Conferência no Festival de Órgão

A música na Igreja Católica: desafio permanente de inculturação

| 1 Nov 2022

O II Festival Internacional de Órgão e Música Sacra, com mais de 30 concertos, está a proporcionar, desde 13 de outubro, aos habitantes dos municípios do Porto, Maia, Valongo, Gondomar, Arouca, Oliveira de Azeméis e Felgueiras a oportunidade de usufruírem de música de elevada qualidade. Na sua diversificada programação, o Festival integrou uma conferência do bispo Carlos Moreira Azevedo, do agora Dicastério para a Educação e a Cultura, da Santa Sé, e que, enquanto delegado do ex-Conselho Pontifício para a Cultura, organizou desde 2017, quatro congressos internacionais sobre música sacra. Proferida no último sábado, dia 29 de outubro, na Igreja da Misericórdia, do Porto, a conferência é a seguir publicada na íntegra pelo 7MARGENS, que agradece ao autor a oportunidade de alargar a um público mais vasto a reflexão que fez sobre os percursos, desafios e riquezas da música na Igreja.

 

O organista da Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima toca na reabertura da Basílica. Foto © Ricardo Perna

O organista da Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima toca na reabertura da Basílica. Foto © Ricardo Perna

 

O cristianismo adotou as formas musicais para celebrar a liturgia. Os Padres da Igreja estudaram a arte musical como linguagem, manifestação mais profunda do sentir e do compreender, do amar e do descobrir, do desejar e do esperar. Sempre associada ao sensível e classificada, pela filosofia e pela teologia, como linguagem ambivalente (S. Agostino – Confessiones X,33.50), a música pode ser considerada como linguagem aberta à transcendência, nas experiências do inefável [1]. O atual interesse pelo fenómeno musical e por tudo o que possa oferecer uma experiência de beleza conjuga-se com a valorização da via simbólica como modo de aproximação do sentido. Este é o desafio permanente da inculturação. Ora a música na Igreja permanece imóvel se não se orienta para a relação entre cultura e Evangelho, entre cultura e celebração da fé. Este diálogo deve ser conduzido sem nostalgia do passado, sem a tentação de sair da história, mas pensando novos modos de “inculturar” a fé cristã, no meio da crise de uma cultura sempre mais planetária e fragmentária. é um terreno difícil, mas é este o momento para redescobrir a beleza e a alegria da vida evangélica.

é otimista o olhar do Papa Francisco: “Ao longo destes dois milénios de cristianismo, uma quantidade inumerável de povos recebeu a graça da fé, fê-la florir na sua vida diária e transmitiu-a segundo as próprias modalidades culturais. Quando uma comunidade acolhe o anúncio da salvação, o Espírito Santo fecunda a sua cultura com a força transformadora do Evangelho. E assim, como podemos ver na história da Igreja, o cristianismo não dispõe de um único modelo cultural, mas «permanecendo o que é, na fidelidade total ao anúncio evangélico e à tradição da Igreja, o cristianismo assumirá também o rosto das diversas culturas e dos vários povos onde for acolhido e se radicar» [2].

Houve um processo de inculturação ao longo destes dois milénios. Qual o rosto novo da música litúrgica, aqui e agora? Como é que a música serve, na diversidade, a unidade universal da Igreja?

Significativo para o nosso tema é o número 117 da Evangelli Gaudium: “Se for bem entendida, a diversidade cultural não ameaça a unidade da Igreja. … O Espírito Santo constrói a comunhão e a harmonia do povo de Deus. … É Ele que suscita uma abundante e diversificada riqueza de dons e, ao mesmo tempo, constrói uma unidade que nunca é uniformidade, mas multiforme harmonia que atrai. … Não faria justiça à lógica da encarnação pensar num cristianismo monocultural e monocórdico. … A mensagem, que anunciamos, sempre apresenta alguma roupagem cultural, mas às vezes, na Igreja, caímos na vaidosa sacralização da própria cultura, o que pode mostrar mais fanatismo do que autêntico ardor evangelizador”. Estas palavras do Papa Francisco aplicam-se também às expressões musicais.

A minha intervenção será desenvolvida em dois pontos de olhar amplo, seja sobre o contexto cultural seja sobre a relação da estética com a celebração. Depois tentarei concretizar em cinco pontos, os desafios para a Música na Igreja, hoje. Finalmente, abordo o papel de festivais, como o que nos reúne nestes dias na diocese do Porto.

