajuda e quem é ajudado. Sugeriu-lhe então que, em vez de estarem apenas de pé, a dar comida “na parte de trás de uma carrinha”, talvez fizesse sentido sentarem-se também “à mesa, com uma toalha, com louça, uma vela, música” para conversar. Um dia, resolveram fazer isso com uma pessoa em situação de sem-abrigo, que vivia “no meio de uma lixeira, com ratos e tudo”. A partir daí, a experiência do Serve The City alargou-se…

 

Casas para mais pessoas

Pobreza, Sem-abrigo

Ter uma casa permite que a pessoa em, situação de sem-abrigo possa recuperar “um sentido, uma rotina, até a sua saúde”. Foto © João Fontes

 

Sobre o programa Habitação Primeiro, que começou por ser para um ano e já vai em três, Alfredo Abreu diz que o ideal era que fosse para sete anos. E deveria “ter mais casas disponíveis”, diz, deixando a ideia para o Governo que sair das próximas eleições.

Também como política prioritária neste âmbito, Abreu refere que se deveriam atacar preventivamente as causas que levam muitas pessoas a ficar na situação de sem-abrigo. Essa “é a chave” para evitar que cresça o número de pessoas em tal condição, diz. Em 2022, segundo o inquérito de Caracterização das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, foram sinalizadas 10.773 pessoas nessa situação. Hoje porventura serão mais, diz, por causa da agricultura sazonal: muitos estrangeiros são recrutados e, quando acaba o trabalho, ficam sem casa e sem emprego, na rua.

De resto, o ainda presidente da STC diz que acompanha o que se passa em todo o mundo neste âmbito e Lisboa “tem das respostas mais avançadas” desde que, há vários anos, foi definida a Estratégia Nacional para as Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, que depois se articula com planos municipais. A duplicação de estruturas foi substituída pelos gestores de caso para cada pessoa, permitindo um “trabalho muito articulado”.

Alexandre Abrantes também gostaria de ver “abrir o leque para mais pessoas” poderem usufruir do Habitação Primeiro, pedindo ao mesmo tempo que possa haver mais roupa interior fornecida às pessoas em situação de sem-abrigo. Com as eleições legislativas à porta, Alexandre acrescenta que espera que políticos, deputados e governantes “tenham atenção em relação às pessoas em situação de sem-abrigo e que façam alguma coisa pelas pessoas em extrema vulnerabilidade”.

Este trabalhador e responsável de centros de atendimento telefónico conta ter chegado à situação que viveu durante 13 anos por trabalhar demasiado: 12, 14, 16 horas por dia. “Sou viciado em trabalho”, explica. “Aos 40 anos a minha cabeça deu um nó, fiquei com uma depressão profunda [durante] 13 anos, a cabeça não aguentou.” Depois, a precisar de tratamento, sem salário e a receber “300 euros por mês para duas pessoas” – tinha uma irmão também com problemas de saúde que vivia com ele –, “não se tem dinheiro para nada, temos de ficar na rua… não tinha meios para pagar a renda de casa…”

Alfredo Abreu insiste num outro pormenor: é importante dizer-se “pessoa em situação de sem-abrigo” ou “na condição de sem-abrigo”. “Leva mais tempo, mas quando se diz ‘sem-abrigo’ é uma espécie de massa anónima.” Quando se refere “a pessoa, já acrescentamos uma outra dimensão: a pessoa tem uma identidade própria, tem uma história de vida”. E se acrescentamos “na condição de” é “porque ‘sem-abrigo’ não é identidade; o facto de passar um longo período naquela situação não é identidade; a pessoa tem uma história”. Tal como um desempregado: “A pessoa não é desempregada, está na situação de desempregada”, afirma.

 

Da ópera à Terra Prometida

Na parte final do debate, Alfredo Abreu referiu a notícia do 7MARGENS acerca do estudo sobre quem são e no que acreditam os “nones” dos Estados Unidos, as pessoas que não têm religião. “É uma tendência que já verificamos em várias partes do mundo”, nota. Houve coisas más que se perderam das religiões, “e ainda bem”, mas também se deitaram fora outras boas, acrescenta, referindo o “reconhecimento dos recursos interiores” das pessoas. Alexandre Abrantes, por seu turno, preferiu destacar o programa 7MARGENS sobre o diálogo ecuménico e inter-religioso, emitido em 20 de Janeiro. E dá o exemplo do que se está a passar em Gaza, como exemplo da falta desse diálogo.

Como sugestão, ambos foram para o campo da música: Alexandre sugere Nabucco, de Verdi, em versão de concerto, com a soprano portuguesa Elisabete Matos e o barítono Leo Nucci, com o Coro e a Orquestra Sinfónica da Galiza, dirigidos pela maestrina Kei-Lynn Wilson.

 

Alfredo propõe Terra Prometida, música de Jónatas Pires no disco com o mesmo título, de 2021 com várias referências bíblicas e onde a Avenida Almirante Reis, onde sobrevivem tantas pessoas em situação de sem-abrigo, é transformada numa “calçada portuguesa feita de gente”. É uma “música muito bonita de ouvir e muito inspiradora”, acrescenta.

 

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