AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

autores - Filipe Moisés

[Entre Margens]

A neutralidade dos camaleões

| 05/02/2026

 

Os períodos eleitorais interpelam-nos a debater política e a pensá-la; porém, é fora dos períodos eleitorais que devemos maturar e aprofundar as nossas posições políticas. Enquanto cidadãos responsáveis pelo exercício dos nossos deveres em sociedade, somos chamados a politizar-nos e isso implica olhar as temáticas que nos rodeiam com profundidade, ultrapassando a nossa bolha social para revermos o entendimento do Mundo num plano ético, sobre o qual a política deve atuar e dar respostas.

Não fugindo ao tema, quero contar uma breve experiência recente. Na primeira semana de janeiro, a minha freguesia recebeu a visita pastoral do bispo auxiliar do Porto, D. Joaquim Dionísio, responsável pela zona pastoral na qual a minha paróquia se insere. Entre os vários momentos da visita, houve um encontro com os membros dos grupos paroquiais, um espaço interessante que terminou com uma troca de perguntas e respostas, após uma reflexão do prelado sobre os desafios quotidianos da Igreja e o papel de cada um.

Senti o dever de o interpelar sobre dois pontos essenciais: por um lado, o silêncio da Igreja portuguesa relativamente aos problemas dos jovens; por outro, especialmente relevante neste momento eleitoral e sobre o qual quero refletir neste texto, a dificuldade da Igreja em demarcar-se de forma clara dos discursos de ódio da extrema-direita, que instrumentalizam a fé para se auto-legitimarem e que têm contribuído para a divisão social, a propagação do medo e o bloqueio do debate racional através da habitual demagogia populista. O bispo reconheceu a pertinência da questão e recordou que alguns prelados já se tinham pronunciado. Citou, por exemplo, a posição de D. José Ornelas contra o discurso xenófobo dirigido aos imigrantes. E no fim, concluiu com uma frase que merece reflexão e com a qual concordo plenamente: “É verdade que devemos tomar posição, até porque o Evangelho não é neutro.”

É precisamente sobre isto que quero refletir, num tempo marcado por uma espécie de cobardia cordial, que se faz acompanhar por uma música de fundo feita para camaleões, que mudam de cor conforme o ambiente, para nunca terem de assumir o que realmente pensam. É frequente, nas redes sociais e fora delas, encontrarmos aqueles que, sempre que se critica a extrema-direita pelo seu racismo, ódio ou discurso divisionista, respondem prontamente: “E a extrema-esquerda? Todos os extremismos são maus! Não se pode falar de uns sem falar de outros!”. Nos dias de hoje, até ao centro-esquerda se atribuem epítetos de radicalismo. Qualquer uma das alusões mencionadas é falaciosa, mas torna-se ainda mais grave quando são insinuadas de forma cega por um cristão, seja ele clérigo ou leigo. Torna-se mais grave porque não é racional, mesmo que parta daqueles que se acham mais dentro das questões morais que os demais “plebeus”, embora os que as proferem tentem sempre fundamentá-las das formas mais inimagináveis. É, por isso mesmo, uma reação que traz consigo vários recalcamentos que interessa abordar e que importa desconstruir.

 

Um ódio visceral à esquerda

“Cravos de Abril: Decadência a que assistimos quer na preservação da democracia e da liberdade, quer nos sonhos que Abril neles depôs.” Foto: Desenho numa rua do Porto, próxima das Antas. © Filipe Moisés.

É evidente hoje que este ódio se espalhou na sociedade, quer pela falta de debate racional, quer pela disseminação de notícias falsas, quer ainda pela falta de sentido crítico. Não é diferente em muitos setores da Igreja; é, aliás, bem antigo o ressentimento profundo e incompreensível contra a esquerda, como se esta fosse a origem de todos os males do mundo. Não é e importa reafirmá-lo! Muitas das conquistas sociais e laborais que hoje consideramos básicas e plenamente adquiridas nasceram de lutas protagonizadas pela esquerda: a implementação do salário mínimo nacional, a segurança social, o direito à greve, a jornada de oito horas e o fim da semana inglesa consagrado na lei em 1996, a criação do Serviço Nacional de Saúde, o acesso universal à escola pública, a proteção e garante dos direitos civis e das minorias.

