A morte não se pensa

| 14 Nov 19

Em recente investigação desenvolvida por cientistas israelitas descobriu-se que o cérebro humano evita pensar na morte devido a um mecanismo de defesa que se desconhecia.

 

Todos os seres humanos adultos e plenamente conscientes sabem que a morte é inevitável – é apenas uma questão de tempo e oportunidade – e têm memória dos antepassados que já partiram, assim como a notícia dos seus conhecidos que todos os dias morrem de velhice ou doença, e dos que se finam em acidentes de viação ou na guerra. Mas poucos são aqueles que não desenvolvem estratégias emocionais para evitar pensar nela. Talvez porque, como dizia Publilius Syrus no séc. I a.C.,“o medo da morte é mais cruel do que a própria morte” (Sentenças). Pascal dizia mesmo que “é mais fácil suportar a morte sem pensar nela, do que suportar o pensamento da morte sem morrer” (Pensamentos, 1670), razão pela qual a pena de morte é uma dupla pena, desumana, indigna e injusta.

O estudo, citado pelo The Guardian, e que foi realizado por investigadores da Universidade de Bar Ilan, em Israel, concluiu que o cérebro humano tem um mecanismo de defesa com a função de nos proteger do medo existencial da morte. Parece que esse mecanismo procura aliviar-nos deste tipo de pensamento, levando à sensação de que a morte é uma circunstância funesta mais associada a outras pessoas, como explicou o responsável pelo estudo, Yair Dor-Ziderman: “O nosso cérebro não aceita que pensemos na morte associada a nós. Temos esse mecanismo primordial que significa que, quando o cérebro obtém informações associadas à morte, algo nos diz que não devemos acreditar.”

A investigação foi realizada com um grupo de voluntários que autorizaram a monitorização da sua actividade cerebral face à audição de palavras relacionadas com a morte, como funeral ou enterro. Entende-se assim que a função do cérebro que nos protege de pensar sobre a nossa própria morte pretende permitir-nos viver livremente o presente.

Embora saibamos racionalmente que vamos morrer um dia, tendemos a projectar essa probabilidade nos outros, de modo indistinto, talvez porque a sociedade seja hoje mais fóbica em relação à morte e, como consequência, talvez as pessoas também saibam menos sobre o fim da vida e receiem mais esse episódio.

Quando começamos a pensar muito no futuro corremos o risco de perceber que a morte toca a todos, incluindo também a nós, e que, independentemente da nossa idade, podemos morrer a qualquer momento, mesmo de forma inesperada, sem capacidade de fazer qualquer coisa para o impedir. No entanto, é da natureza do nosso organismo biológico lutar sempre pela sobrevivência.

Em comentário às conclusões deste estudo, pedido pelo jornal britânico, o psicólogo Arnaud Wisman, da Universidade de Kent, afirmou que os indivíduos levantam inúmeras defesas para evitar ou afastar os pensamentos ligados à probabilidade da sua morte. Trata-se duma cultura comportamental das sociedades modernas, uma espécie de fuga, que os leva a ocupações e distracções com compras e redes sociais, entre muitas outras, de modo a não pensarem nem se preocuparem com a morte.

Talvez a dificuldade em pensar na morte esteja associada à mesma razão porque se diz que a natureza tem horror ao vazio. Escrevendo sobre a iminência da sua morte, Thomas Hobbes dizia que estava para realizar a sua última viagem, “um grande salto no escuro” (Cartas, 1679). Um século depois Kant explicava que ninguém pode experimentar a morte em si mesmo, “pois experimentar é da alçada da Vida”, pelo que só é possível perceber a morte nos outros (Antropologia de um ponto de vista pragmático, 1798).

A esse supremo desconhecimento pode associar-se um outro grande incómodo humano que é a solidão, como descreveu Miguel de Unamuno: “Os homens vivem juntos, porém, cada um morre sozinho e a morte é a suprema solidão” (Do sentimento trágico da vida, 1913).

Mas talvez a maior dificuldade para racionalizar a morte seja a perspectiva da aniquilação do ser. Assim como não conseguimos racionalizar o período antes da concepção, antes da nossa chamada à existência, também não conseguimos fazê-lo com a fase pós-morte, até pela agravante de agora termos consciência e capacidade de raciocínio para pensar o futuro. A partilha de testemunhos das chamadas experiências de quase-morte (o famoso túnel de luz ou a pessoa a pairar sobre o próprio corpo) ajudam a adensar o mistério do que está para lá do último suspiro.

As religiões procuram responder a esta angústia com propostas como o paraíso, a reencarnação, a ressurreição e a vida eterna. Mas ninguém foi tão longe como Jesus quando declarou a Marta, em Betânia: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá” (João 11:25,26). Mas desconfio que Mark Twain estava coberto de razão quando disse que “o homem não morre quando deixa de viver, mas sim quando deixa de amar.”

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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