A normalização do intolerável

| 6 Jun 2024

À Margem_Jorge Wemans

A violência que prospera nos nossos dias irrompe, por vezes, nos média com grande alarido. Depois desaparece, como se de factos e atos isolados se tratasse. E, de modo subterrâneo, sem gritaria nem denúncias, pouco a pouco, entranhando-se por hábito e repetição, apaga-se a capacidade de indignação perante a enormidade dos discursos e das ações carregados de violência e ódio. É a normalização do intolerável.

Todos os dias um pequeno passo mais. Ontem, o discurso contra os imigrantes, apontando como criminosos aqueles que são as vítimas. Hoje, espancando-os nas ruas e nas casas. Ontem, remetendo as mulheres para o papel de submissas donas de casa. Hoje, escondendo a brutalidade da violência doméstica com agressões verbais, ameaças de assédio e outros comportamentos machistas na casa da democracia. Ontem, exibindo dados falsos para lançar uma nuvem negra sobre a realidade. Hoje bramindo outros dados igualmente falsos para despedir altos funcionários públicos e substituí-los por boys encartados, diligentes e servis. Ontem, hoje e amanhã propalando no espaço público mentiras, falsidades e o negacionismo das evidências científicas.

A isto perigosamente nos habituamos. A estupefação com que olhamos o que está a acontecer nos nossos dias já não provoca a indignação que convoca à ação. E nem os meios que temos à nossa disposição utilizamos para denunciar a mentira, a violência, o intolerável. Todos os dias um pequeno passo mais.

E no entanto…

Todos os dias chegam notícias das vítimas e da destruição que a invasão do exército russo continua a provocar na Ucrânia, da matança que as forças armadas e os colonos israelitas prosseguem no seu planeado genocídio do povo palestino, dos migrantes que, graças aos fundos oferecidos pela União Europeia, são mortos, presos e escravizados nos países do Norte de África por onde passam. Todos os dias, chegam notícias de centenas de vítimas das catástrofes extremas provocadas pelas alterações climáticas e de populações forçadas a abandonar a sua ilha que se tornou inabitável porque em breve será submersa pela inexorável subida do nível do mar.

 

Explorar o sentimento anti-imigrante

Como responder ao sentimento dos eleitores nos EUA? Adotando “a política de fronteira mais restritiva instituída por Biden”. Foto: Direitos reservados

Com o desemprego a níveis historicamente baixos (3,9%), o candidato presidencial Donald Trump promete “limpar a nação dos vermes que estão a envenenar o sangue do nosso país” e – segundo escrevia a 10 de março a colunista Patricia Lopez da insuspeita Bloomberg – pretende repetir os processos das deportações em massa que tiveram lugar na década de 1950, durante a presidência de Eisenhower, e que levaram a expulsar dos EUA 1,3 milhões de pessoas. As intenções formalizadas no programa presidencial anunciado por Trump são assim descritas por Lopez: “rusgas em grande escala com autoridades federais, agentes da polícia local e tropas da Guarda Nacional indo de porta em porta para prender migrantes sem documentos. Campos enormes para detenção de pessoas antes da deportação – e ampliação dos processos que permitem que sejam expulsas sem o devido processo. Proibir a entrada de pessoas provenientes de países de maioria muçulmana. Acabar com o direito à cidadania americana aos que nascem em solo americano. E expulsar refugiados que foram autorizados a viver temporariamente nos EUA por razões humanitárias.”

Na edição de 3 de junho de The New York Times, a jornalista Jazmine Ulloa recorda esses tempos da década de 1950 em que “as autoridades usaram o sentimento anti-imigrante para justificar separações familiares e lugares de detenção sobrelotados e insalubres – práticas que a administração Trump implementaria décadas mais tarde na sua própria fiscalização da imigração.”

