
O livro “Perguntas de Deus, Perguntas a Deus: Em diálogo com as Escrituras”, de Timothy Radcliffe e Łukasz Popko (Paulinas, 2024, 238 pgs.) [7MARGENS], com prefácio do papa Francisco, tem uma estrutura muito simples: são 18 textos, do Antigo e Novo Testamento, traduzidos por Ł. Popko e depois comentados pelos dois dominicanos que assinam a obra.
O subtítulo “Em diálogo com as Escrituras” é um sinal de pista, embora parcial. Na verdade, aquilo de que mais trata é do diálogo de Deus, Javé ou Jesus, com o povo de Israel e depois com os discípulos (e não só). Logo de Deus com a humanidade.
E do diálogo que a competência dos autores estabelece entre textos da Bíblia, a arte de fazê-los falar nos dias de hoje. E destes com a Tradição.
Mas é também um exercício prático de diálogo entre um velho com autoridade reconhecida, Radcliffe, e um jovem em processo de afirmação, Popko. Surgem-nos aqui com um profundo respeito mútuo, num diálogo em que a diferença é assumida como riqueza partilhada.
Timothy Radcliffe (79 anos, inglês) é teólogo e um autor muito considerado, cardeal desde há pouco, e já foi Geral dos Dominicanos (1988-2001). Łukasz Popko (47 anos, polaco) é um estudioso da Bíblia e professor de Antigo Testamento e História Antiga na Escola Bíblica de Jerusalém. É a igualdade da dignidade a sobrepor-se à diferença de estatuto.
Toda a conversa entre ambos é um exercício de diálogo entre a fé e a vida, entre os textos sagrados e o conhecimento técnico, entre a finitude humana e a abertura ao absoluto.
E ainda entre a religião e a arte. Sentimos estes dois crentes, pregadores e professores, vivendo num verdadeiro poema – religioso. A sua vida não decorre na estrita ordem das coisas do mundo, mas numa contínua tentativa de elevação a alturas desafiadoras propostas pela poesia narrativa da mensagem sagrada. É um exercício de teologia poética, sem decair no rigor analítico da reflexão e da hermenêutica. Daí decorre a procura de um diálogo entre a monotonia dos dias comuns e a exultação dos momentos vividos como extraordinários. Fé, sabor, alegria e razão.
E há, é claro, os diálogos a que cada leitor é chamado a participar. Com risco, de ver a sua vida transformada.
Não admira, por tudo isso, que a prosa se encontre no livro em diálogo com a pintura (e era desejo dos autores fazê-lo também com a música, mas traria demasiados problemas técnicos). Daí também que a teologia surja em diálogo com a literatura profana, poesia e ficção. Nós sabemos que a religião casa com todas as artes, mas esse é um diálogo bastante esquecido.
Como dominicanos, que são, portanto pregadores por missão, uma das dimensões que não esquecem é a do diálogo com não crentes, com crentes de outras religiões e com ateus. E mesmo com cristãos cansados das desilusões de uma Igreja que sentem como pecadora, mais que santa.
Este livro é, entre outras coisas, um manual do diálogo, teoria e práticas, em várias direções. Alguns pensarão que, com tantas aplicações, deve ser “banha da cobra”, e passarão ao largo. Pior para eles. E para nós.
José Alves Jana é doutorado em filosofia, professor aposentado, voluntário e dirigente associativo. Contacto: jalvesjana@gmail.com
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