A minha sogra merece, as outras também

| 29 Dez 2020

Mulheres no Maputo (Moçambique) Foto © Teresa Vasconcelos, cedida pela autora: “Cada sogra, a seu modo, tem a sua forma de agir…”

 

Não é por ser eu a escrever que elogio a minha sogra. É que ela, de facto, merece elogios e uma boa lembrança da minha parte. Tenho pena de não ter convivido muito mais tempo com ela. Digo isso repetidas vezes.

Tinha privado com ela, na altura da festa do meu casamento, à qual ela se deslocou de Inhambane, uma província do sul de Moçambique, onde vivia, para assistir ao casamento do seu filho. Gostei de a conhecer e gosto de ouvir os comentários que fazem sobre si, quando algumas pessoas da minha família dela se recordam no dia da referida boda. Ela dançou muito. Ia muito feliz. Não se conteve, nem se comediu. Nem teve o receio de estar num lugar no qual conhecia poucas pessoas.

Depois dessa festa, passados uns poucos anos, fui a sua casa. O motivo não era dos melhores. Tinha falecido o meu sogro, esposo de quem me venho referindo e de mais outras três mulheres. Duas delas, a minha sogra e a outra mulher, até viviam no mesmo “quintal”, em espaços contíguos. Quando lá cheguei, supostamente, de acordo com a tradição local, todas as lides de casa estariam sob a minha responsabilidade e da de outras cunhadas, noras das minhas sogras: a mãe do meu esposo e das suas madrastas. Tenho poucas cunhadas, porque há mais mulheres na família dele, além de que, naquele evento, o do óbito, havia muitíssima gente, tal como é costume na região quando algo similar acontece. Contribuiu ainda mais para a enchente o facto de que, tendo sido secretário do régulo, o meu sogro era muito conhecido. Então, estava lá a sua família e muitos populares para assistir ao evento de muitos dias.

Tive de os receber. Eu e mais duas concunhadas. A minha sogra disse-me: olha, sei que não conheces muito bem esta forma de estar, embora sejas filha e neta de conterrâneos meus. Irei ajudar-te. Vou acordar cedo, varrer o quintal, encher os tambores de água, acender a lenha e colocar outra água em baldes, para as tias do teu marido, as minhas cunhadas, tomarem banho. Como já tenho nora, tem de ser ela a fazê-lo e não eu. Assim que eu terminar essa parte, irei acordar-te e me colocar sentada com as outras senhoras, porque a essa hora já estarão acordadas. E tu deves chamá-las e a mim também para tomarmos banho e depois tens que, rapidamente, fazer o chá para o servir, enquanto já preparas o almoço.

O comer era para ser feito para um número inestimável de gente. Nunca se sabe quantos é que assistirão ao evento e quantos ficarão pela casa, homenageando o falecido e acompanhando a sua família, após o enterro. Em princípio, algumas dessas pessoas devem ficar na casa mais tempo, até à missa do sétimo dia após a morte, mas esse período, por livre recreação, pode-se alongar…

Muitas pessoas me dizem que conhecem poucas sogras como a minha e um desses dias, em conversa, eu disse que escreveria sobre isso e uma das pessoas que estava na conversa disse-me que essa não é a sogra modelo e que o texto não faria sentido. Ou melhor, segundo se disse, eu deveria falar sobre os diferentes tipos de sogra. Aí vai.

A contribuição de uma outra pessoa que estava na conversa, cuja sogra é do sul de Moçambique, era a de que a sogra dela era “a treva” e que parecia que estava a cobrar-lhe uma factura pela existência do marido. Ela conta que, depois da festa do seu casamento, a sogra disse-lhe que a norma, na sua tradição, que é de Gaza, era a de as noras casarem-se e passarem uns dias na casa dos sogros a servi-los. Depois disso é que iriam para a sua nova casa. E frisou que as coisas tinham mudado, porque antigamente, os filhos se casavam e moravam no mesmo quintal que os pais.

Como a nora não cumpriu com esse preceito, não teve descanso. Em todos os eventos familiares, a sogra fazia questão de lhe recordar que ela era uma incumpridora e que estava em dívida. Que nunca tinha tomado um banho ou um chá preparado pela nora. Até que um dia, essa nora decidiu que, durante dez dias, iria à casa da sua sogra: acender lenha, ferver água, colocar no balde e convidar os sogros para tomarem banho, enquanto ela colocava o chá à mesa. Depois de tudo, partia para o seu trabalho. Refira-se que tinha de ir aos sogros às cinco da manhã, hora em que geralmente acordam. Por acaso, sempre que vou a Inhambane, há uma cunhada minha que me recorda que eu nunca lhe levei água à casa de banho, para ela tomar banho. Tenho feito ouvidos de mercador.

Uma outra nora, também do sul de Moçambique e com os sogros da mesma região, contou-me que nunca teve saudades da sua sogra, desde que deixou de a ver. O que conta é que, depois que se casou, foi viver com a sogra e esta todos os dias encontrava na nora um defeito e fazia questão de o propalar aos “quatro ventos”. A narradora recorda-se que, sempre que lavasse a roupa de casa e que a colocasse no estendal, a sua sogra ia lá retirar a sua roupa, a do filho e a da neta, deixando no estendal a da nora. Voltava a lavar a roupa acabada de apanhar no estendal. Esta sogra, se a nora cozinhasse verduras, fazia uma outra comida para si e para o filho. Esse novo prato nunca era servido à nora.

Procurei saber como é que seria em outros lugares do país. E antes de entrevistar quem quer que fosse, recordei-me que em tempos, um colega meu da Zambézia, centro de Moçambique, tinha-me contado que os genros deviam muito respeito às suas sogras e que, quando elas fossem a casa das filhas, o genro só lhes dirigia a palavra e vice-versa, quando fosse estritamente necessário. Eles não podiam andar a circular, sem motivo, por perto da sogra, em sinal de respeito.

Entrevistei uma mulher nascida no Sul, a residir em Nampula, Norte do país. Os seus relatos, não diferiam dos da mulher do Sul, que me tinha contado que não tem saudades da sua sogra. As relações entre as duas mulheres não eram das melhores. E isto contraria o que um outro entrevistado da mesma região e com a sogra sua conterrânea me contou. Ele referiu que a sua sogra o tratava como filho. E era muito grata por ele ser marido da sua filha.

Ficam aqui, generalizadas, histórias sobre diferentes sogras. Cada uma, a seu modo, tem a sua forma de agir. Há as dóceis e bondosas, mas regra geral, e julgo que universalmente, o assunto sobre elas tem a mesma tónica, a que está virada para o “azedume” entre elas e as suas noras.

 

Sara Jona Laísse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica em Maputo e membro do Graal, movimento Internacional de mulheres cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

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