  1. Contexto cultural da celebração da fé cristã
Concerto de orgão na igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma. Foto © Ricardo Perna

Concerto de orgão na igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma. Foto © Ricardo Perna

 

Para uma comunidade cristã, o primeiro ponto basilar, a respeito de uma perspetiva de inculturação da liturgia é uma visão antropológica de cultura. Esta não consiste em viver do património adquirido, mas de elaborá-lo no tecido da história. Somente através do testemunho crente e verdadeiramente vivido dos valores evangélicos, se propõe e se dá “carne” a uma antropologia cristã. A cultura, de facto, é entendida como sistema ou escala de valores, interpretação particular da realidade, linguagem, sistema de elementos em contínua evolução histórica.

A dimensão antropológica é o terreno de encontro e de diálogo entre Evangelho e culturas, entre Igreja e música. Os valores, inspirados na visão cristã do ser humano, contrastam com a secularização das consciências, com o défice de presença cristã no espaço público. Vivemos hoje um processo em curso, uma convergência dialógica, aberta sempre a novos desenvolvimentos, que oferecem contemporaneamente espaço a uma pluralidade de expressões e de percursos.

A relação entre fé e cultura – e por isso entre música e Igreja – vive, ao longo da história, momentos de boa síntese – como o do canto gregoriano, nascido da conjugação da tradição romana com a galicana no século VIII – e ocasiões de conflito. São diversos momentos de um drama permanente. Esta relação é hoje prejudicada por um clima indefinido, líquido, inatingível porque sempre em mudança. Vive-se uma sensação de fragmentação, de desagregação, sem capacidade para captar os traços de mistério, porque se é catapultado em sucessivas emoções e pulsões. Na maioria dos católicos do ocidente adivinha-se uma afasia da fé, incapaz de diálogo crítico com aquilo que se denomina de pós-modernidade. Existe uma fratura evidente entre fé e cultura. Há um património religioso da própria Tradição que tanto pode escorregar para a insignificância e o formalismo, como pode constituir um ponto de partida para um enraizamento religioso mais convicto e enriquecido.

O pensamento débil abre o caminho a uma aproximação nova da inteligência cristã nas artes, na música, na literatura, na poesia, na ética pública, no pensamento político. Há a possibilidade de viver e de expressar a fé neste novo ambiente cultural. O terreno humanista sério e verdadeiro será para a Igreja a base para viver no tempo deste saeculum sem ser mundana, sem se limitar ao gosto imediato. A música sacra deve ser atenta e inteligente, acolhendo as sementes de verdade que estão presentes nas várias tradições musicais, fragmentos que falam da beleza infinita de Deus.

O fermento da evangelização não teme o confronto com a contemporaneidade. é preciso sair do complexo de subalternidade e de jogar à defesa.

A primeira realidade cultural a enfrentar, porque transversal a toda a pastoral, é o problema da linguagem e da sua compreensão por parte das pessoas. A linguagem musical, como qualquer outra linguagem, não é nunca mera recetividade. Precisamos de aprender a ser interlocutores inteligentes e evangelicamente inspirados da cultura no meio da qual vivemos, purificando-a dos elementos negativos e elevando-a à luminosidade vital do Evangelho. Quando há vida nova em Cristo, resultante da contemplação, haverá força do Espírito para a comunicar. Chegar a falar a linguagem do Espírito, na fidelidade à Palavra de Deus, é o desafio do músico na Igreja.

Pede-nos o Papa Francisco para “imaginar espaços de oração e de comunhão com características inovadoras, mais atraentes e significativos para as populações urbanas. Os ambientes rurais, devido à influência dos mass-media, não estão imunes destas transformações culturais que também operam mudanças significativas nas suas formas de vida.”[3]

No atual drama, constituirá alívio introduzir a questão da espiritualidade como resposta à pergunta de sentido da vida. A proposta de uma espiritualidade sólida, transparente, é o grande serviço da Igreja à cultura atual. Bem sabemos como a cultura musical tem um lugar fundamental na vivência atual dos jovens. Para entrar no mundo juvenil ocorre solidez espiritual, ou seja, abertura à transcendência, ao Absoluto. Dai decorrerão expressões musicais adequadas e autenticamente cristãs e católicas.

