As mulheres no cristianismo primitivo (2)

A mulher e a autoridade como representadas nos sarcófagos do séc. IV

| 5 Mai 2024

A vida religiosa – tanto contemplativa como ativa, tal como a conhecemos hoje – evoluiu ao longo de dois mil anos. Este segundo artigo relata uma investigação original sobre evidências arqueológicas das atividades das mulheres no cristianismo primitivo, encontradas em frisos de sarcófagos datados entre o final do século III e o início do século V. Segunda parte de quatro, de um ensaio publicado em exclusivo pelo 7MARGENS.

Sarcófago frisado do início do século IV, no Museu Pio Cristão do Vaticano, retratando a mulher falecida em pé, em tamanho real, com um códice e o gesto de oradora imersa em cenas bíblicas. Foto © Christine Schenk CSJ.

Sarcófago frisado do início do século IV, no Museu Pio Cristão do Vaticano, retratando a mulher falecida em pé, em tamanho real, com um códice e o gesto de oradora imersa em cenas bíblicas. Foto © Christine Schenk CSJ.

Uma vez que a maior parte da história se baseia em documentos produzidos por homens, a procura de dados históricos fiáveis sobre as mulheres no cristianismo primitivo pode tornar-se um verdadeiro desafio. O cristianismo baseia-se fortemente na palavra escrita como principal meio de conhecer a sua história. Como afirma a dra. Janet Tulloch num artigo publicado em 2004, as informações recolhidas a partir de artefactos visuais, como afrescos, pinturas e frisos em sarcófagos, têm sido até agora confiadas quase exclusivamente a historiadores de arte e arqueólogos. Embora houvesse muitas mulheres mecenas que apoiavam financeiramente os homens da Igreja primitiva (Maria de Magdala, Febe, Lídia, Paula, Olímpia), a sua presença é pouco mencionada nas fontes literárias. No entanto, desde há algum tempo os estudiosos aperceberam-se de que a arqueologia é uma fonte importante no que respeita à presença das mulheres no cristianismo primitivo.

 

Documentação escrita vs. documentação arqueológica

Durante os primeiros quatro séculos da história cristã (e até à atualidade), os eclesiásticos justificaram a limitação da autoridade das mulheres referindo-se à admoestação da primeira carta de Paulo a Timóteo, segundo a qual as mulheres deviam permanecer em silêncio nas assembleias e não deviam ensinar ou “impor a lei aos homens” (Timóteo 2, 12). No entanto, a arte funerária cristã do final do século III e início do século V retrata mulheres na atitude de ensinar e pregar. Aqui será possível apenas uma breve dissertação sobre este tema fascinante.

Tanto para os romanos cristãos como para os pagãos, o sarcófago não era apenas o contentor de um cadáver, mas um monumento carregado de significado. A arte funerária romana tinha como objetivo tornar visível a identidade da pessoa falecida e comemorar os seus valores e virtudes. Só as pessoas ricas podiam pagar um monumento funerário tão caro; o projeto da representação, ou seja, a forma como queriam ser recordados, era também um processo importante. Ser representado com um pergaminho, uma capsa (recipiente de pergaminho) ou um codex (livro) era um indicador imediato da educação, do status e da riqueza da pessoa falecida.

Sarcófago no Museu Pio Cristão, do Vaticano (c. 350 d.C, inv. 31512), representando a mulher falecida a segurar um pergaminho, ladeada por “apóstolos” que a atendem respeitosamente. Foto © Christine Schenk CSJ.

Sarcófago no Museu Pio Cristão, do Vaticano (c. 350 d.C, inv. 31512), representando a mulher falecida a segurar um pergaminho, ladeada por “apóstolos” que a atendem respeitosamente. Foto © Christine Schenk CSJ.

Tanto os homens como as mulheres cristãs eram recordados e idealizados como pessoas de um certo status, com uma certa autoridade, erudição e devoção religiosa. Se a pessoa falecida era representada com um pergaminho ou capsa e imersa em cenas bíblicas, isso indicava a sua erudição nas Escrituras hebraicas e cristãs.

Durante três anos, analisei 2.119 imagens e descritores de sarcófagos e fragmentos datados do século III até ao início do século V, incluindo todas as imagens disponíveis de sarcófagos cristãos. Uma investigação aprofundada dos motivos iconográficos selecionados revelou que muitas mulheres do cristianismo primitivo eram recordadas como pessoas de um certo status social, influentes e com autoridade nas suas comunidades. Uma descoberta verdadeiramente significativa é o facto de existirem, em comparação com os retratos funerários de homens cristãos, pelo menos três vezes mais retratos de mulheres cristãs, e a probabilidade de estas descobertas se deverem apenas ao acaso é inferior a 1 em 1.000.

