A mesa de Jesus – por uma teologia da hospitalidade

| 13 Jan 2024

Jesus lava os pés a Pedro, Ford Madox Brown (1821–1893), Tate Britain.

 

A imagética do quadro é bastante expressiva. Perante um Pedro contrariado e as várias expressões de admiração e escândalo dos restantes discípulos, Jesus apresenta-se aqui com uma humildade extraordinária. A comensalidade, inclusive a hospitalidade judaica, tal como noutras culturas semíticas, era revestida de imensa importância.

Embora o tema seja demasiado complexo para aqui ser analisado, o ato de comer juntos era certamente uma forma de estabelecer e fortalecer relações entre os comensais. Apesar de, à mesa, as regras judaicas relativas à pureza terem sido um vínculo de reforço étnico e até, de certa maneira, social, é necessário não esquecer que existe uma passagem na Torá onde Abraão acolhe três forasteiros estranhos, lava-lhes os pés e dá-lhes de beber e de comer (Genesis 18:1-5), revelando assim a importância da hospitalidade e comensalidade. Também a lei do dízimo em Deuteronómio (14.28-29) previa o acolhimento, cuidado e sustento dos mais necessitados, inclusive o estrangeiro:

Ao fim de três anos, tirarás o dízimo completo da colheita desse ano e depositá-lo-ás na tua cidade, para que o levita, que não tem parte nem herança contigo, o estrangeiro, o órfão e a viúva, que estão dentro dos muros da tua cidade, possam comer e ficar saciados. Assim, o SENHOR, teu Deus, abençoará todas as obras das tuas mãos.

No Novo Testamento, os relatos que temos acerca de Jesus à mesa, tanto nos sinóticos como no evangelho de João, não deixam de expor tensões entre comensais e até mesmo entre o Mestre e as autoridades religiosas. Jesus não se inibe de estar com quem quer que seja. Uma frase de Maria Lecticia Monteiro Cavalcanti, autora do  recente livro A Mesa de Deus, e que cita Eça de Queirós, resume, no meu ponto de vista, a importância que a comensalidade tinha no ministério de Jesus e até, pasme-se, na imagética do seu Reino:

Jesus compreendeu que a mesa ‘constitui, sempre, um dos fortes, se não o mais forte, alicerce das sociedades humanas. Constitui a melhor e a mais solene cerimônia que os homens acharam para consagrar todos os seus grandes atos, imprimindo-lhe um caráter de união e de comunhão’, segundo Eça de Queiroz. Assim, inaugurou um novo tempo, pregando a inclusão de todos em volta dessa mesa. Com amigos e inimigos, mulheres e homens, doentes e sãos, ricos e mendigos, santos e pecadores. Gostaria de ter participado de uma dessas refeições.[1]

Assim, algumas leituras atentas aos evangelhos revelam Jesus a quebrar muitas das convenções sociais e ritualistas relativas à eucaristia ou ao simpósio. Por exemplo, em Marcos (2:15), no início do seu ministério, Jesus está à mesa entre publicanos e pecadores, sinal claro de defesa da inclusão. Aqui, o que sobressai à primeira vista é a quebra das elementares regras de pureza estipuladas pelas leis judaicas,  nomeadamente juntando-se à mesa com pessoas impuras, fazendo dela espaço de inclusão. O evangelista refere mesmo que os próprios fariseus, ao acusarem-no de beberrão e glutão, recorreram à passagem de Deuteronómio 21:18-21, que sentenciava  de morte o infrator por apedrejamento por toda a comunidade.

Noutra ocasião encontramos Jesus à mesa em casa de um fariseu. Desta vez o quadro é carregado de uma intensidade bem dramática, emotiva e até erótica. A determinada altura da ceia irrompe na sala uma mulher que lhe derrama na cabeça um vaso de alabastro com perfume. Mesmo sabendo que a mulher era acusada de ser pecadora, e, portanto, impura, Jesus não se negou a ser tocado por ela, para escândalo de todos (Lucas 7:36-39). A mesa é aqui projetada como espaço de amor e perdão, e também de cura. . Poucos dias antes da sua crucificação, Jesus encontrou-se à mesa em casa de um certo Simão, cujo cognome “Leproso” não era de todo atrativo (Mateus 26:6). Alguns comentaristas são da opinião que Simão teria sido curado por Jesus e que, em sinal de gratidão, aquele O teria  convidado para estar à sua mesa. Se assim  foi, não deixaria de ser significativa a purificação e reabilitação de Simão por Jesus. Foi também  durante uma ceia, antes de ir à cruz, que Jesus se levantou, retirou a sua túnica, tomou uma toalha e lavou os pés aos seus discípulos (João 13). Aqui a mesa foi igualmente  pretexto de uma  das maiores e mais  revolucionárias  lições do Mestre aos seus discípulos,  a do serviço incondicional e amoroso ao próximo, o qual se deveria revestir de uma sacramentalidade profunda na vida de toda a Igreja.

Não deixa de ser igualmente significativo que a mesa de Jesus se revista de um enorme simbolismo, o do banquete messiânico, conforme se lê no Evangelho de Mateus (8:11): “Digo-vos que, do Oriente e do Ocidente, muitos virão sentar-se à mesa do banquete com Abraão, Isaac e Jacob, no Reino do Céu”. Assim sendo, quando Jesus acolhe à mesa os publicanos, os pecadores, os rejeitados pela sociedade, inclusive pelos religiosos do judaísmo oficial, antecipa desde já esse Reino de Deus que a todos acolhe incondicional e misericordiosamente.[2] Como afirmou muito bem o teólogo Tolentino Mendonça, “a mesa é uma espécie de fronteira simbólica que testemunha, para lá das diferenças, uma possibilidade radical de comunhão”.[3] Nunca, como nos dias que correm, no meio de tantas crises sociais, políticas e até existenciais, a mesa do Senhor, através da Igreja, se tornou tão necessária, local onde a fome  de inclusão, amor, perdão e cura podem ser realmente incondicional e gratuitamente saciadas.

 

[1] Cavalcanti, Maria Lecticia Monteiro. A Mesa de Deus. “Eis aí um glutão e beberrão”, mas o que comia e bebia Jesus?”. Disponível em https://24.sapo.pt/vida/artigos/a-mesa-de-deus-eis-ai-um-glutao-e-beberrao-mas-o-que-comia-e-bebia-jesus 
[2] Smith, Dennis E. Del Simposio a La Eucaristia. El Banquete em el Mundo Cristiano Antiquo. Verbo Divino, 2009. Pp.339-41.
[3] Mendonça, Tolentino. A Bíblia Contada Pelos Sabores. Assírio & Alvim, 2007. Pp 25

 

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona e doutorando em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 

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