[Segunda leitura]

A minha vida por uma medalha?

| 1 Ago 2021

Natação Olímpica. Desporto

“São ídolos tão distantes de nós, tão estratosféricos, tão a milhões de quilómetros dos nossos corpos medianos, que mal parecem reais”. Foto © Gentrit Sylejmani / Unsplash

 

Isto dos Jogos Olímpicos anda a dar-me que pensar.

A coisa começou quando me pus a olhar para os corpos dos nadadores e das nadadoras. Viram? Aquilo são uns troncos (da cinta para cima, digo) tão desenvolvidos que mais parecem o que na gíria chamamos “grandes armários”. Ou “guarda-vestidos”. Fazem um trapézio com uma inacreditável largura de ombros, e uma grossura de braços, e um tamanho de peitorais, e uma sucessão de músculos ali em cima e por ali abaixo que até mete impressão. E nas pernas uns pedações também… A bem dizer, aqueles corpos quase nem parecem de pessoas “como as pessoas”! São super-homens, são super-mulheres. De tão fortes e largos e musculados, os corpos quase parecem deformados.

Como é que se faz aquilo? Como se forma e se mantém aquele físico? Como é que se consegue? Quantas horas, dias, meses, anos de treino intensivíssimo, de dietas, de alimentos medidos ao milímetro, de privações, de sacrifícios, de entrega total na busca de… de… de um sonho, vá lá. De uma presença naquele cenário maravilhoso de uns Jogos Olímpicos, da conquista de uma medalha – e se pudesse ser de ouro, já agora…

É costume dizer que são os nossos ídolos. Mas são ídolos tão distantes de nós, tão estratosféricos, tão a milhões de quilómetros dos nossos corpos medianos, que mal parecem reais. Inatingíveis. E depois, quando começam a nadar, com a velocidade de quem tem dois motores nos braços e outros tantos nas pernas, até nos fica a faltar o fôlego. Pronto, pode ser interessante como espetáculo, muitas vezes é, e há competição renhida, e há luta, e há emoção, tudo isso, mas é uma coisa “lá deles e delas”, não tem nada a ver connosco, com as nossas corridas, com o desporto que nós fazemos por necessidade ou por prazer, assim, normaizinhos, com uns corpos ora mais magrotes, ora mais gorduchos, mas dentro de uns limites razoáveis. Aquilo não, aquilo é quase do domínio do extra-terrestre…

(Até por isso, dei comigo a pensar que era giro haver também outros Jogos Olímpicos paralelos a estes, uns jogos com pessoas “como as pessoas”, gente como eu e tu, medianamente treinados, medianamente esforçados, e depois que ganhe quem nadar mais depressa, e pronto, vamos à vida, que há mais vida para além do treino e dos jogos e do treino e dos jogos… e do treino… e dos jogos… Parece uma ideia um bocado palerma, mas percebem onde quero chegar com ela, certo? É meio a sério e meio a brincar. Mas toca um ponto, acho eu. Aliás, no princípio das olimpíadas a ideia era um pouco essa, lembram-se?, só podiam participar amadores, etc. e tal, profissionais ficavam de fora, já sei, foi há muitos anos, tanta água correu debaixo das pontes, ok, adiante…)

Claro que com esta pressão toda e com este investimento enorme e com a fasquia colocada tão alto, não admira muito que aqui e ali as coisas quebrem. Não se aguentem. Não pelo corpo, que esse está uma completa perfeição, mas pela cabeça. Pela alma. Pelo querer e não querer, pelo conseguir e não conseguir, pelo aguentar e não aguentar. Viu-se agora com a ginasta Simone Biles. A grande favorita. Um ícone. Era para umas quatro ou cinco medalhas de ouro, isso tudo. Como tinha sido há cinco anos, no Brasil. E ela, nos seus tenros 24 aninhos (sim, a gente até se esquece a ver aquelas ‘performances’ incríveis de gente madura, a gente até se esquece que são uns meninos e umas meninas novinhos, 18 anos, 20 anos, vinte e poucos… ainda tão frágeis, ainda tão pequeninos, ainda tanto para crescer!), ela nos seus tenros 24 aninhos, dizia, quebrou. Desistiu. Que não queria mais. Que não se sentia bem. Que não podia. Que a vida é mais coisas do que uma medalha de ouro, prata ou bronze. Que a insuportável pressão de ter de ganhar até quase nem deixa espaço a que a gente aprenda a saber perder, essa coisa tão, mas tão importante também.

A desistência de Biles espanta, num primeiro momento, mas depois nem por isso… O que espanta, se calhar, é que não haja muitos e muitas mais como a Simone Biles. Às tantas até há, em graus diversos, mas não chegamos a saber, ou não chegam a dizê-lo em público, ou ficam pelo caminho e vão tratar de vida. Porque volta e meia ouvimos notícias sobre umas depressões fortes, umas tentativas de suicídio, uns dramas pessoais… E também notícias da violência que sofrem meninos e meninas desde tenríssima idade só para se tornarem campeões na ginástica, na natação, nisto e naquilo. Nos Jogos Olímpicos, pois. E há aqui uns exageros que não parecem nada bem. E há ‘pormenores’ que muita gente parece estar a esquecer, só para que o espetáculo continue, doa a quem doer. Vale tudo? Vale a pena assim? Em nome de quê?

Volto à minha. Fazer uma espécie de jogos à medida das pessoas, das pessoas “como as pessoas”, pessoas como qualquer um(a) de nós, simples, normais, diferentes umas das outras, é uma ideia meio palerma e muito fora do real. Certo. Mas digam lá se não era giro…

 

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