7MARGENS na Antena 1

A “Misericórdia” de Lídia Jorge, Deus e as feridas do mundo

| 3 Nov 2023

Lídia Jorge, Antena 1, 7Margens

Lídia Jorge no programa 7MARGENS, na Antena 1: “Deus é um absoluto, é a grande questão da vida, é a minha grande questão.” Foto © Tomás Gomes/Antena 1

 

A mãe pediu-lhe um livro com o título Misericórdia, um título “tão solene, tão ontológico, tão religioso” que Lídia Jorge achava que não seria para usar. A mãe insistiu, na última vez que se viram, em 8 de Março de 2020, que era importante esse livro, “para que as pessoas sentissem compaixão umas das outras”.

A história é recordada pela autora de O Dia dos Prodígios na terceira emissão do 7MARGENS na Antena 1, que está já disponível na RTP Play e nas plataformas digitais.

Depois da morte da mãe, em Abril daquele ano, e de ter recebido alguns objectos que ela deixara, Lídia Jorge percebeu o caminho que poderia tomar para construir o romance, que recebeu nesta sexta-feira o terceiro prémio com que foi já contemplado, o do Pen Clube. E viu-se a escrever sobre os idosos que “são marginais da idade num lar e os cuidadores [que] são marginais sociais”. Mas também sobre a mãe, sobre Deus e a fé, sobre as relações sociais – e sobre a misericórdia, afinal.

Acerca de Deus, Lídia Jorge diz: “É um absoluto, é a grande questão da vida, é a minha grande questão.” Considerando-se “crente na vontade de crer”, a escritora diz que “a coisa mais séria” é “essa busca”: “Temos uma vontade de não ser finitos, de encontrar uma totalidade que dê sentido à desordem e que seja o espelho da beleza.”

Beleza não é o que vemos na guerra, outro tema tratado na entrevista. “O que está a acontecer é de uma enorme desilusão”, diz, sobre o que se passa desde o fim da pandemia. E falando especificamente acerca do conflito entre Israel e o Hamas, recorda vários amigos que tem em Israel, e que tinham o ideal do “bom relacionamento” com os palestinianos. “Os últimos anos anunciavam” isso que agora se está a passar, afirma. “Aquilo que está a acontecer no Médio Oriente é uma espécie de metáfora de como o mundo pode de um momento para o outro ser assim: dois blocos, um em frente do outro, digladiando-se até ao fim.”

No final do programa, e comentando as notícias dos últimos dias no 7MARGENS, Lídia Jorge volta ao tema, a propósito da tomada de posição da Amnistia Internacional acerca do ódio nas redes sociais. O maestro Daniel Barenboim, da Orquestra Leste Oeste, que reúne árabes e israelitas, escreveu há dias que a superioridade dos israelitas seria não responder da mesma forma, recorda a escritora. “Tem de haver um momento em que alguém não responde, em que alguém quebra a cadeia da violência”, afirma, mas as “redes sociais estão incendiando o mundo inteiro”.

Também a sugestão cultural deixada por Lídia Jorge remete para o mesmo tema: Abelhas Cinzentas, livro de Andrei Kurkov, passado em 2017, na região do Donbass, no sudeste da Ucrânia, um dos palcos principais da invasão russa. Uma história que fala de “uma espécie de bandeira de paz entre dois lados”, uma “antevisão do que iria acontecer” em 2022.

Lídia Jorge considera que estamos hoje “a tratar melhor os mais velhos” e que “as casas de acolhimento das pessoas idosas são sítios de fraternidade, são sítios de generosidade”, admitindo as excepções. O que falta, diz entre outras coisas, é formação e remuneração à altura.

Afirmando que vai “com a vida” e que se sente “completamente envolvida com o mundo”, a autora de Os Memoráveis diz que a morte é “o grande enigma”, mas que o melhor é pensar em “viver por inteiro completamente”: “O mais importante é acreditar na vida, há uma eternidade que é a nossa própria vida ser vivida ao lado dos outros”, afirma.

Recordando a apresentação do livro, feita há um ano pelo cardeal José Tolentino Mendonça, a autora que, com este livro, venceu o Grande Prémio de Romance e Novela de 2022, da Associação Portuguesa de Escritores, diz que misericórdia é, enfim, “um sentimento que salva a humanidade”.

O programa pode ser ouvido na íntegra em https://www.rtp.pt/play/p12257/7-margens

Lídia Jorge, Antena 1, 7Margens

Lídia Jorge: “Tem de haver um momento em que alguém não responde, em que alguém quebra a cadeia da violência”, Foto © Tomás Gomes/Antena 1

 

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