  1. Cultura estética e celebração da Fé
Concerto de coros na Capela Sistina. Foto © Ricardo Perna

Concerto de coros na Capela Sistina, no Vaticano. Foto © Ricardo Perna

 

A autoconsciência teológica e eclesial tem em conta este contexto cultural da celebração da fé na liturgia. A experiência estética é, de facto, uma das vias que resta ao ser humano para fazer a experiência da transcendência de Deus. Passa pelo som e pela escuta. Ora, há formas e fórmulas que hoje não dizem nada, não falam, não celebram nem interpelam as pessoas. As celebrações, que são o lugar de contacto habitual da sociedade com a fé cristã, e por isso ocasião para uma relação cultural, sofreram uma banalização tremenda em muitas comunidades. A falta de sentido do mistério, a falta de beleza de formas e de ritos, da música e dos espaços de celebração é muito grave. Um ritualismo pobre e rubricista, sem sentido de festa, ou a banalidade, sem a marca simples da verdade, não servem normalmente de lugares de acesso ao mistério. Mistério procurado, não obstante tudo, por tantos nossos contemporâneos. Quando se favorecem espaços de criatividade e de adaptação, é fundamental o dever de discernimento, como garantia de identidade e de beleza, capazes de aproximar as diversas situações culturais das exigências expressivas.

A dimensão sensível da fé, os sentidos espirituais vibram e provocam ressonância, perceção, inteligência, um modo de re-conhecimento. Por isso, a expressão do absoluto não pode ser comunicada de modo seco, cansado, acanhado, pauperista, prosaico, nem de modo triunfalista, que mira apenas o aparato cénico. Tudo isto obriga a um repensamento da estrutura de acesso à liturgia, ou seja, da iniciação da fé. Iniciação não quer dizer mera “pedagogização”, mas tem a ver com o sentido mistérico e sacramental. Não se trata de transmitir uma mensagem, mas de anunciar um acontecimento e uma pessoa que interpreta a história: Cristo. Somente a evangelização profunda purifica a liturgia da hipocrisia, clarifica as motivações dos rituais, coloca em “espírito e verdade” os eventos celebrativos.

A vertente espiritual, isto é o papel do culto sacramental na formação da identidade cristã do batizado, exige atenção às mudanças culturais. O lugar da música coloca-se aqui. Sem celebrações dignas, realizadas com a devida atenção, na relação com os diversos participantes (crianças, jovens, adultos, pessoas com deficiência), não se pode dar resposta à ânsia de vida espiritual. Numa liturgia privada de fascínio dificilmente pode encontrar espaço uma música bela.

A relação com os sentidos concentra-se na impressão sonora do ouvido, procurando, através dos recursos tímbricos e dinâmicos, a empatia sonora, superando as dificuldades compreensivas do discurso estético.

A música assume a forma de cada cultura, em cada momento, assinalada pelo limite, unificada pelo louvor de Deus e pela santificação dos crentes. A Igreja aprova e admite no culto todas as formas da verdadeira arte, desde que dotadas das qualidades necessárias (SC 112).

O estudo da relação entre liturgia e música, como linguagens de perceção do Mistério de Deus, começa recentemente a mostrar desenvolvimentos mais maduros, como têm evidenciado os estudos de Piqué i Collado[4]. A celebração da liturgia leva-nos a uma superação do finito para entrar na contemplação do infinito, através do ouvir. Uma vez que se opera a perceção da beleza através da vibração sonora, a arte musical aproxima-nos de uma experiência transcendente e merece a atenção da teologia e da liturgia[5]. Cantar, saboreando de modo sábio, integra todas as dimensões do ser humano. O cantor, ao interpretar a Palavra, produz já uma primeira “encarnação”[6].

G. Stefani sugere quatro significados antropológicos do canto, fundamentais para uma musicologia litúrgica[7]: expressão dos sentimentos, força poética, criação da comunidade, evento festivo. Digamos brevemente algo sobre cada um destes elementos.

O canto exprime sentimentos: alegria, dor, louvor, amor. Cantando, os sentimentos não perdem intensidade concetual, são mais próximos do estado puro. O canto representa a função poética dos sentimentos e empenha as zonas interiores da emotividade. O canto envolve os fiéis numa participação sentida em profundidade.

