A misericórdia triunfa sempre sobre o juízo

| 19 Nov 21

Juízo final. Michelangelo

“Apesar de levantar a sua mão direita em sinal de julgamento, aponta a sua mão esquerda para a ferida do flanco direito de onde jorrou água e sangue, sinal da sua infinita misericórdia derramada por toda a humanidade.” Pintura:  Michelangelo, O Juízo Final. Capela Sistina. 1534-1541 (Cidade do Vaticano).

 

O fresco do Julgamento Final, de Miguel Ângelo, pintado na parede da Capela Sistina, demonstra bem o drama dos que, nos finais dos tempos, irão ser confrontados por Jesus. Embora o tema desta magistral obra seja o julgamento – que tem como fundo a passagem do Evangelho de Mateus (25:32-46) – alguns críticos da obra de Miguel Ângelo veem na figura de Cristo alguém que vem com misericórdia: apesar de levantar a sua mão direita em sinal de julgamento, aponta a sua mão esquerda para a ferida do flanco direito de onde jorrou água e sangue, sinal da sua infinita misericórdia derramada por toda a humanidade. Mas como entendemos hoje nós o Julgamento Final? Como será esse julgamento presidido por Jesus?

Historicamente é um facto comprovado que, desde os primórdios, a teologia cristã e o sistema jurídico ocidental andaram lado a lado. Até os autores dos livros que compõem o Novo Testamento, quando falam de justiça, ou se socorrem de conceitos encontrados na Lei de Moisés e na Tradição Judaica ou no direito romano.

Podemos afirmar desde já que o tema da justiça é central ao longo das escrituras hebraicas. O Deus de Israel é um Deus extremamente apaixonado pela justiça, delicia-se com ela, podendo mesmo dizer-se que a mesma faz parte do seu caráter. O povo de Israel sempre verificou que Deus, embora sempre castigasse os que fossem culpados na transgressão da sua Lei para que se convertessem e voltassem aos bons caminhos, era um “Deus compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade, que mantém o seu amor a milhares e perdoa a maldade, a rebelião e o pecado” (Êxodo 34:6,7).

Em nenhuma passagem bíblica se verifica a Justiça de Deus como tendo o sentido de castigo como fim em si mesmo; antes pelo contrário: a justiça, se aplicada em forma de castigo, tem sempre um fim pedagógico e corretivo para levar a rever os caminhos pessoais. O Salmo 25:6, em que David demanda a Deus que se lembre da sua compaixão e misericórdia (como o tem mostrado deste a eternidade), mostra como a justiça divina apenas é sensível ao desejo do arrependimento e conversão.

Ninguém melhor do que os profetas souberam tão bem expressar a certeza inabalável num Deus misericordioso. Isaías coloca na boca de Deus as seguintes palavras: “Num impulso de indignação escondi de ti por um instante o meu rosto, mas com bondade eterna terei compaixão de ti, diz o Senhor, o teu Redentor” (Isaías 54:8). Jeremias, num ímpeto de gratidão, afirma mesmo: “Graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis. Renovam-se cada manhã; grande é a tua fidelidade!” (Lamentações 3:22-23). Também o profeta Oseias coloca na boca de Deus: “O meu coração dá voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas. Não desafogarei o furor da minha cólera – porque sou Deus e não um homem” (Oseias (11:8). Deus contém com mais facilidade a Sua ira do que a Sua misericórdia. A misericórdia de Deus é o coração pulsante do Evangelho.

O próprio Jesus, a imagem perfeita do Pai (Colossenses 1:15-16), nos mostra, melhor do que ninguém, a misericórdia de Deus, contraposta à justiça dos religiosos e legalistas da Lei. Quando acolhia os publicanos, os pecadores à Sua mesa, lembrava, aos que O criticavam, as palavras do profeta Isaías, “Misericórdia quero, não sacrifícios” (Mateus 9:13). No sermão da planície, Jesus, depois de ensinar acerca do dever de amar sempre os inimigos, observa que o Pai é bom até para com os “ingratos” e “maus”. Termina magistralmente com a sentença “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso!” (Lucas 6:35-36). O que Jesus está praticamente a dizer aqui é que a misericórdia do Pai é deveras escandalosa aos olhos dos homens e que Ele não pune ninguém segundo o que merecem, mas a todos ama com amor que está para além do que possamos imaginar.

