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autores-pedro fraga

[Entre Margens]

A mística da morte

| 01/12/2025

 «Nascimento, e cópula e morte tudo aqui,
tudo aqui, tudo aqui,
nascimento, e cópula e morte.
E se se fazem as contas está tudo aqui».
Thomas S. Eliot

 

Quando se medita sobre a morte, por sinal cria-se vida. Todos somos sujeitos de um laço entre uma origem que nos é contada e uma abertura de vida, onde acolhemos o dom, o aprofundamos e o modelamos em liberdade e responsabilidade. Todavia, neste caminho da vida, cedo ou tarde, a vida debate-se com a sua mortalidade. Tal como nos é dito por Teixeira de Pascoaes: «O berço esconde o túmulo; ou antes, o berço e o túmulo se confundem, formando um berço tumular, que recebe um cadáver e dá um anjo». (1)

A experiência da morte traz consigo um “sentimento trágico da vida” que, apesar de o humano ser capaz de o transcender pela sua consciência, lhe é devolvida a questão sobre o seu destino. A consciência de si tem como pano de fundo o sentido da vida e da morte. Como Roland Barthes o expõe no seu diário, após a morte da mãe: «Reunião demasiado numerosa. Futilidade crescente, inevitável. Penso nela, que está de lado. Tudo cede. É, aqui, o começo solene do grande, do longo luto. Pela primeira vez, passados dois dias, tive uma ideia aceitável da minha própria morte».(2) (3)

Pietà. Michelangelo

Pietà, Escultura de Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (1475-1564), esculpido em 1498-1499, Mármore © de Carrara, Basílica de São Pedro, Cidade do Vaticano

Sendo assim, a condição humana é marcada por uma inevitabilidade, pois, como recorda Juan Alfaro, «desde que cada homem começa a viver, começa a morrer, começa a aproximar-se do termo final, a morte».(4) De tal modo que, se a mortalidade é uma evidência, torna-se importante assumir a sua facticidade, porque é a morrer que se aprende a viver, e a viver que se experimenta o morrer. Não podemos deixar de assinalar que os horizontes onde nos inserimos não colocam a questão como um facto, nem permitem consenti-la e pensá-la. Na realidade, não temos a audácia de criar uma terminologia que possibilite um dizer da morte, porque a encaramos segundo critérios que, ⁴muitas vezes, tratam da questão com uma leveza que se auxilia do acaso e da sobrevivência, que colapsa numa rejeição «de um sentido que seja superior e que transcenda as funções elementares de um qualquer organismo vivo».(5)

Ora, o risco da redução do ser humano apenas a um dado biológico e físico enfraquece a nossa hermenêutica de estarmos no mundo. Todos construímos uma história encarnada, uma biografia de vida, isto é, uma unidade substancial e relacional, que não se apaga nem desaparece. É isto que o teólogo Olegario González de Cardedal distingue bem ao afirmar: «Cada uma destas dimensões é real em relação com as outras duas. As três são diferenciáveis, mas não separáveis na atual forma de existência. […] Por isso, ao falar da morte do homem, convém distinguir cuidadosamente entre morte biológica, morte pessoal e morte biográfica».(6) Na verdade, é aqui que reside o maior problema. Nem é tanto o declarar da morte biológica, mas o sentido da nossa morte pessoal e, junto dela, da nossa biografia. Como descreve Cardedal: «a questão fundamental da vida humana não é a nossa própria morte, mas a morte do outro, da pessoa que nos gerou, da que nos amou, daqueles que nos sustentaram pela sua fidelidade e força».(7)

Todavia, se a “intermitência da morte”,(8) se encontra situada no mistério da vida, como «rebento no interior»,(9) implica e requer um saber, um relacionar-se. Tal como afirma Julia Kristeva: «Cada vida é uma sobrevida, cada vida é sobrevivente, porque está além da morte e com a morte. A morte está em nós, é ela que esculpe a vida. […] se não pensarmos na mortalidade em nós, a vida perde sentido».(10)  Deste modo, o verdadeiro mistério será o inverso do que consideramos um percurso normal, já que todos sentimos que a pessoalidade e a história resistem. Será possível pensar-nos se a afetividade, a memória, as relações  fossem diluídas num puro nada?

Reconciliação

Josefina de Vasconcellos, Reconciliação, St. Michael’s Cathedral, Coventry.