Em segundo lugar, o canto situa-se na ordem da poesia, do gratuito, do desinteressado. Não se trata tanto de dizer, quanto de fazer, da ação litúrgica. Como ação simbólica, a liturgia tem necessidade da dimensão poética. O carácter de gratuidade inerente ao canto é um sinal-símbolo, seja da gratuidade e espontaneidade da iniciativa divina, seja do encontrar-se em comunidade.

Em terceiro lugar, cantando coletivamente as pessoas reforçam a unidade de grupo, saem de si mesmas, do encerramento, renunciam ao tom da própria voz e ao seu ritmo para assumir o ritmo comum. Realmente, quando se executa um canto de carga simbólica para o grupo, verifica-se um elevado grau de identificação. Neste sentido, o canto em comum favorece a participação, a comunhão. Isto acontece seja na participação externa, seja na escuta comunitária. Hoje tende-se à fruição privada, individual de um objeto estético. Escutar em assembleia litúrgica percebe-se como símbolo de comunhão. A dimensão comunicativa da música está ao serviço da relação, em abertura a Deus e abertura de diálogo entre os seres humanos, seja por quem executa, seja por quem escuta. Um certo isolamento individualista e obsessão pela originalidade conduz a “procurar linguagens tão novas que as compreendem só quem as inventou”[8].

Finalmente, o canto produz festa. De facto, a festa é o momento privilegiado para tomar consciência da realidade mais profunda, mediante ações simbólicas. No canto libertam-se sentimentos vitais profundos e muitas vezes inibidos. Manifesta-se intensamente a necessidade de salvação, o júbilo pelas graças recebidas. A capacidade envolvente, festiva, de irrupção, de manifestação de sentido e de transcendência permitem à música quer a inefabilidade, que se traduz em substancial “inapreensibilidade”, quer a referência ao sentido como fundamento de qualquer arte, quer ainda a impressionabilidade do inexprimível. Por estas características a música contribui para “dar forma” ao divino[9]. As categorias do ritmo, elemento primordial da ordem e da temporalidade; da melodia com a sua intencionalidade, que nasce na cultura grega; e da harmonia, desenvolvida na arte gótica, são expressão da tridimensionalidade do infinito. Não obstante isto, sabendo que o contingente não pode abraçar nem conter nunca completamente o infinito, a música é para o teólogo Balthasar “aquela forma que se aproxima mais do espírito, o véu mais subtil que nos separa dele”[10]. O canto realiza uma síntese total entre Palavra, participação e experiência do transcendente, de um modo que somente o facto musical é capaz de fazer. Como sustentou Ratzinger, a música de Igreja nasce como “carisma”, como dom do Espírito, e tem como motivo o amor; por isso torna-se linguagem universal do amor. A oração inspirada pelo Espírito faz-se canto[11].

A música eclesial mais bela é capaz de unir ética e estética. O valor autónomo dos cânones da própria disciplina não implica colocá-los ao serviço do ego de quem escreve, de quem toca ou de quem canta e nem sequer de quem ouve. Os momentos mais sublimes que vivemos a nível musical apelaram ao bem, à paz, à justiça, ao amor.

A bondade da forma, referida no Motu proprio de Pio X (1903), significa que a música litúrgica deve ser verdadeira arte, digna de louvar a Deus e capaz de intensificar o culto, ser oração e lugar de salvação. Verdadeira arte não significa obra-prima excecional, mas bem-feita, útil, agradável, original: música feita por pessoas dotadas para a arte musical, tecnicamente preparadas, com seriedade profissional e sensibilidade para com a experiência da liturgia. Bem-feita significa adaptada aos que a devem executar no estilo, no género, no grau de dificuldade.

Depois destes dois pontos fundamentais, do contexto cultural aberto ao simbólico e da celebração litúrgica esteticamente cuidada, onde se integra o canto, passemos a enfrentar alguns desafios da atual música na Igreja.

 

  1. Alguns desafios da atual música litúrgica

3.1. Natureza sacramental do canto e múnus ministerial[12]

Antes da renovação conciliar, a música seguia uma estrada própria, muitas vezes paralela ao rito. Quase se assistia a um concerto com a missa como apêndice. O Concílio na Sacrosanctum Concilium n. 112 (cf. MS 5) incorpora a música litúrgica entre os símbolos, os sinais sacramentais. Paulo VI afirmou que a música litúrgica se torna também sinal sacramental. Não é mero ornamento, nem uma realidade de funcionalismo edificante. De facto, também o canto mostra e celebra a salvação, torna-se ação litúrgica. A música é assumida como sinal da ação litúrgica e o canto torna-se meio e sinal que indica, produz e preanuncia a salvação no mistério da celebração. Desta íntima relação do canto com a celebração, com o rito, decorre a santidade da música (n.112).

