A nova conspiração de Viganò contra o Papa Francisco, com o pretexto da pandemia

| 11 Mai 20

Carlo Maria Viganò. Foto: Direitos reservados.

 

Um apelo que diz que, afinal, “crescem as dúvidas, levantadas por diversas partes, sobre a efectiva contagiosidade, perigosidade e resistência” do novo coronavírus. Um cardeal que diz que assina e depois volta atrás. Um arcebispo que acusa o cardeal de mentir. Os sectores anti-Francisco voltam à carga, mas mostram divisões e mentiras internas. E o teólogo italiano Andrea Grillo diz que tudo isto é da ordem do insulto, da calúnia, da difamação e da fraude, e deve ser censurado publicamente.

 

As medidas tomadas para obstruir a pandemia de covid-19 têm sido uma limitação “desproporcional e injustificada” dos “direitos inalienáveis dos cidadãos e suas liberdades fundamentais, entre as quais o exercício da liberdade de culto, de expressão e de movimento”, diz um novo texto do ex-núncio católico Carlo Maria Viganò, 79 anos, que tem aparecido publicamente como um dos expoentes da frente pública anti-Papa Francisco.

Apesar de, em muitos países – concretamente na Europa – estarem já previstas datas de reabertura das igrejas e outros lugares de culto para as celebrações comunitárias, o texto insiste na crítica ao Papa e aos bispos. Para Viganò, está em causa o facto de Francisco e a maioria dos bispos terem aceite as ordens, pedidos ou sugestões das autoridades de saúde para o fecho temporário das igrejas como medida de prevenção e de saúde pública contra o contágio.

Publicado numa página digital intitulada Veritas Liberatit Vos (“a verdade vos fará livres”, uma frase do evangelho de São João), o texto de Viganò aparece em forma de “Apelo para a Igreja e para o Mundo aos fiéis Católicos e aos homens de boa vontade”.

Assumindo a desvalorização da pandemia, na linha de opiniões como as dos presidentes dos EUA e do Brasil, o apelo diz que “crescem as dúvidas, levantadas por diversas partes, sobre a efectiva contagiosidade, perigosidade e resistência do vírus”. E acrescenta, atirando culpas para os média: “Muitas vozes autorizadas do mundo da ciência e da medicina confirmam que o alarmismo sobre a covid-19, por parte dos media, não parece absolutamente justificado.” Não cita, no entanto, quais são essas “vozes autorizadas”.

Entre os que subscreveram o apelo, estão três cardeais: Gerhard Ludwig Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e que foi retirado do lugar, supostamente por se opor à linha dura do Papa para com os abusos sexuais; Joseph Zen, bispo emérito de Hong Kong; e Janis Pujats, arcebispo emérito de Riga (Letónia). Mas há ainda vários bispos, incluindo o arcebispo e o bispo auxiliar de Astana (capital do Cazaquistão), Thomas Peta e Athanasius Schneider.

Este último já tinha aparecido publicamente a manifestar-se contra a pouca fé que, na sua opinião, revelava o fecho das igrejas (e, de caminho, também contra as decisões do Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia e a presença de indígenas no Vaticano). Mas também há médicos, professores, juristas, jornalistas e escritores – alguns dos quais ligados a páginas e sites que têm difundido outras posições de Viganò ou outros bispos e cardeais da mesma linha.

 

Cardeal Sarah, de novo, entre avanços e recuos  

Um dos primeiros subscritores, entretanto, foi o cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e os Sacramentos. Mas, mais uma vez, este membro da Cúria Romana repetiu os avanços e recuos estratégicos de outras ocasiões, em que claramente contraria o ensinamento e os gestos do Papa mas, depois, reitera a sua fidelidade.

O comunicado de Viganò sobre os avanços e recuos do cardeal Sarah.

 

Desta vez, depois de ter dito inicialmente a Viganò que achava o texto “muito sério”, que o assinaria e que ele deveria ser divulgado o mais depressa possível, Robert Sarah resolveu demarcar-se porque alguém o teria desaconselhado de subscrever o apelo, tendo em conta que trabalha na Cúria Romana. A versão, contada pelo ex-núncio, foi confirmada por Sarah no Twitter: uma pessoa no seu lugar “tem de observar uma certa restrição em assuntos políticos” e por isso não deve assinar “petições em tais áreas”. Sarah não se refere nunca, no entanto, às críticas implícitas que o texto faz ao Papa Francisco.

Na rede social Twitter, o cardeal acrescentaria que não se exprimiria sobre a petição, e acrescentando: “Decidi não assinar esse texto. Assumo perfeitamente a minha escolha.”

