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"surpreendeu tudo e todos com a vontade expressa de ser enterrado no lendário Cemitério da Missão da Huíla, nas periferias do Lubango (Angola), onde foi bispo." Foto: Cemitério da Huíla. DR

Sepultura do bispo Kamwenho

A missão da Huíla, o histórico cemitério e o deslumbramento de Miguel Torga

| 04/06/2026

 

O bispo Zacarias Kamwenho, que morreu sexta-feira, 29 de maio, e foi sepultado nesta quinta, 4 de junho, surpreendeu tudo e todos com a vontade expressa de ser enterrado no lendário Cemitério da Missão da Huíla, nas periferias do Lubango (Angola), onde foi bispo. Poderia ter escolhido a Sé do Sumbe ou a do Lubango. Mas conhecer um pouco da história desta Missão ajudará a compreender a decisão deste arcebispo angolano sobre o local de sepultamento – com o qual Miguel Torga ficou deslumbrado.

Missão da Huíla, Angola

“A Missão da Huíla, fundada em 1881 por Missionários Espiritanos (com o padre José Maria Antunes como superior), foi um centro fundamental de evangelização, educação e desenvolvimento técnico na região sul de Angola.” Foto: Missão da Huíla. DR

A Missão da Huíla, fundada em 1881 por Missionários Espiritanos (com o padre José Maria Antunes como superior), foi um centro fundamental de evangelização, educação e desenvolvimento técnico na região sul de Angola.
Os Missionários do Espírito Santo e as Irmãs de S. José de Cluny foram os principais cabouqueiros deste sul de Angola, trabalhando na formação integral do povo, desde a evangelização até à melhoria das condições de vida das populações pobres, investindo em áreas chave como a educação, a saúde, a agricultura, as artes e ofícios.

A Missão incluía a Escola do Magistério, internatos de padres e irmãs, além de oficinas de artes e ofícios (com oficinas de carpintaria, marcenaria e as artes de ferreiro, funileiro, pedreiro, sapateiro, tijoleiro e telhador – já com 80 aprendizes em 1888), dedicando-se ao ensino e à formação profissional. Em 1883, foram submetidos a exame público 74 alunos. Em 1888, 20 jovens frequentavam o Seminário-Colégio, que tinha sido mudado de Luanda para a Huíla.

Huila, Angola. Escola de Artes e Ofícios

“(…) oficinas de artes e ofícios (com oficinas de carpintaria, marcenaria e as artes de ferreiro, funileiro, pedreiro, sapateiro, tijoleiro e telhador – já com 80 aprendizes em 1888), dedicando-se ao ensino e à formação profissional.” Foto: Escola de Artes e Ofícios, Huíla, Angola. DR

O Internato das Irmãs de S. José de Cluny, em 1888, tinha já 80 meninas.

A Missão expandiu-se com a construção de uma igreja monumental iniciada em 1912 e concluída por volta de 1930, tornando-se uma referência no planalto.

“A Missão da Huíla fundou-se em 8 de dezembro de 1881 (…). Sob a direção do padre José Maria Antunes, botânico de nomeada, coadjuvado pelos missionários Carlos Duparquet e Carlos Wunenburger e pelos irmãos auxiliares Geraldo, Rodrigo e Lúcio (…) Nascem a partir daqui as Missões do Jau, em 1891, do Tchivinguiro, e, 1892, da Quihita, em 1894, e do Munhino, em 1898, a que se ligaram para sempre os nomes dos padres Bonnefoux e Leconte.” Mais tarde, nasceram ainda as Missões do Chiulo (1916), Gambos (1895), Sêndi (1927) e Lubango (1935), recordava, a partir de um boletim de 1969, o padre Adélio Torres Neiva, na Congregação do Espírito Santo – História da Província Portuguesa.

Hoje, são locais históricos a igreja da Missão e o cemitério onde estão sepultados muitos espiritanos e irmãs de S. José de Cluny, a que se juntaram vários padres diocesanos e muita população local. Entre as figuras mais conhecidas, pelas obras publicadas, estão ali sepultados os grandes etnólogos e linguistas padre Charles Duparquet, António Silva e Serafim Lourenço.

Miguel Torga: “Nomes de homens que vinham ao encontro da morte certa e prematura por conta de Deus e do semelhante. Por conta da fé, da esperança e da caridade”. Foto: primeiros missionários em Huíla, Angola. DR

Miguel Torga (1907-1995) visitou Angola em 1973, quase às portas da independência desta antiga colónia portuguesa. Nome grande da literatura lusófona e agnóstico confesso, seria profundamente tocado pelo que encontrou no lendário Cemitério da Missão da Huíla (Lubango). A 27 de maio, o médico-escritor português escreveu no seu Diário XII: “Depois do aéreo deslumbramento do maciço da Chela e do abissal fascínio da Tundavala, a rasa emoção do cemitério da missão católica da Huila. Aqui jaz…aqui jaz…aqui jaz… E são nomes de todas as nacionalidades, portugueses, belgas, franceses, alemães, inscritos lado a lado em humildes lousas iguais, seguidos de uma inscrição trágica: falecido com 24 anos, com 45, com 32… Nomes de homens que vinham ao encontro da morte certa e prematura por conta de Deus e do semelhante. Por conta da fé, da esperança e da caridade”.

D. Zacarias Kamwenho, após cinco missas na Catedral do Lubango e a missa de corpo presente no Estádio da Senhora do Monte, quis juntar-se a estes missionários e missionárias que deram a vida para que o povo do sul de Angola pudesse viver com mais dignidade.

 

Tony Neves é padre católico e trabalha em Roma como assistente geral dos Missionários do Espírito Santo (CSSp, Espiritanos), congregação de que é membro.

 

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