Algumas destas conquistas foram debatidas e rejeitadas pela direita. Outras foram aprovadas com o seu apoio. A democracia constrói-se precisamente neste diálogo e desta cisão que, em plena simbiose definida nos termos do debate democrático racional, se enriquece. Não se constrói com apenas um dos lados. Por isso, é difícil compreender o ódio cultivado na sociedade e também em certos meios eclesiais, sobretudo os mais conservadores. Esse ódio persiste por duas razões principais. A primeira, porque a esquerda se posiciona recorrentemente do lado do progresso social, especialmente em matérias de direitos humanos, o que muitos setores conservadores não toleram, sobretudo se se relacionam com o direito a constituir família, ao divórcio, à sexualidade, à emancipação e à autodeterminação; a segunda, porque, incapazes de contra-argumentar racionalmente, recorrem à demagogia mais básica: falsas equiparações, caricaturas grotescas das posições alheias, insultos fáceis (“esquerdalhada”, “esquerda caviar”, “drogados”, “vão para a flotilha”), falácias ad hominem e apelos à autoridade que apenas reforçam a bolha em que vivem. Poderia mencionar ainda uma terceira, relativa às preferências políticas de boa parte dos detentores do poder económico. E se repararmos no caso português, a Igreja nunca deixou de estar próxima destas elites, umas vezes por sobrevivência, outras por conveniência, mesmo que isso implicasse a subversão dos princípios básicos do Evangelho. O histórico é grande e persiste entre gerações.

 

Uma posição política disfarçada de neutralidade

Escultura de Timothy Schmalz: Estrangeiros: “Não negligencieis a hospitalidade aos estrangeiros, pois, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos.” (Hebreus 13, 2), Basílica de S. Paulo Fora de Muros, Roma. Foto © Filipe Moisés

As falsas equivalências não são inocentes. São a camuflagem perfeita dos camaleões morais: parecem neutras, mas servem apenas para esconder a escolha que já fizeram. Quem as faz não está apenas a desviar atenções; está a normalizar aquilo que não deve ser normalizado. Equiparar a extrema-direita ao que chamam “extrema-esquerda” é, na prática, uma forma de validar a extrema-direita. Dir-me-ão que é liberdade de expressão. De acordo. Mas será que sempre toleramos a liberdade de expressão quando esta se justifica pelo relativismo moral? Valeu sempre tudo? Ou vale só agora?

Não creio que exista atualmente uma extrema-esquerda com representação parlamentar, mas mesmo admitindo o rótulo, é impossível colocar no mesmo plano quem sempre defendeu justiça social, igualdade de género, proteção de minorias, apoio aos desempregados, aumento de salários e redistribuição de riqueza, com aqueles que recorrem sistematicamente a discursos que promovem o contrário, ajustando a retórica conforme lhes convém. E quem o faz opta pelo relativismo moral, o mesmo que não distingue entre o certo e o errado, o mesmo que estabelece equivalências entre o amor e o ódio, o respeito e o desrespeito pelo outro, a paz e a guerra. Ora, se isto é inaceitável para qualquer cidadão, muito mais é para os que se dizem cristãos.