Pormenor do sarcófago de Marcia Romania Celsa de Arles (França): a defunta está em atitude orante, com um feixe de pergaminho aos pés e figuras de “apóstolos” voltadas para dentro. Musé de l'Arles Antique. Foto © R. Bénali, L. Roux, reproduzida pela autora no livro Crispina and Her Sisters: Women and Authority in Early Christianity.

Pormenor do sarcófago de Marcia Romania Celsa de Arles (França): a defunta está em atitude orante, com um feixe de pergaminho aos pés e figuras de “apóstolos” voltadas para dentro. Musé de l’Arles Antique. Foto © R. Bénali, L. Roux, reproduzida pela autora no livro Crispina and Her Sisters: Women and Authority in Early Christianity.

Muitos dos relevos dos sarcófagos representam mulheres no meio de cenas bíblicas, no gesto do orador ou segurando pergaminhos ou códices nas mãos. Este é um testemunho efetivo do facto de as mulheres do século IV não aderirem à disposição de permanecerem em silêncio. A sua difusão sugere a emergência de uma nova identidade feminina de erudição bíblica e de autoridade pedagógica. Outra verificação interessante é o facto de os retratos femininos terem o dobro da probabilidade de estarem ladeados por figuras de apóstolos (frequentemente Pedro e Paulo), provavelmente para validar a sua autoridade religiosa.

 

O que nos diz a arqueologia

A iconografia do cristianismo primitivo diz-nos que as mulheres cristãs eram cultas, piedosas e abastadas. A julgar pelo número de sarcófagos que representam apenas mulheres, isso indica que eram também mulheres solteiras ou viúvas, o que faz lembrar as primeiras comunidades de viúvas ou virgens de que falámos no primeiro artigo desta série.

Tendo em conta que muitas delas são representadas com rolos de pergaminho e em atitude de pregação numa cena bíblica, podemos deduzir que eram eruditas nas Escrituras e queriam ser representadas como mulheres que confiavam no poder salvador de Deus e eram especialistas na vida de Jesus e nos seus milagres de cura. As suas comunidades idealizaram-nas como figuras eruditas com autoridade, no mínimo, para proclamar e ensinar as Escrituras.

Pormenor do chamado sarcófago de Stilicho (c. 380-400 d.C): Cristo representado como autoridade sentado como um magistrado com códice e gesto de orador, ladeado por Pedro e Paulo. Foto cedida pela Basilica de S. Ambrogio de Milão.

Pormenor do chamado sarcófago de Stilicho (c. 380-400 d.C): Cristo representado como autoridade sentado como um magistrado com códice e gesto de orador, ladeado por Pedro e Paulo. Foto cedida pela Basilica de S. Ambrogio de Milão.

É plausível que as posteriores “madres da Igreja”, como Marcela, Paula, Melânia, a Anciã, e Proba, tenham admirado estes modelos femininos primitivos que as inspiraram a amar e a estudar as Escrituras. As fontes literárias sobre as “madres da Igreja” coincidem com os achados arqueológicos, confirmando o que os estudiosos contemporâneos – incluindo o Papa Bento XVI – já tinham teorizado, nomeadamente que as mulheres tiveram uma influência muito maior no cristianismo primitivo de quanto é geralmente reconhecido. Enquanto na documentação literária são as figuras masculinas que predominam, os retratos funerários no campo da arqueologia mostram, pelo contrário, que as mulheres cristãs são predominantemente recordadas por terem exercido substancialmente a autoridade eclesial nas suas comunidades. E, como veremos, as mulheres que se reuniam em torno das nossas “madres da igreja” evoluíram mais tarde para algumas das nossas primeiras comunidades – intencionais – de religiosas.

 

Christine Schenk é religiosa da Congregação de São José (CSJ) nos Estados Unidos e foi fundadora e directora da FutureChurch, grupo internacional de católicos afiliados a paróquias que se centra na plena participação dos leigos na vida da Igreja. Entre outros livros, é autora de Crispina and Her Sisters: Women and Authority in Early Christianity (Fortress, 2017), que o jesuíta Brian McDermott, na America: The Jesuit Review, descreveu como um amplo material para “transformar radicalmente a nossa compreensão das mulheres cristãs como figuras de autoridade nos primeiros séculos…” Este texto foi publicado inicialmente no Vatican News e é aqui reproduzido por cedência da autora e daquela publicação. 

 

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