A necessidade de fricção na comunicação

| 9 Abr 21

“A razão destas dissonâncias na comunicação está na falta de fricção de muitos dos novos meios de comunicar.” Foto: Direitos reservados / Wikipedia

 

A comunicação é a capacidade que o ser humano desenvolveu para sobreviver ao longo dos milénios da nossa existência sobre a Terra. Por isso, qualquer coisa que afecta a nossa capacidade de comunicar, afecta a nossa sobrevivência. Assim, é legítimo questionar o que os meios de comunicação estão a fazer ao nosso modo de comunicar. Não me refiro, propriamente, aos que protagonizam esses meios, como os jornalistas, mas aos meios em si, sobretudo, os mais recentes como os que encontramos nos nossos telemóveis.

Durante a Páscoa, recebi duas mensagens da mesma pessoa, semelhantes, e a desejar uma boa páscoa. E questionei o que essas mensagens significariam. Não a intenção, que é clara, positiva e agradável de receber, mas questionei o modo como foi comunicada. Isto é, recebi a mensagem porque estou numa lista, ou porque essa pessoa quis, realmente, dizer-me algo a mim que não diria do mesmo modo a outra pessoa. Ou será que, na ausência de uma resposta imediata da minha parte, enviou a segunda mensagem pensando que poderei não ter recebido a primeira? Como a minha esposa partilha deste mesmo conhecimento, percebi que, também ela, recebeu ambas as mensagens. Então, conclui que faço parte de uma lista e não de um pensamento personalizado.

Esta experiência não deve ser entendida como um juízo a este amigo porque não tenho a menor dúvida em relação à sua intenção, mas o que coloco em questão é se as pessoas se dão conta de estarmos a banalizar os incríveis meios de comunicar que temos à nossa disposição, massificando as mensagens, e correndo, assim, o risco de começar a tornar, sem consciência disso, os nossos relacionamentos mais superficiais. Um outro exemplo.

Recentemente, saí de um grupo de WhatsApp quando verifiquei que tinha 40 mensagens por ler, e pensado que, da última vez, já havia feito a mesma experiência com outras 40 mensagens. Na prática, deslizei o dedo pelo rol de mensagens e nenhuma me parecia relacionada com a finalidade com que o grupo foi criado. O problema é dos outros? Não. O problema é meu? Talvez. O que percebi, com toda a simplicidade, é que o grupo deixou de o ser para mim. Mas o pensamento que me veio de imediato foi: o que pensarão os outros ao se aperceberem que saí? E só o facto de me ter colocado esta questão, leva-me a pensar se somos, realmente, livres de nos envolvermos nestes meios que temos para nos comunicarmos a nós mesmos.

A razão destas dissonâncias na comunicação está na falta de fricção de muitos dos novos meios de comunicar. Hoje, a massificação de mensagens ou a possibilidade de gerar uma troca massiva de mensagens que geram algum desinteresse, deve-se a ser muito fácil partilhar o que me interessa com muitas pessoas. E, sendo também muito fácil receber um retorno de algumas dessas, corremos o risco de fazer dos meios de comunicação, sistemas de validação pessoal que saciam a necessidade crescente de gratificação instantânea. E é tão subtil este passo que o mais natural será discordar daquilo que acabei de dizer. Mas façamos uma experiência de pensamento.

Por que razão massificamos as mensagens que enviamos a muitas pessoas? Porque queremos chegar a muitos, ainda que imbuídos do desejo de chegar a cada um, certo? Mas como sabemos que chegámos a cada um pessoalmente? O único modo seria enviar uma mensagem pessoal, pensando nessa pessoa e incluir na mensagem algo que faz parte do relacionamento entre os dois. Ou seja, introduzir fricção.

Se em vez de enviar uma mensagem para uma lista ou um grupo, enviá-la a cada amigo ou amiga, incluindo algo que só o outro saberia que lhe poderia dizer, cedo nos apercebemos que seria difícil fazê-lo, caso a nossa lista, ou o número de membros do grupo, fosse muito elevado. Aliás, até pensaríamos a quem, realmente, gostaríamos de enviar a mensagem, tornando-a pessoal e fortalecendo os relacionamentos.

Mas poderão estar a pensar que se diminuir a fricção e puder chegar a mais pessoas, a mensagem que tenho é tão boa e positiva que acabaria por fortalecer mais os relacionamentos como todos, do que se introduzisse fricção, beneficiando apenas alguns desses relacionamentos. Mas será que os outros que se sentiram parte de uma massa, sentirão o mesmo que eu?

A massificação do nosso comunicar não leva ao aprofundamento dos relacionamentos, mas torna-os superficiais, levando a que uma pessoa se sinta mais um numa lista. A profundidade exige escavar uma terra relacional que varia de densidade, custa e exige esforço. Mas não é com fricção que se limam as arestas? Não é com a fricção da água durante longos períodos de tempo que se amaciam as pedras de um rio? Assim, se introduzirmos alguma fricção nos modos de comunicar, conseguimos a suavidade de vidas profundas que se entrelaçam e enriquecem reciprocamente.

 

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra; para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos 

 

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