De facto, a música contribui para manifestar, significar o mistério da liturgia, mistério pascal de Cristo, mistério da Igreja, mistério da aliança com o Pai e sublinha o carácter comunitário, festivo, as tarefas ministeriais. O canto produz salvação em sinergia com os outros sinais, torna a própria oração suave, “mais piedosa e quente”, segundo Agostinho (Confessiones, X, 33). Há um evidente valor mistagógico no canto. Através da luminosa claridade de uma celebração litúrgica, vivificada pelo canto, as mentes e os corações atingem, com mais facilidade e em profundidade, as riquezas sublimes do mistério, exprimem e fazem crescer a comunidade da vida futura, muitas vezes apresentada como banquete de núpcias. O canto intensifica a dimensão escatológica da celebração, prepara para a comunhão total.

O canto tem a capacidade para amplificar e intensificar os efeitos dos outros sinais-símbolos litúrgicos, com nobre simplicidade, que não quer dizer banalidade e desleixo. Melodia simples não quer dizer insignificante ou medíocre. Cantar na liturgia não é uma técnica, simples questão musical, mas é um sinal, um símbolo que reenvia para além de si mesmo, é uma expressão espiritual. Ocorre ter em conta que cada fiel possa participar mais profundamente no mistério celebrado. Isto constitui uma mudança na conceção da música de igreja. Crispino Valenziano afirma que a arte litúrgica goza de uma transcendência, mais profunda pelo facto de ser litúrgica mais do que pelo facto de ser arte. Não é uma arte por si mesma, mas “torna-se” música litúrgica, inserida na celebração, ao serviço do rito e da assembleia reunida.

 

3.2. Papel ministerial da música, ao serviço da Palavra

A música é, por assim dizer, o primeiro exegeta da Palavra (SC 112), uma forma de revelação do Mistério. A música leva a Palavra a uma compreensão empática que vai além de uma explicação verbal. Consegue agarrar o sentido metalinguístico, chegar à compreensão empática da Palavra além da mera contemplação estética, através da escuta. O canto da Palavra é uma chave da interpretação da liturgia. A relação música-Palavra tem produzido exemplos de uma transcendência que vai além do fenómeno musical[13]. O canto permite a amplificação acústica para que a Palavra possa ser materialmente escutada. A Palavra nasce para ser proclamada, ser audível. A música contribui para esta amplificação. Uma assembleia que canta une-se no ritmo, no tempo, na entoação. A música e o canto oferecem um volume interpretativo à Palavra. Mas a chave de interpretação vive da melodia, do modo, do ritmo que oferece penetração, impacto, empatia[14]. O cantor oferece a sua voz, a sua arte, a sua vontade e entendimento aquilo que interpreta. Aquele que escuta deixa ressoar no seu íntimo, vibrar interiormente e participa através do affectus. A assembleia que canta põe-se em vibração, converte-se em primeiro executante da Palavra. Claro que a perceção de quem escuta depende também da qualidade da execução.

Se a voz concorda com a Palavra é elemento revelador do ser profundo de Deus. A qualidade do texto é absolutamente essencial, como fundamental é a adesão da música ao texto. Convém, contudo, lembrar que o serviço da Palavra não significa ser escravo das palavras. Também a música sacra instrumental tem capacidade e riqueza semântica para falar a diversas pessoas segundo a sua sensibilidade, cultura, momento existencial ou histórico. O valor simbólico torna-se instrumento notável ao serviço do Espírito que escapa ao controle do executante e dos guias espirituais. O músico nem imagina, tantas vezes, o alcance que as suas notas realizam pela força do Espírito que sopra onde quer.