Com a desculpa de que os republicanos bloquearam em definitivo a possibilidade de alterar a legislação relativa ao acolhimento de imigrantes, o mesmo The New York Times escreve (na edição de dia 4 de junho) que o Presidente Biden mandou fechar a fronteira sul a migrantes, tendo emitido “uma ordem executiva [um decreto] que impede os migrantes de procurarem asilo através da fronteira entre os EUA e o México (…)”. Porquê “uma medida tão dramática”? Porque este é um ano eleitoral e, além de “aliviar a pressão sobre o sistema de imigração”, é preciso “responder a uma grande preocupação dos eleitores”. Sim, as sondagens mostram consistentemente que a preocupação número um dos eleitores norte-americanos não é o estado da economia, nem a gestão do Presidente Biden, mas sim a imigração.

Como responder ao sentimento dos eleitores? Adotando “a política de fronteira mais restritiva instituída por Biden, ou por qualquer outro [Presidente] democrata moderno, que faz lembrar o esforço feito pelo Presidente Donald J. Trump para, em 2018, interromper a migração, legislação que foi, depois, anulada pelo tribunal federal”.

Se nos EUA é assim, às claras e sem subterfúgios, na Europa o fecho de portas aos migrantes é mais sorrateiro, diluído e cínico. Alavanca os piores instintos da UE quando não sabe resolver um problema: atira-lhe para cima com dinheiro, muito dinheiro. Fundos para a Turquia suster em campos inomináveis os migrantes vindos das suas fronteiras em direção à UE e mais fundos para os países do Magrebe impedirem, como bem lhes aprouver, a travessia do Mediterrâneo tanto dos seus naturais como dos migrantes que atravessam o Saara para chegar às costas sul do Mare Nostrum na miragem de o atravessarem em direção à próspera Europa.

 

Não somos os derrotados da história

violencia domestica, foto gaia moments

À cabeça dos motivos que originaram a participação de atos de violência às autoridades no ano de 2023 figura, destacada, a violência doméstica. Foto © Gaia moments

Em Portugal, o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) relativo a 2023, divulgado no final de maio, mostra que, pasme-se (?!), à cabeça dos motivos que originaram a participação de atos de violência às autoridades figura, destacada, a violência doméstica. Quatro vezes mais do que as participações classificadas como decorrentes da criminalidade grupal. Afinal, perigoso não é sair à rua, é ficar em casa. Ou seja: a insegurança não está nas ruas; habita preferencialmente o “doce lar”.

E nas ruas o que vemos é o crescimento e a proliferação dos acampamentos das pessoas em situação de sem-abrigo, dos que já não têm ou nunca tiveram casa, dos sem atendimento, sem papéis nem condições para os obter. Longe deles, sem os querer ver, agita-se uma gritaria pública não sobre quem os escraviza ou os ataca, mas sobre o melhor dos modos de no futuro, mais lá para a frente, tratar de ver como gerir a situação.

Deixando instalar-se o intolerável, deslizamos alegremente pela “autoestrada para o inferno climático” [António Guterres, no Dia do Ambiente, 5/06/2024] após maio ter ficado como o mês mais quente desde que há registos, perfazendo os 12 meses consecutivos em que se registam recordes da temperatura mensal a nível global. E por cá ficamos a saber que há anos o vice-presidente do Conselho Português para a Saúde e o Ambiente, o cirurgião João Queiroz e Melo, batalha para que se reduzam os 4,8 por cento que é a parte que cabe aos cuidados de saúde no conjunto do impacte ambiental gerado no país. “10 mil pessoas morrem precocemente ou ficam incapacitadas” devido aos danos ambientais “causados pelo setor da saúde em Portugal”, danos que, segundo aquela fonte, seria possível reduzir rapidamente em 30 por cento, apenas com alteração da legislação e melhoria dos procedimentos. O organismo em nome do qual fala Queiroz e Melo não é propriamente uma fação fanática do clima. É uma instituição que reúne 80 entidades ligadas ao setor da saúde.

