Simpósio, Congresso, História e Dicionário

A mística como não-limite da condição humana, trazida à luz do dia

| 7 Set 2023

Imagem gráfica do Congresso Internacional de Espiritualidade e Mística 2023

Imagem gráfica do Congresso Internacional de Espiritualidade e Mística: um tema desvalorizado, que o projecto pretende resgatar.  

 

É um projecto vasto: um simpósio já no próximo sábado, que inclui a possibilidade de participação via zoom; um congresso em Abril do próximo ano, em Braga; uma História Global da Espiritualidade e da Mística em Portugal, em sete volumes, e um Dicionário Global da Espiritualidade e da Mística, em dois volumes, duas obras a publicar até 2025, idealmente.

“A mística tem sido um tema desvalorizado, mesmo na academia e na teologia”, diz ao 7MARGENS a teóloga Eugénia Abrantes que, com o historiador José Eduardo Franco, dirige o projecto, no âmbito do IEAC-Go (Instituto de Estudos Avançados em Catolicismo e Globalização). “Quando falamos da experiência mística cristã, estamos a falar de uma experiência humana de totalidade e de relação consciente com Deus. Estamos a falar da busca do não-limite humano, de todas as questões sobre o que se conhece ou não conhece, de um Mistério que necessita de fazer-se experiência para que a existência humana ganhe o sentido pleno a que tanto anseia.”

Eugénia Abrantes explica: “Os grandes espirituais e os grandes místicos tornaram-se grandes fazedores de história, empreendedores, líderes notáveis e notáveis educadores, psicólogos, gestores, etc., justamente reconhecidos hoje como tal.” Por isso não será de estranhar a inclusão de nomes de poetas, políticos/políticas ou cientistas, entre outros.

O congresso de Abril 2024 e os diferentes volumes da História e do Dicionário pretendem, assim, esboçar uma síntese do que se pode dizer neste momento, seja sobre temáticas mais abrangentes, seja sobre alguns dos nomes incontornáveis em relação aos dois temas gerais. “Quando se faz uma síntese, não se pretende apresentar algo finalizado, mas dar início ao trabalho”, diz a responsável do projecto. O congresso, a História e o Dicionário completam-se, assim, como labor “inédito, para ser aprofundado e como oportunidade de reler a história da cultura portuguesa a partir das coordenadas da espiritualidade e da mística”.

Por isso, diz ainda Eugénia Abrantes, o objetivo é “desafiar o humano a questionar-se sobre o nosso tempo, com as suas contradições e interrogações, a partir da espiritualidade e da mística”. E, ao mesmo tempo, pretende-se resgatar da sombra “figuras, textos e temas essenciais da História portuguesa”. Mas não só: é porque o Dicionário pretende olhar para o cristianismo ocidental – o Oriente é todo um outro mundo e, neste momento, não há muitas pessoas que, em Portugal, conheçam e investiguem sobre mística oriental, justifica a coordenadora do projecto.

 

Erotismo e Metáfora na Mística

Nesta obra, Eugénia Abrantes analisa o pensamento de personalidades como frei Agostinho da Cruz, frei Tomé de Jesus e D. Manoel de Portugal, entre outros.

No próximo sábado, o simpósio na Universidade Aberta (R. da Escola Politécnica, 147, ao Rato, em Lisboa), com início às 9h30, fará o enquadramento da mística cristã em geral e na história portuguesa. O simpósio contará com a participação do arcebispo de Braga, José Cordeiro, e será encerrado pelo bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas, às 18h.

Antes disso, José Carlos Seabra Pereira, professor da Universidade de Coimbra e director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica, apresentará o livro Erotismo e Metáfora na Mística Portuguesa – do Renascimento ao Barroco (ed. Theya), da autoria de Eugénia Abrantes – que é também autora, entre outras obras, de Mística e Psicanálise (ed. Esfera do Caos). Naquela obra, a autora analisa o pensamento de personalidades como frei Agostinho da Cruz, frei Tomé de Jesus, padre Manuel Bernardes, Leão Hebreu (Iehudah Abrabanel), D. Manoel de Portugal, frei Heitor Pinto, frei Amador Arrais e frei António das Chagas.

Para participar no simpósio, os interessados deverão inscrever-se (10 euros para a participação presencial, 35 para a participação por zoom) na página do congresso, onde também é possível consultar o programa completo do simpósio.

“Uma sociedade que não promove um desenvolvimento espiritual forte é uma sociedade incompleta e mutiladora de uma das dimensões fundamentais do humano”, diz ainda Eugénia Abrantes, para defender a importância do projecto. E há diversas áreas do saber (Medicina, Psicologia, Gestão, História, Sociologia, Filosofia, etc.) que têm despertado para o valor da espiritualidade e da mística. Nessa linha, entre os coordenadores das diferentes áreas temáticas a abordar na História e no Dicionário, estão Viriato Soromenho-Marques (Ambiente), Marco Daniel Duarte (Arte), Armindo Vaz (Exegese Bíblica), Carlos Fiolhais (Física) e Rui Vieira Nery (Música). Ou ainda José Brissos-Lino (Protestantismo), colaborador do 7MARGENS, Paulo Mendes Pinto (Religiões não-cristãs), historiador da Universidade Lusófona, e Eduardo Duque (Sociologia), da Universidade Católica Portuguesa (Braga).

 

Poetas, monges, cientistas, políticos…

Lourdes Pintasilgo: mística na política, um dos nomes cujo pensamento será aprofundado. Foto © Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra/Arquivo Lourdes Pintasilgo.

O Congresso, com o título “À procura do não-limite”, decorre entre 24 e 27 de Abril de 2024, na Colunata do Bom Jesus do Monte, Braga, “um lugar onde se respira espiritualidade, poesia, história, arte, cultura”, como refere Eugénia Abrantes para justificar a escolha da cidade. Com 33 conferências de especialistas nacionais e internacionais, que falarão sobre espiritualidade e mística em diferentes áreas, o congresso incluirá ainda espectáculos musicais, uma visita a alguns espaços culturais e religiosos da cidade, um momento de declamação de textos místicos, de autores portugueses e estrangeiros, e uma viagem pela espiritualidade monástica no Minho.

No Congresso será feita a apresentação formal da História Global da Espiritualidade e Mística em Portugal e Dicionário Global de Espiritualidade e Mística. Contando com inúmeros investigadores de mais de duas dezenas nacionalidades, essas obras abordarão, entre outras, figuras históricas como António de Lisboa, Nuno Álvares Pereira, Amador Arrais, António Vieira, frei Bartolomeu dos Mártires, frei Heitor Pinto, Princesa Santa Joana, João de Deus ou Mariana Alcoforado.

Os judeus Iehudad Abravanel (Leão Hebreu) e Isaac Abravanel integram também a lista de nomes relevantes, a par de escritores e poetas mais recentes como Antero de Quental, Fernando Pessoa, Jaime Cortesão, José Régio, Sophia de Mello Breyner Andresen, José Saramago. O poeta e monge Daniel Faria, o frade dominicano José Augusto Mourão, o padre jesuíta e cientista Luís Archer e Teresa Santa Clara Gomes, fundadora do Graal, juntamente com Maria de Lourdes Pintasilgo, estão também entre os místicos a referenciar nas obras que ficarão publicadas, esperam os coordenadores, até 2025.

 

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