“O que aqui canto é o persistente movimento de libertação dos homens, dos povos, primordialmente vincado na grande aventura do povo hebreu em busca da terra prometida: o Êxodo, a travessia do mar e a dura experiência dos quarenta anos no deserto.” Este é o sentido que José Carlos Cantante, 76 anos, dá ao facto de 11 dos cânticos que compôs até hoje passarem a estar disponíveis desde agora no canal YouTube.
Depois de ter gravado um disco, com o apoio do 7MARGENS, José Carlos Cantante, que tocou e se envolveu durante alguns anos nas celebrações e na dinâmica da Capela do Rato, diz agora que registar estas músicas foi, para ele, “fixar um memorial de experiências que valeram a pena – um privilégio”. “Foram tempos de festa, empenho, projecto, destruição partilhada de ídolos e oferecimento do peito à violência, libertação e ressurreição”.
Um dos cânticos emblemáticos desse percurso é Monte das Oliveiras, com que o disco encerra e que está também na lista das músicas colocadas agora na rede social de vídeos e som.
O cântico foi composto entre 1973-75, no contexto da morte do irmão João Manuel na Guerra Colonial, recorda Cantante. Um acontecimento como esse “dá outro sentido à morte de Cristo”, diz. “Foi com o vento que caiu a nossa enxada/ caiu no chão deixando a terra inacabada/ foi como o homem a velar que adormeceu/ e a Jesus Cristo se esqueceu que acompanhava”, diz o poema. “Que queime o vento queime o vento/ e venha a guarda com as armas/ defenderemos com amor o pão da nossa alegria/ À nossa frente há um resguardo/ de peito aberto à arma fria/ temos aí nosso Senhor/ que é nossa força e valentia.”
As letras têm uma clara intencionalidade bíblica, espiritual, teológica e social, colocando sempre em relação a experiência quotidiana e o horizonte crente, com a ideia de falar daqueles que para os cristãos são os lugares de Deus, onde mais profundamente se pressente a sua presença. Outra das músicas, Festa da Vida, exprime precisamente esse desejo de um outro país para lá do cinzentismo e da opressão do regime anterior ao 25 de Abril de 1974: “Juntos vamos erguer montanhas/ juntos vamos ultrapassar/ a vida triste que nos leva a recusar a vida triste que nos leva a recusar/ Com o amor de Deus nas entranhas com o amor de Deus a queimar/ fender cadeias nossa decisão passar/ fender cadeias nossa decisão passar.”
Indo ao texto bíblico buscar a sua inspiração, a sua respiração e força, a libertação era mesmo o “tema fundamental” que mobilizava o autor, como o próprio contava na entrevista ao programa 7MARGENS na Antena 1 (disponível na RTP Play).
Essa ideia tinha um símbolo na libertação do povo hebreu da escravatura do Egipto (traduzida na subjugação social e cultural da ditadura do Estado Novo), passando pelo deserto, a caminho da Terra Prometida (a liberdade trazida pela democracia). Avistar a Terra traduz também esse percurso: “Já se avistam perto os montes mais altos/ da terra onde mana o leite e o mel/ façamos a festa, façamos a festa/ que avistar a terra já é alegria…”
A inspiração bíblica reveste-se de uma linguagem musical que é parte deste tempo. Nestas músicas e poesias cruzam-se experiências pessoais, o processo político do último meio século e o caminhar das comunidades católicas nas suas tensões, avanços e contradições. E cruzam-se também alegrias, mágoas, desilusões e esperanças de muitas pessoas, crentes ou não – porque estes textos e estas músicas derrubam fronteiras.
Nascidos na experiência do autor na comunidade da Capela do Rato em Lisboa, no tempo do padre Alberto Neto (anos 1960-70), estes são cânticos que, tal como os de Taizé, José Augusto Mourão, Alfredo Teixeira e outros contemporâneos, dão uma linguagem revigorada à música sacra e cristã.
Ideia antiga, já com três décadas, a gravação destas peças tinha ficado como hipótese “interessante” na cabeça de José Carlos Cantante, conta ele ao 7MARGENS. Foi em 2018 que o caminho se abriu: convidado para o Encontro de Reflexão Teológica, do Metanoia – Movimento Católico de Profissionais, o compositor, arquitecto de profissão, percebeu que afinal os seus cânticos “despertavam interesse e eram cantados em determinados contextos”. De novo “havia contexto e comunidade para cantar e finalmente, gravar e gravar não seria um mero arroubo nostálgico de antigo entusiasta da Capela do Rato a enfrentar agora o envelhecimento do corpo, das mãos e da voz”, diz.

Desenho da capa do disco e do tema Avistar a Terra. Imagem © José Carlos Cantante
“Gravar foi então uma porta que se abriu, uma oportunidade, uma aposta e junção de esforços e entusiasmos. Superou barreiras de idade, viagens repetidas Coimbra-Porto, avalanche da covid”, acrescenta. “E a oportunidade tornou-se necessidade, teimosia, imperiosidade. E valeu a pena.”
Mesmo assim, Cantante continua a fazer perguntas: “Será que vale a pena apresentar este lote de cânticos num momento de inflexão de valores, perda de memória generalizada e de juventude ausente? Já que não acedo como cantante às celebrações e muito menos aos palcos, gravar é agora um acto de resistência pessoal.” E a reflexão sobre o percurso traçado: “Nesta minha aproximação à velhice sinto, no meu segredo, que valeu a pena. É a minha resistência e teimosia que ainda persiste. Mas sobretudo este disco” – e, agora, a sua transcrição para uma plataforma digital – “é a materialização de um som, de uma ideia, de um avistamento daquilo que mais desejamos e nos geme no fundo da nossa alma.”