A misericórdia triunfa sempre sobre o juízo (Tiago 2:13). Quando Jesus vier na Sua glória para julgar os vivos e os mortos, irá certamente confrontar e conceder justiça a todos. Estar perante o olhar de Jesus, que conhece todas as coisas, que a todos conhece e compreende, será, ao fim e ao cabo, olharmos para nós mesmos, para as nossas limitações, misérias e pecados e, ao mesmo tempo, sermos confrontados com o peso imensamente esmagador da graça e amor de Deus. O tribunal de Cristo irá ser o local para a cura das muitas mágoas causadas pelo mal das pessoas, mas dali mesmo também sairá a cura para todas as nações porque Jesus concederá finalmente ali a justiça para toda a humanidade (Apocalipse 22:1-2).

Conforme escreveu o cardeal Walter Kasper, “a imagem de um Deus punitivo e vingativo lançou muitas pessoas num estado de ansiedade sobre a sua salvação eterna. O exemplo mais conhecido e com maiores consequências na história da igreja é o do jovem Martinho Lutero, para quem a pergunta – ‘Como posso ter certeza de que Deus me é gracioso?’ – causou uma assustadora agitação na sua consciência durante muito tempo até que ele veio a saber que, segundo a Bíblia, a justiça de Deus não é a justiça punitiva de Deus, mas sim a justiça justificadora de Deus, que inclui a sua misericórdia. A Igreja ficou dividida em relação a esta questão no século XVI. A relação de justiça e misericórdia tornou-se assim a questão fatídica da teologia ocidental.” Necessitamos, assim de recuperar essa verdadeira imagem de Deus como um Deus de infinita misericórdia. Recorda-se aqui a frase do Papa Francisco: “A misericórdia é o primeiro atributo de Deus. É o nome de Deus”.

O escritor e jornalista cristão norte-americano Philip Yancey relata numa das suas obras um facto verídico de um julgamento ocorrido nos conturbados tempos de transição do apartheid na África do Sul. A fim de pacificar e reconciliar a nação, Nelson Mandela nomeou o bispo Desmond Tutu para chefiar a famosa Comissão de Verdade e Reconciliação. Ninguém seria julgado se confessasse perante o tribunal os seus crimes e reconhecesse as suas culpas. Numa dessas audiências, um polícia chamado Van de Brock relatou um incidente em que ele e outros colegas seus mataram a tiro um rapaz de dezoito anos e queimaram o seu corpo. Oito anos depois, o mesmo polícia voltou à mesma casa e agarrou o pai do rapaz. A mulher foi forçada a olhar enquanto os polícias amarraram o seu marido sobre um monte de lenha, derramaram gasolina sobre o corpo dele e atearam-lhe fogo. O tribunal ficou em silêncio quando a mulher idosa, que havia perdido primeiro o filho e depois o marido, teve a oportunidade de resposta. “O que é que a senhora deseja que seja feito ao Sr. Van de Brock?” perguntou o juiz. Ela respondeu que queria que o Sr. Van de Brock fosse ao local onde haviam queimado o corpo do seu marido e recolhesse as suas cinzas a fim de dar-lhe um enterro decente. Com a cabeça baixa, o polícia acenou que concordava. Depois ela acrescentou outro pedido: “O Sr. Van de Brock tirou-me toda a minha família, e eu ainda tenho muito amor para dar. Duas vezes por mês, gostaria que ele viesse até ao gueto e passasse o dia comigo, de modo que eu possa ser uma mãe para ele. E gostaria que ele soubesse que ele foi perdoado por Deus e que eu também o perdoo. Eu gostaria de abraçá-lo para que ele saiba que o meu perdão é verdadeiro.”

Espontaneamente, alguns dos presentes começaram a cantar o hino Amazing Grace (“Maravilhosa Graça”), quando a senhora idosa se encaminhou para o banco das testemunhas, mas Van de Brock não ouviu o hino. Ele desmaiou completamente arrasado pela emoção. Não se fez justiça naquele dia na África do Sul, como não se fez no país inteiro durante os meses dos dolorosos processos da Comissão de Verdade e Reconciliação. Algo para além da justiça aconteceu. “Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem”, disse o Apóstolo Paulo. Nelson Mandela e Desmond Tutu entenderam que, quando o mal está feito, só uma resposta pode vencê-lo. A vingança perpetua o mal e a justiça o pune. Mas o mal é vencido pelo bem se a parte ofendida o absorver, recusando-se a permitir que ele avance ainda mais. E esse é o modelo de graça do outro mundo que Jesus mostrou na sua vida e morte.

 

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.

 

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