Dentro de uma perspetiva cristã, há uma tensão escatológica que necessitamos de cultivar, porque o que nos é oferecido pela fé cristã é, fundamentalmente, um princípio de vida. De tal modo que as geografias e os cálculos sobre o pós-morte são exageros como adverte Karl Rahner: «À plenitude corresponde um carácter essencial de ocultação para nós […]. Sem esse caráter de ocultamento da plenitude não realizada, a fé e a esperança não seriam de modo algum o que são e o que têm de ser cristãmente. […] O escatológico existe na sua revelação justamente como o mistério».(11)

Assim, toda a forma de linguagem mostra-se enraizada no que é o humano, na sua imaginação, no seu desejo que na leitura da realidade se sentem convocados pelo dito a chegar, como sujeitos que falam frente a um horizonte comum e a uma verdade que nos religa. Neste caso, apreendemos que a morte pode ser lida num ato de liberdade, como parte integrante da existência. Nas palavras de Byung-Chul Han: «a vida é também afirmar a morte. A vida que nega a morte nega-se a si mesma. Só uma forma de vida que devolve a morte à vida nos pode libertar do paradoxo da vida morta-viva: estamos demasiado vivos para morrer e demasiado mortos para viver».(12)

Aprender a viver é o sentido da morte. Sigmund Freud intuiu-o ao questionar: «Não seria melhor dar à morte, na realidade e nos nossos pensamentos, o lugar que lhe compete, […] e de nos tornar de novo a vida mais suportável».(13)  Talvez aqui a morte possa ser a origem de outra vida, dado que o sentido do Evangelho nos revela que o ganho está na perda, pois só a vida doada é capaz de morrer, só a vida doada é capaz de testemunhar a alegria,  tal como S. João o traduz: «Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto» (Jo 12, 24). Só assim compreendemos o início da eternidade, que se manifesta na capacidade de nos unirmos (a comunhão dos santos), ao mesmo tempo que nos abre para o princípio da esperança. Como explica Leonardo Boff, a fé «as palavras de Salvação que não somente integram um passado mas garantem um futuro, aí se instaura um impulso que sempre contesta o presente em nome de uma utopia futura, que faz suportar a contradição na força de uma esperança em totalidade e que faz sonhar com novos céus e nova terra, com o homem novo reconciliado com a globalidade de suas relações.(….) Ela pretende saber alguma coisa do futuro; articula-o dentro do presente e implanta esperança no coração inquieto. Se isso vale para toda religião, vale de modo particular para o cristianismo».

Portanto, a  certeza que deve marcar o nosso horizonte é-nos revelado pela 1º Carta de S. João (4, 8.16): Deus é amor. Somos capazes de amar,  e por isso somos capazes de Deus, visto que «nada pode nos separar do amor de Deus» (Rm 8, 38-39). A finitude e a vida eterna estão sempre unidas, numa dança. (14)  Porém, na morte apenas resplandece o ensinamento da partida, da Pessach (passagem), e de que não vamos sem o amor que permanece vivo. Morre sem morrer. A verdadeira morte é ausência de amor. Tal como Jon Fosse o evoca em Manhã e Noite: «— Dói? — diz Peter. — Não existem corpos no nosso destino, portanto não dói — diz Peter. — Mas a alma, a alma dói? — diz Johannes. — Nem tu nem eu existimos no nosso destino — diz Peter. — É bom estar lá? — diz Johannes. […] E Johannes olha para Peter e vê Peter sorrir por detrás do cabelo branco […]. — Sim, tu, Peter, Peter — diz Johannes. E Peter e Johannes descem lado a lado em direção à Enseada […]. — Agora não deverás olhar apenas em volta, Johannes — diz Peter. — Agora deverás olhar apenas para o céu e escutar as ondas».

 

Notas

(1) Teixeira de Pascoaes, São Jerónimo e a Trovoada (Lisboa: Assírio & Alvim, 1992), 182.
(2) Roland Barthes, Diário de Luto (Lisboa: Edições 70, 2009), 70.
(3) Juan Alfaro, Da Questão do Homem à Questão de Deus, 3.ª ed. (Salamanca: Ediciones Sígueme, 1997), 17.
(4) Cf. José Pedro Lopes Angélico, “A morte como lugar de revelação e a esperança cristã,” Humanística e Teologia 38, n.º 1 (2017): 115.
(5) José Frazão Correira, “Nascimento e morte: iniciação e passagem”, PontosJ acedido a 7 de novembro de 2025.
(6) Olegario González de Cardedal, Sobre la muerte, 2.ª ed. (Salamanca: Ediciones Sígueme, 2003), 41.
(7) González de Cardedal, Sobre la morte, 15.
(8) Daniel Faria, Poesia (Porto: Assírio & Alvim, 2015), 45.
(9) José Saramago, As Intermitências da Morte (Lisboa: Editorial Caminho, 2005).
(10) Julia Kristeva, entrevista, Expresso, 2019.
(11) Karl Rahner, “Principios teológicos de la hermenéutica de las declaraciones escatológicas”, en Escritos de Teología, 4.ª ed. (Madrid: Ed. Cristiandad, 2002), 381.
(12) Byung-Chul Han, Capitalismo e Pulsão de Morte (Lisboa: Relógio D’Água, 2022), 35.
(13) Sigmund Freud, “Reflexões para os Tempos de Guerra e Morte”, in *Obras Completas, Vol. 12* (São Paulo: Companhia das Letras, 2010), 56.
(14) Cf. Dorothee Sölle, Mistica de la Muerte (Bilbao: Desclée De Brouwer, 1999), 70.

 

Pedro Fraga é sacerdote da arquidiocese de Braga.

 

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