A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

| 28 Jun 20

Certo dia, indo Iñigo López a caminho do santuário de Nossa Senhora de Monserrat, encontrou-se com um mouro. Agradou-lhe o companheiro de viagem e foram conversando os dois, em amena cavaqueira. Aconteceu, a dado passo, falarem sobre Nossa Senhora. O muçulmano, lembrando decerto passagens do Alcorão, afirmou a sua certeza de que Maria havia concebido Jesus sem intervenção humana; manifestou, no entanto, dúvidas quanto à possibilidade natural de essa virgindade se manter depois do parto. Por mais razões que advogasse o biscainho, não havia maneira de convencer o seu interlocutor da verdade em que piamente acreditava.

Separados os viajantes, Inácio ficou a matutar no assunto. Roía-lhe a consciência, pensando que talvez não tivesse defendido com o ardor devido o bom nome da Virgem. Passou-lhe pela cabeça procurar o homem com quem discutira e dar-lhe umas punhaladas. A consciência não o deixava, no entanto, quieto. Tentava discernir o melhor caminho e nada lhe ocorria. Sabendo para onde tinha ido o mouro, não conseguia ainda assim decidir-se a vingar o bom nome da mãe de Cristo. O santo de Loyola tomou então uma decisão. Assim a conta na sua Autobiografia, usando a terceira pessoa:

E assim depois de cansado de examinar o que seria bom fazer, não encontrando coisa certa a que se determinasse, resolveu deixar ir a mula com a rédea solta até ao lugar onde se dividiam os caminhos. E que se a mula fosse pelo caminho da vila, ele buscaria o mouro e lhe daria punhaladas; e se não fosse em direcção à vila, mas pelo caminho real, não lhe faria nada. E fazendo aquilo que pensou, quis Nosso Senhor que, ainda que a vila estava a poucos mais de trinta ou quarenta passos, e o caminho que levava a ela era muito largo e muito plano, a mula tomasse o caminho real, e deixasse o da vila.

Louvado seja Deus por dar bom tino às bestas de carga, quando ele parece faltar aos humanos! Ninguém se livra de, em certos momentos de insanidade ou menor calma, ter vontade de “untar as molas” a quem não concorda consigo… ou defende o indefensável. Mas o caminho tem de ser outro, a bem da concórdia… Quem nos dera que as hordas “vingadoras” de ofensas verdadeiras, inventadas ou supostas tivessem a capacidade de discernir a mais justa forma de descarregarem a sua ira e, se necessário, confiassem mais nas criaturas que espelham o Criador do que nas vozes que envenenam a mente e as decisões. Se assim fosse, decerto poderíamos dormir em paz e mais descansados…

 

Nunca como agora, em tempos de ignorância e de arrogância, fez tanta falta a humildade. Só através dela temos a certeza de que sabemos muito pouco ou mesmo nada. Só ela nos garante a capacidade de ver que todos cometemos erros ao longo da vida.

Perante este vendaval “purificador” que deseja derrubar estátuas, obras de arte, filmes, livros, mas sobretudo pessoas, porque em determinado momento do seu passado se revelaram menos “puros”, cometeram erros ou foram apenas homens do seu tempo, tenho-me lembrado muito da narrativa do encontro de Cristo com a mulher adúltera, que tantos queriam apedrejar. Não desculpabilizando os seus actos menos correctos, mas olhando o interior de cada um dos membros da multidão em fúria, autorizou: “Quem não tiver pecados, atire a primeira pedra.”

A mesma pergunta gostaria de fazer a quantos, sob a capa do anonimato, têm andado a subverter causas justas (ou menos justas), pensando-se perfeitos e, assentes nessa perfeição, promovendo a discórdia e dando armas àqueles que, do “outro lado”, não são melhores do que eles.

Há figuras paradoxais que mereceram homenagem pública? Pois há. Ainda bem. Mal vai ao ser humano quando não se defronta com os seus paradoxos, com o paradoxo da existência, lutando contra os seus demónios e tornando-se cada dia um pouco melhor, mesmo que de vez em quando dê grandes quedas e vá com a face à lama (ou tenha mesmo de regressar ao início do percurso). Seres “monolíticos”, “sem” paradoxos – quase sempre muito louvados pela sua “coerência” –, são em geral fanáticos ou sectários, achando-se “modelos”, quando não passam de moldes que desejam ver-se reproduzidos no outro, retirando-lhes qualquer ponta de livre arbítrio. Nunca hesitam, nunca repensam, nunca se arrependem, nunca têm remorsos, nunca emendam nada, nunca voltam atrás. A humanidade humilde é, todavia, outra coisa. Um caminho ao contrário disto tudo. E esse caminho faz-se a andar, como escreveu Antonio Machado.

“Quem não tiver pecados, atire a primeira pedra.” Derrube o que quiser e como quiser. Mas não esqueça que, antes disso tudo, se derrubou a si próprio.

 

Ruy Ventura é escritor e investigador

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