Mais grave se torna ainda para os que, dizendo-se crentes, proferem tais relativismos acreditando ter consigo o monopólio da verdade e da moral. Para estes, talvez o Bom Samaritano que cuida do marginalizado, o trabalhador da vinha que secundariza a meritocracia para dar prioridade à equidade ou o Bom Pastor que acolhe os excluídos sejam, afinal, radicais de esquerda. Talvez mesmo a parábola do Juízo Final seja, para eles, mero palavreado barato de esquerda, já que aquela distinção entre ovelhas e cabritos acaba a tornar-se, no seu relativismo moral, uma distinção sem significado. E reparemos: este relativismo mórbido e irrealista chegou a tal ponto que até já se ouvem políticos, alguns até que se dizem “democratas-cristãos”, a optar pela neutralidade na segunda volta, acusando o único candidato moderado de ser radical. Não se trata apenas de retórica política básica. Trata-se de um nível de desonestidade intelectual que torna impossível qualquer debate sério sobre a política e os interesses do país.

 

A contradição com os magistérios recentes

Escultura de Timothy Schmalz: O Preso – “Estava na prisão e fostes ver-me.” (Mateus 25, 36), Basílica de S. Paulo Fora de Muros, Roma. Foto © Filipe Moisés

É curioso que estas posições, sobretudo quando partem de católicos, venham dos mesmos que passaram anos a tentar descredibilizar o pontificado do Papa Francisco ou que, não o tendo feito por falta de coragem, relativizaram tudo o que fez ou acabaram a olhar de lado, fazendo julgamentos de carteira entre os pares. Serão também os mesmos que, outrora defensores intransigentes da infalibilidade papal, agora a relativizam, porque Francisco, e talvez também Leão XIV, os contrariam na visão moral e política em muitas das suas intervenções. Vivem um conflito interno entre a definição prática das suas crenças, que os levaria a aprovar o progresso humanista, com as amarras de alguns dos seus preceitos morais mais vincados, que os leva a negá-lo. Em suma, vivem num conflito interno entre aquilo que a fé lhes deveria inspirar e os preconceitos que não conseguem abandonar. E, como camaleões, mudam de cor conforme o contexto, para não terem de enfrentar essa tensão. Agarram-se a frases soltas, textos descontextualizados e meias-verdades que sustentem as suas teses, contribuindo mais para o ruído do que para a racionalidade.

Isto revela uma das maiores fragilidades humanas: agir por instinto, mais do que pelo discernimento. O instinto pode conduzir ao ódio e à divisão; o discernimento, porque nasce da liberdade e do respeito pelo outro nessa mesma liberdade, conduz ao bom senso e à unidade.

Dizia eu, no início do texto, que concordava com o que o bispo dizia: o Evangelho não é neutro. Também não o são os valores humanos, pelos quais todos somos chamados a responder em defesa da própria Humanidade. Para os cristãos que fundam naturalmente grande parte desses valores nos princípios do Evangelho, essa responsabilidade torna‑se ainda maior. A segunda volta das Presidenciais, que se aproxima, pede-nos uma resposta convicta pela defesa dos direitos, liberdades e garantias de todos. Não será apenas uma luta entre esquerda e direita. É mais do que isso: trata-se da disputa entre a democracia e quem a ela se opõe, entre a decência e a falta dela. Sobre isto, não pode haver dúvidas nem neutralidades. Porque quem hoje abraça o relativismo dos seus princípios, amanhã acaba relativizado pela própria indiferença que semeou. Que nenhum eleitor, sobretudo um cristão, se deixe cegar a ponto de negar os valores que afirma seguir.  A neutralidade dos camaleões pode ser confortável, mas nunca foi fiel ao Evangelho e muito menos cristã.

 

Filipe Moisés é engenheiro do ambiente pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Atualmente, é estudante de doutoramento e investigador na mesma faculdade, no Laboratório de Engenharia de Processos, Ambiente, Biotecnologia e Energia (LEPABE).

O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Depressa passas de bestial a besta”

[Lugar (in)comum]

“Depressa passas de bestial a besta” novidade

“Na era dos ecrãs e da comunicação imediata, construímos expectativas irrealistas, esperando infalibilidade de quem está sob o holofote. Chega a ser irónica a facilidade com que se eleva alguém a um estatuto quase divino para em seguida lhe ser exigido um comportamento humanamente irrepreensível.” [Texto de Júlia Costa]

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This