Orgão de tubos da catedral de Faro. Foto © Ricardo Perna

Orgão de tubos da catedral de Faro. Foto © Ricardo Perna

 

3.3. O canto e a música qual parte integrante da liturgia da Igreja

O canto, como elemento necessário e integrante da liturgia torna-a mais nobre e elevada, mais plena na solenidade. Cada dia litúrgico é chamado a ser celebrado de modo “digno e religioso”, tendo em conta a integralidade da ação litúrgica, da execução de todas as partes, segundo a sua natureza (Ist. Musicam Sacram n.11). A forma mais rica do canto (a vozes, com instrumentos, com mais aparato) em dias mais importantes para a comunidade, não pode obscurecer a clareza da celebração ou pesar o ritmo de desenvolvimento, criando desproporções ou desnaturando os papéis das pessoas e dos ministérios. A música sacra é chamada a procurar a verdade, não constituir cosmética, que recorre a disfarces e maquilhagens para esconder e seduzir, atrair para si quem escuta. A arte embeleza-se para alegria do outro, para conduzir a Deus, não para simplesmente agradar.

A consciência da relação entre música e liturgia requer, portanto, integridade e autenticidade da celebração, que significa que cada parte é celebrada segundo a própria natureza, cada pessoa assume a própria missão, cada canto é composto e executado segundo a sua natureza, forma e estilo, cada canto é colocado no lugar justo da celebração.[15]

 

3.4. A questão da participação “ativa” da assembleia

A reforma conciliar promove no povo cristão uma maior e mais perfeita participação na vida litúrgica, nunca como espectador passivo (SC 114). Ativa, em todas as dimensões: interiores (a verdadeira escuta, a receção silenciosa da vida de Deus) e exteriores (gestos, comportamentos, respostas e canto como expressões de autêntica interioridade). Os adjetivos que classificam a participação devem ser todos enumerados: participação consciente, ou seja sabendo o que realiza e porquê; participação plena, porque envolve todo o ser humano (sentidos, inteligência, sentimentos) e diz respeito a toda a ação; participação fácil e comunitária, com gradual adaptabilidade à assembleia; participação frutuosa, porque conduz a um crescimento da fé, da vida divina, da esperança e da caridade; participação atual, ou seja realizada tendo em conta a cultura e a sensibilidade concreta da assembleia celebrante.

A participação ativa opera uma forte mudança na dinâmica celebrativa e corresponde a uma nova compreensão eclesial e antropológica. Talvez não se tenha ainda medido plenamente o alcance de tal mudança paradigmática. Irrompe e concretiza-se na tradução de textos litúrgicos nas diversas línguas, na simplificação dos gestos, na reconstrução espacial dos lugares e nas novas linguagens. A mudança de paradigma traz consigo uma mudança litúrgica, que não só simplifica as formas e favorece a compreensão, como também a sua comunicabilidade. Isto comporta uma série de consequências, entre as quais o problema da conservação, compreensão e integração do património histórico. Parece que ele seja expulso do seu contexto natural, passando a ser um objeto para especialistas. Por outro lado, a santidade da música litúrgica não se pode reduzir a uma participação a qualquer custo. Desse modo, a excelência musical daria lugar à mediocridade e a universalidade da linguagem morreria no localismo.

 

3.5. Necessidade urgente de sólida formação dos diversos ministérios

A mudança de paradigma da liturgia conduziu a muitas experiências e a diversas reações, mas chega o momento para promover uma pedagogia a nível litúrgico. Existem diversas correntes com base em critérios contrapostos, a respeito da incorporação acrítica e infeliz de toda a música que, com a desculpa de ser pastoral, foi usada para difundir a mensagem cristã[16]. Um estetismo litúrgico pensaria bastar regressar ao gregoriano e à polifonia clássica, escolhendo a qualidade musical antes de qualquer finalidade pastoral. Neste caso, o significado dos textos não é captado pelas pessoas e a participação fica centrada na escuta, mas não reforça o canto como expressão da comunidade celebrante. Por outro lado, não se encontrará na cultura contemporânea linguagem com a qual celebrar, em tradução sonora, o louvor oficial e solene da Igreja?

Alguns pensam resolver a questão com o fenómeno da música de consumo dita juvenil, em grande parte da música ligeira italiana (as canções), da música rock inglesa ou pop americana, demasiadas vezes de banal envergadura e musicalmente convencional. Apresenta pobreza de textos, grosseria de composição, arbitrária colocação dos cânticos dentro da celebração.

A escuta de concertos espirituais é um modo para preparar as pessoas para a escuta litúrgica, oferecendo uma experiência de admiração, de silêncio, de maravilha. Assim nos preparamos para viver os cânticos, os gestos, os símbolos. A infelicidade e a depressão, tão frequentes, talvez tenham raiz na perda de capacidade de encantar-se diante da beleza! Recuperar o encanto do canto, a admiração diante do que nos transcende e que permanece ao serviço da eterna admiração de Deus que nunca se cansa de dar vida, perdão, paz.