Será que estamos condenados a viver em fortalezas de altos muros, indiferentes à multidão de aflitos e esfomeados que nos batem à porta? Chegará o dia em que as nossas cidades serão palco de rusgas e outras ações militares destinadas a detetar e deportar os sem papéis e, já agora, outros que “envenenam o sangue do nosso país”? Serão as nossas ruas, amanhã, um prolongamento da violência caseira que aterroriza todos, sobretudo as mulheres? Estaremos destinados a repetir o destino da antiga Alexandria quando no início do século V se tingiu gradualmente “da tristeza de tantas pessoas, calmas, cultas, pacíficas que se sentiram apátridas na sua própria cidade, perante o horror (…) dos anos de fanatismo”[1]?

Cruzaremos os braços? Não. De modo nenhum. Não somos os derrotados da história. Temos esperança. Aquela de que dois belos textos publicados esta semana no 7MARGENS a propósito da morte do teólogo Jürgen Moltmann nos falavam. Para ele (e para nós), a esperança cristã não é um desenho predefinido ‘do futuro como tal’, nem se alimenta de um retrato antecipado de uma realidade futura. A esperança cristã “parte [da descoberta] de uma ‘realidade na história’ e anuncia ‘o futuro dessa realidade, as suas possibilidades futuras e o seu poder sobre o futuro”. E, assim, fomenta “nos oprimidos e sofredores do nosso tempo presente a esperança de um futuro alternativo, atuando como a força motivadora por detrás da libertação no mundo”.

E é por isso que não aceitamos a normalização do genocídio, das guerras de ocupação, do ódio ao imigrante, da mentira, da violência sobre as mulheres, da condenação a viver sem casa, da destruição do planeta. No âmago deste presente sombrio, há um futuro alternativo à espera de ser construído.

É também isto que está em causa no voto do próximo domingo.

 

[1] Irene Vallejo in O Infinito Num Junco, pág. 231

 

Uma tarde para aprender a “estar neste mundo como num grande templo”

Na Casa de Oração Santa Rafaela Maria

Uma tarde para aprender a “estar neste mundo como num grande templo” novidade

Estamos neste mundo, não há dúvida. Mas como nos relacionamos com ele? E qual o nosso papel nele? “Estou neste mundo como num grande templo”, disse Santa Rafaela Maria, fundadora das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, em 1905. A frase continua a inspirar as religiosas da congregação e, neste ano em que assinalam o centenário da sua morte, “a mensagem não podia ser mais atual”, garante a irmã Irene Guia ao 7MARGENS. Por isso, foi escolhida para servir de mote a uma tarde de reflexão para a qual todos estão convidados. Será este sábado, às 15 horas, na Casa de Oração Santa Rafaela Maria, em Palmela, e as inscrições ainda estão abertas.

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Patriarca de Lisboa convida “todos” para “momento raro” na Igreja

A um mês da ordenação de dois bispos

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O patriarca de Lisboa, Rui Valério, escreveu uma carta a convocar “todos – sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas e fiéis leigos” da diocese para estarem presentes naquele que será o “momento raro da ordenação episcopal de dois presbíteros”. A ordenação dos novos bispos auxiliares de Lisboa, Nuno Isidro e Alexandre Palma, está marcada para o próximo dia 21 de julho, às 16 horas, na Igreja de Santa Maria de Belém (Mosteiro dos Jerónimos).

O exemplo de Maria João Sande Lemos

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Se há exemplo de ativismo religioso e cívico enquanto impulso permanente em prol da solidariedade, da dignidade humana e das boas causas é o de Maria João Sande Lemos (1938-2024), que há pouco nos deixou. Conheci-a, por razões familiares, antes de nos encontrarmos no então PPD, sempre com o mesmo espírito de entrega total. [Texto de Guilherme d’Oliveira Martins]

“Sempre pensei envelhecer como queria viver”

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O 7MARGENS iniciou a publicação de depoimentos de idosos recolhidos por José Pires, psicólogo e sócio fundador da Cooperativa de Solidariedade Social “Os Amigos de Sempre”. Publicamos hoje o décimo nono depoimento do total de vinte e cinco. Informamos que tanto o nome das pessoas como as fotografias que os ilustram são da inteira responsabilidade do 7MARGENS.

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