Entre os 11 temas escolhidos para integrar o disco Abrir Caminho, publicado no segundo semestre de 2025, e agora transpostos para o YouTube, o autor e intérprete escolheu nove cânticos compostos nos anos em que passou pela Capela do Rato (finais da década de 1960 e primeira metade da década seguinte), quer antes, quer depois do 25 de Abril. Estão no primeiro caso Oração em tempo de guerra, Criação, Festa da vida e Vamos trabalhar. Depois da Revolução de 1974, foram compostos Avistar a terra, Abrir caminho, Tempo de fartura, O Noivo e Monte das Oliveiras. Dois outros cânticos – Rosas Negras e Ondas do Mar – compostos ainda antes da Capela do Rato integram também o lote de músicas e poemas.
No YouYube, Cantante publica, além da ficha técnica, as letras de cada cântico e um desenho alusivo a cada tema, também feito pelo autor, além de dar o contexto comunitário, social e político em que cada composição nasceu .
“Os meus cânticos tiveram sempre uma ocasião. Na origem, dos anos 1965 a 1975, pude cantá-los nos contextos familiar e comunitário”, recorda. “Havia então bastantes jovens ligados à Capela do Rato, que os ouviram e cantaram. Achei que deveria devolver-lhes, 50 anos depois, esse tempo feliz de partilha.”
Foram esses cânticos que José Carlos Cantante escolheu fixar neste registo. “Sei o interesse que tiveram antes e é com enorme gratidão que os coloco à disposição de quem se revê nalgum verso, nalguma frase da melodia.” Preferindo gravar “algo que funcionou no tempo”, o registo fica “como prova material de coisas que aconteceram e foram por todos vividas, uma espécie de prova futura, porque o passado não pode pura e simplesmente desaparecer: aconteceu e teve e tem força!”, afirma. “Quanto ao presente, aos dias de hoje, terá a força que souber ou puder ainda ter. Não há volta a dar.”
Há perto de 20 anos, Cantante voltou a compor, motivado por novos projectos e comunidades: catequese de adultos em Coimbra, onde fixou residência, a experiência do grupo do Metanoia no centro do país… “De certo modo retomo a caminhada em comum pelo deserto, rumo à sempre prometida Terra. É uma obsessão, de facto”, admite. “Com novos companheiros de viagem volto a avaliar o que há de bom e de novidade, volto a alvejar o mal com novas e antigas palavras. Voltei a compor e a cantar. Tenho meta e tenho contexto. Já não tenho suporte nas intuições e aspirações da juventude. Acho até que já não sou entendível pelos jovens.”
Desta última fase, Cantante escolheu Lancemos nossa barca para incluir no YouTube (não está no disco). Trata-se de uma homenagem aos pescadores da Praia da Leirosa (a sul da Figueira da Foz), mas onde se repetem temas, intuições e apelos da primeira fase: “E quanto mais difícil é mais razão há em lutar/ as gentes em terra aguardam que lhes capturemos do abismo o supremo pão/ é a saciedade o que legamos ao mundo/ então vamos transformar o nosso medo em libertação.”
Cânticos que tocam o indizível, os poemas e as músicas agora disponibilizados por José Carlos Cantante ajudam nesse tactear, na aproximação a algo que tão pouco sabemos definir – e que se diz indizível. Na beleza poética que eles alcançam, pressente-se Aquele que diz de si mesmo que é Aquele que é, que não é mais do que o seu próprio ser e não se encerra em definições. Os restantes cânticos e composições podem vir a ser incluídos também no YouTube. O autor tem esse projecto, assim venham os apoios necessários.
Nascido em Coimbra em 1949, José Carlos Cantante viveu e trabalhou depois como um saltimbanco em Lisboa, Porto, Ermesinde, Costa da Caparica, Feijó, Sobreda, Albergaria-a-Velha, Águeda e de novo Coimbra. Fez o curso de arquitectura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, trabalhou como arquitecto, professor, desenhador-projectista, em momentos diferentes. Na última década, dedicou-se também à catequese de adultos, agora na paróquia de Nossa Senhora de Lourdes, onde já vinha colaborando desde que voltou a Coimbra, em 1983.
Tesouros escondidos, conhecidos de uma imensa minoria, estes cânticos assinala(ra)m momentos importantes de muitas vidas. Numa afirmação permanente da esperança como algo “que morde e que nos posiciona sempre com algo que já temos à mão”.
“Os tempos são outros e os ouvidos também”, diz Cantante. A música e a mensagem aí estão, ao dispor de quem queira emocionar-se e sentir-se desafiado.
José Carlos Cantante – Avistar a Terra
Disponível no Youtube
Autoria e Canto: José Carlos Cantante
Coro e instrumentos: António Armando Sousa, Clara Sousa, Cláudia Torres, Cristina Conceição, Hugo Sousa, José Carlos Cantante, José Carlos Vasconcelos, Laura Marques, Paula Cristina Santos, Paula Isabel Fonseca, Paula Varandas, Pedro Príncipe, Raquel Rigueira, Rui Valente, Adrian Perez, Carmindo de Carvalho, Céu Cordeiro, Cláudia Ferreira, Cláudia Rangel, Cristina Pinto, Daniel Duarte, Eduarda Coelho, Joana Malheiro, Manuel Pinto, Maria Olímpia Cruz, Pedro Valle, Renata Pinto
Gravação: Estúdios Rangel, 2025
Edição: RMRecords/Transparente
Apoio: 7MARGENS