 

  1. Papel dos festivais de música sacra
Orgão de tubos da igreja de S. Domingo, em Viana do Castelo. Foto © Ricardo Perna

Orgão de tubos da igreja de S. Domingo, em Viana do Castelo. Foto © Ricardo Perna

Antes de 1800 não se executava a música do passado, mas apenas a música daquele momento, escrita para o gosto daquela época. As composições de gerações precedentes eram propostas só em academias eruditas. O canto da igreja mudava segundo os períodos e tradições. Quando se altera esta realidade?

Quando o compositor Felix Mendelsshon (1809-1847), a 11 de março de 1829, vence a adversidade de colegas e quer executar, pela primeira vez em Berlim, a Paixão de São Mateus, composta por Bach cem anos antes. Nasce o gosto pela “música antiga”. Retiram-se do esquecimento nomes como Palestrina, Vivaldi. Os arquivos e bibliotecas guardavam impressionante quantidade de partituras, produzidas ao longo dos séculos.

A redescoberta da música antiga nos anos 60 do século XX trouxe à musicologia internacional o rigor e o respeito das obras a executar, contextualizadas no tempo da sua criação. A colaboração entre musicologia, intérpretes e diretores tornou-se imprescindível a partir dos anos 80 do século XX, de modo a garantir uma execução “historicamente informada”.  Para reconstruir e oferecer ao público moderno, de modo aceitável e compreensível, a música do passado ligada a uma ritualidade que já não existe, requer-se um trabalho interdisciplinar[17].

São festivais como este que permitem partilhar, através de execuções, um silencioso sistema de sinais em papéis poeirentos guardados em arquivos. Perdoem-me uma sugestão: Se a Igreja foi o maior mecenas da cultura musical europeia, porque não reservar uma igreja na cidade do Porto para “museu da música” e oferecer a escuta dos tesouros musicais?

Valorizar o tesouro musical do passado não consiste em reconstruir artificialmente um mundo perdido, mas em transmitir um mundo vivo. Consiste em tornar vivo um memorial, atuar o mistério da salvação. Se o Espírito Santo inspirou a música, ao dar voz e ao cultivar essa beleza tornamos operativo o que nasceu ontem, mas jorra da eternidade. A sacralidade da música não vem apenas das palavras sacras, como o mostra a música instrumental. É sacra porque foi instrumento de comunicação de graça santificante do Espírito. Tantas obras musicais têm mais eficácia espiritual do que muitos sermões, enriquecendo espiritualmente e apelando à santidade.

A inspiração passou pelos autores dos textos e da composição musical, pelos intérpretes e, se repararmos, também pelos ouvintes, capazes de captar e vibrar com a escuta. Como seres humanos, somos os intérpretes do louvor da criação inteira. Mas ao lado do louvor e do júbilo, não nos distraímos de viver as perguntas, os gritos, o lamento do nosso tempo atribulado.

Neste festival, una-se o grito pela necessidade de salvação à alegria da gratidão.

 

