AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Estantes de livros. Foto © José Alves Jana.

A minha vida daria um livro

Estantes de livros. Foto © José Alves Jana.

“Nunca digam a um escritor que a vossa vida daria um livro.” Foto © José Alves Jana.

 

“A minha vida daria um livro” é a mais cómica das frases que se pode dirigir a um escritor.

Há dias, apanhei o Uber de Copacabana para a Barra Da Tijuca – para quem não conhece o percurso, posso esclarecer que demora, dependendo do trânsito, aproximadamente uma hora.

O condutor, para quebrar o silêncio da demorada viagem, perguntou que exposição ou filme eu ia ver à Cidade das Artes; respondi-lhe que ia para a apresentação do meu livro na biblioteca do recinto.

Depois de alguns comentários de admiração, perguntou-me se não queria escrever um livro sobre a sua vida.

Começou por me contar episódios da infância no México, da dificuldade que foi chegar ao Brasil e lutar para não morrer de fome, ou cair na vida do crime. Ouvi-o.

Quando, finalmente, parámos na Cidade Das Artes e saí do veículo despedindo-me, o senhor insistiu para que trocássemos números de telemóvel, e para que eu “pensasse bem”, que a sua vida daria um best-seller. Agradeci, sorri e fechei a porta.

Quem nunca disse “a minha vida daria um livro”? Os escritores e os leitores. Esses sabem que nenhuma vida, por mais esplendorosa que seja, se assemelha à literatura. E é para isso que existem os livros, para colorir o cinza.

Os escritores escrevem porque não lhes basta a sua própria história, porque cada um, por si só, é tão pouco comparado à imaginação de um mundo inteiro; os leitores leem porque a realidade não provoca o sonho, e viver sem sonhar é estar morto.

As vidas não dão livros, as vidas são esqueletos que a literatura vai pondo de pé página após página, nutrindo até ao fixar da carne e à formação de um corpo orgânico.

Todas as vidas dariam um livro se cobertas de imaginação para além do óbvio; a vida é superficial e finita, a literatura é profunda e permanente. Nenhuma biografia acontece sem ficção.

Nunca digam a um psicólogo que daria um bom psicólogo só porque gosta de conversar. Nunca digam que podiam ter sido médicos só porque conhecem as bulas de cor. Nunca digam a um advogado que daria um bom advogado só porque grita a favor dos injustiçados. E, acima de tudo, nunca digam a um escritor que a vossa vida daria um livro: correm o risco de cair em presunção e pôr a nu a ignorância literária.

A vida é para viver… a imaginação é para escrever.

Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra, estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro, onde actualmente estuda Letras.

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This