AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

A minha amiga comida

| 28/09/2019

A minha amiga comida

by | 28 Set 19 | Entre Margens, Últimas

Sentei-me na esplanada a contemplar o bulício do cair da noite na cidade. Acabara um dia de trabalho realizado, pleno de satisfações mas cansativo e, no fim de tudo, stressante. Quantas daquelas pessoas que por ali passavam teriam tido um dia assim? Quantas poderiam dizer a mesma coisa ou senti-la de forma idêntica e justa?

Pedi um chá. Estava calor, mas trariam gelo e poderia arrefecê-lo a gosto. Só água não me satisfaria. Na mesa ao lado uma mulher mais nova, muito nova, seguramente com menos 30 anos e 20 de idade, sentou-se e encomendou um croissant com chocolate e um refrigerante. Tinha visivelmente excesso de peso. Era cliente habitual e a dose bem conhecida do empregado. Quando estava a terminar ele perguntou, aliás, se ia ao segundo. Respondeu que sim e que tinha tido um dia muito difícil. Estava mesmo a precisar de algo que a consolasse. Era a justificação racionalizada, absolutamente perfeita, para ambos. Deste modo, poderia vir a sentir culpa, mas vergonha, decerto, não.

Faltou-me a coragem para assistir até ao fim a esta cena quase degradante de vida concreta, ali mesmo ao lado, que felizmente e só por acaso, não era a minha. Na verdade, sei-o bem, somos os outros dos outros, o que quer dizer que, para os outros, os outros somos nós. Contudo, a minha história, neste tema, realmente é diferente. A relação que tenho com a comida sempre integrou algum prazer. No entanto, cresci numa família em que se comia para viver e não se vivia para comer. Existiam, sim, as exceções naturais de quando se recebia ou a minha mãe cozinhava petiscos a pedido de amigos, primos, sobrinhos… Enfim, entre portugueses e espanhóis, a comida sempre foi um bom pretexto de convívio e de união; a hora da refeição, um momento sagrado de encontro e boa conversa.

Saí e, ao caminhar, não conseguia deixar de me lembrar do que uma jovem adulta com perturbação de ingestão alimentar compulsiva escrevera poucos dias antes – “Se eu visse alguém a devorar um pacote de batatas fritas e outro de cajus iria achar deselegante e ficaria com pena da pessoa porque não se estava a conseguir controlar e porque iria engordar e fazer mal ao seu corpo desnecessariamente; iria ficar feliz por não ser eu a passar por isso. (…) Batatas, cajus, queijo, chocolates, avelãs,… Vocês fazem-me perder o controlo quase todos os dias. Parem com isso. Por favor. Vocês são deliciosos, mas eu já sei o vosso sabor de cor. Dão-me uma sensação boa na boca, mas melhor ainda no cérebro porque lhe dão qualquer coisa para ele se entreter ou porque ele, assim, se foca em vocês em vez de resolver algum problema ou porque o acalmam…, mas só por alguns minutos. Depois disso o estômago fica cheio e é instantaneamente horrível… Vem a culpa e o arrependimento e é uma m… (…).”

Ainda tive de voltar ao consultório e, por isso, peguei neste pedaço de texto do qual me recordara na esplanada para o transcrever. É duro, mas é preciso deixar uma palavra de esperança de forma realista. A comida é uma coisa muito séria, assim como a relação que se tem com ela, mas é possível transformar e tratar quando aprisiona em vez de consentir liberdade. Como alguém disse, o paladar é uma extensão da inteligência. E saber geri-lo é, claramente, uma expressão das nossas emoções. A coragem para pedir ajuda é, quase sempre, o princípio da vitória a conquistar.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de Depois dos 50 (ed. Sopa de Letras) e Reabilitação de Pessoas com Doença Mental (ed. Climepsi), entre outros livros; este texto será publicado na revista Hospitalidade nº 325 (Julho-Setembro 2019).

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Tinha 73 anos

[Olhar de teóloga]

Tinha 73 anos novidade

Decidi que, sempre que, infelizmente, escrever sobre o suicídio de um padre, vou intitular o artigo com a idade daquele que não encontrou outra saída.
Bernard Card, da diocese de Dijon, em França, suicidou-se na casa paroquial. Ao que parece, era um padre activo, envolvido em várias atividades diocesanas e de trato fácil e próximo. [Texto de Cristina Inogés Sanz]

Menos grelhas para preencher, mais pensamento em conjunto? O desafio da colaboração nas escolas

[Entre o quadro e o mundo (32)]

Menos grelhas para preencher, mais pensamento em conjunto? O desafio da colaboração nas escolas novidade

Ter reuniões marcadas, tempo reservado nos horários e instrumentos para registar o trabalho conjunto não significa necessariamente que exista colaboração entre professores. No novo episódio do podcast “Entre o Quadro e o Mundo”, Luís Francisco Marques questiona uma escola cada vez mais capaz de organizar e medir o que é feito por todos, mas nem sempre capaz de criar uma cultura em que os professores pensem verdadeiramente em conjunto.

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente

Evocação

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente novidade

A morte e a noite caíram sobre nós demasiado depressa com a notícia do falecimento de Pai Telmo. Os seus 100 anos foram um sopro veloz que não deixou ninguém indiferente e a sua dedicação à Igreja dos mais pobres uma brisa que suavizou muitas dores. [Texto de padre José Alfredo].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.