Notas

[1] Para uma visão de conjunto: GEROLD, T. – Les Péres de l’Eglise et la musique. Paria: Alcan, 1931.
[2] Evangelii gaudium, 116 (24-11-2013).
[3] Evangelii Gaudium, nn. 73.
[4] PIQUé i COLLADO, Jordi-A. – Teología y musica: una contribución dialectico-trascendental sobre la sacramentalidad de la percepción estética del Misterio. Roma: PUG, 2006; Traduzione italiana: Teologia e musica: Dialoghi di trascendenza. Cinisello Balsano: San Paolo, 2013. Vedere anche: RAINOLDI, F. – Sentieri della musica sacra. Roma: CLV, 1996; COSTA, E. – Una teologia della musica? Credere oggi. 10/6 (1991) pp. 7-15.
[5] PIQUé i COLLADO, Jordi A. – “Venite et audite” Música y fenomenología de la escucha en la liturgia. Phase. 55 (2015) 91-104. p. 93. Vedere l’approccio di Crispino Valenziano: FOSSAS, I. M. – Belleza y liturgia. Guía de lectura de la obra de Crispino Valenziano, Phase. 43 (2003) pp. 57-66.
[6] RATZINGER, J. – Cantate al Signore un canto nuovo. Milano: Jaca Book, 1996. 2 ed. 2009. IDEM – La festa della fede: saggi di teologia liturgica. Milano: Jaca Book, 1991.
[7] SANSON, Virginio – La musica nella liturgia: note storiche e proposte operative. Padova: Ed Messagero di Padova, 2002, pp. 229-232. Cita STEFANI, G. – L’espressione vocale e musicale nella liturgia. Gesti, riti, repertori. Torino: LDC, 1967; IDEM – Musica, Chiesa, società. A 30 anni dal Concilio Vaticano II, In BRUMANA, B.; CILIBERTI, G. ed. – La musica e il sacro. Atti dell’incontro internazionale di studi 1994. Firenze: L. S. Olschki, 1997, pp. 233-241.
[8] BERTOGLIO, C. – Valorizzazione del patrimonio storico musicale della Chiesa. In Musica e Chiesa: Culto e cultura a 50 anni della Musicam Sacram. A cura di Carlos Moreira Azevedo; Richard Rouse, Roma: Aracne, 2017, p. 149.
[9] Cf. PIQUé i COLLADO – Musica e liturgia, pp. 63-64.
[10] Cf. VON BALTHASAR, H. Urs – Lo sviluppo dell’idea musicale. Milano: Glossa, 1995, pp. 10-62, p. 47. Apud PIQUé i COLLADO, Musica e liturgia, p. 69. A dimensão musical aparece como lugar simbólico da transcendência de sentido.
[11] PIQUé i COLLADO – Musica e liturgia, pp. 105-106.
[12] SANSON – La musica nella liturgia, pp. 236-238.
[13] SEQUERI. P. – Musica e mistica. Città del Vaticano: LEV, 2005, p. 452.
[14] Cf. PIQUé i COLLADO – “Venite et audite”, p. 101.
[15] Cf. SANSON – La musica nella liturgia, p. 235.
[16] PIQUé i COLLADO, Jordi A. – Música litúrgica: Paradigma de cambio o cambio de paradigma? (Cien años después del Congreso litúrgico de Montserrat 1915). Phase. 55 (2015) pp. 211-226.
[17] Ver FABRIS, D.; FLORIO, A. – Interpretare oggi la musica sacra del passato. In CHIESA, musica e interpreti. A cura di C. A. Moreira Azevedo e Richard Rouse, Canterano: Aracne, 2020, pp, 121-141.

 

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40ª viagem apostólica

Papa Francisco no Congo: A ousadia de mostrar ao mundo o que o mundo não quer ver novidade

O Papa acaba de embarcar naquela que tem sido descrita como uma das viagens mais ousadas do seu pontificado, mas cujos riscos associados não foram motivo suficiente para que abdicasse de a fazer. Apesar dos problemas de saúde que o obrigaram a adiá-la, Francisco insistiu sempre que queria ir à República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul. Mais do que uma viagem, esta é uma missão de paz. E no Congo, em particular, onde os conflitos já custaram a vida de mais de seis milhões de pessoas e cuja região leste tem sido atingida por uma violência sem precedentes, a presença do Papa será determinante para mostrar a toda a comunidade internacional aquilo que ela parece não querer ver.

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Normas inconstitucionais

Eutanásia: CEP e Federação Portuguesa pela Vida saúdam decisão do TC novidade

O secretário da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) saudou a decisão do Tribunal Constitucional (TC), que declarou inconstitucionais algumas das normas do decreto sobre a legalização da eutanásia. “A decisão do TC vai ao encontro do posicionamento da CEP, que sempre tem afirmado a inconstitucionalidade de qualquer iniciativa legislativa que ponha em causa a vida, nomeadamente a despenalização da eutanásia e do suicídio assistido”, disse à agência Ecclesia o padre Manuel Barbosa.

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Debate: Deficiência, dignidade e realização humana

Debate: Deficiência, dignidade e realização humana novidade

Quando ambos falamos de realização humana, talvez estejamos a referir-nos a coisas diferentes. Decerto que uma pessoa com deficiência pode ser feliz, se for amada e tiver ao seu alcance um ambiente propício à atribuição de sentido para a sua existência. No entanto, isso não exclui o facto da deficiência ser uma inegável limitação a algumas capacidades que se espera que todos os seres humanos tenham (e aqui não falo de deficiência no sentido da nossa imperfeição geral).

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