Perante isto, Viganò veio reafirmar o que se tinha passado, garantindo que tinha os telefonemas gravados e acusando Sarah de faltar à verdade – assumindo que gravou telefonemas e dizendo que o cardeal voltou atrás. “Nestes momentos de gravíssima crise para a Igreja e o mundo é o meu desejo manter uma atitude de profunda caridade para com o meu irmão em Cristo o cardeal Robert Sarah, a quem perdoei imediatamente o sério agravo cometido contra a verdade e contra a minha pessoa. Contudo, a verdadeira caridade não pode prescindir da verdade, já que nela se fundamenta”, justifica, num comunicado publicado num outro site, Adelante la Fe.

Já em Janeiro, por ocasião da publicação do seu livro Do Fundo dos Nossos Corações (ed. Lucerna), que junta a um texto seu, um outro de Joseph Ratzinger. Sarah viu-se envolvido em polémica, porque o Papa emérito teria feito saber que não conhecia o objectivo de editar um livro. A obra afrontava claramente o Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia e várias posições de Francisco e, se dessa vez foi Ratzinger que não saiu bem da fotografia, Sarah mostrou, de novo, que tem concepções bem diferentes das de Francisco em vários assuntos, e está sempre disponível para vir a público manifestá-las.

 

Visões conspirativas

O texto que Viganò agora publicou assume também uma visão conspirativa, sugerindo que há “poderes interessados ​​em criar pânico entre a população com o único objectivo de impor permanentemente formas de inaceitável limitação das liberdades, de controlo de pessoas, de rastreamento das suas deslocações”, e que são “um prelúdio perturbador da criação de um Governo Mundial isento de qualquer controlo”.

Ou seja, estamos perante “o risco de impor subtis formas de ditadura”, a saúde pública não pode ser argumento para “desprezar os direitos” de milhões de pessoas e os governos devem proteger os cidadãos do isolamento, que não pretende mais do que manipular e controlar os indivíduos com mais eficácia.

Finalmente, o texto reivindica que os bispos possam “decidir autonomamente” sobre as celebrações, bem como a “absoluta autonomia” em questões como a liturgia ou a administração da comunhão – que é como quem diz, distribui-la na boca, contrariando as normas básicas de saúde. “O Estado não tem direito algum de interferir, por qualquer motivo, na soberania da Igreja. E os “direitos de Deus e dos fiéis são a lei suprema da Igreja, que esta não pretende, nem pode, derrogar”, terminando a pedir que se eliminem “as limitações à celebração pública dos serviços religiosos”.

 

As acusações de Viganò ao Papa, que se viram contra o próprio

Em menos de três semanas, esta foi a segunda vez que Viganò apareceu a contestar claramente o Papa. A 21 de Abril, respondendo a várias perguntas do site português Dies Irae (“Dias da ira”) insistia na ideia de que a “crise” da Igreja Católica nasceu do “conluio entre modernistas e maçonaria realizado nos bastidores do [Concílio] Vaticano II”, carregava nas críticas ao “funesto Sínodo da Amazónia”, falava dos protestantes e anglicanos como “seitas” (a Igreja Católica reconhece-os como igrejas e comunidades da Reforma), dizia que considerar a pena de morte como não conforme ao Evangelho é “herético” e que a Igreja há-de restaurar a sua “glória”.

O início do texto do apelo escrito por Viganò.

 

Viganò começou a sua guerra pública contra o Papa Francisco em Agosto de 2018, quando, numa carta divulgada quando este regressava da sua viagem à Irlanda. O ex-núncio acusava Francisco de estar a par das acusações contra o antigo cardeal McCarrick, que tinha sido destituído de todas as suas funções clericais, na sequência da confirmação de que o então cardeal cometera vários crimes de abusos sexuais. Mas diversos elementos vindos a público logo a seguir mostravam que, afinal, o próprio Viganò era acusado de ter encoberto casos de abusos e ordenado a destruição de provas, deturpando ou mentindo sobre vários factos.

Na altura, o New York Times escrevia: “As suas [de Viganò] alegações infundadas e os ataques pessoais representaram uma extraordinária declaração pública de guerra contra o papado de Francisco.”

 

Viganò: insulto, calúnia, difamação e fraude

Quem considera que é altura de censurar formalmente o antigo núncio – que representou o Vaticano e o papado, que agora ataca – é o teólogo italiano Andrea Grillo, uma das vozes conceituadas em Itália, pela pertinência da sua reflexão. Num texto com o título “O estranho caso de Viganò. O que mais ele tem que dizer para ser formalmente censurado?” (que o boletim da Unisinos traduziu para português), Grillo não tem dúvidas e não poupa nas palavras: “Se um bispo dissesse um centésimo das coisas que mons. Viganò profere em superabundância (…), haveria imediatamente consequências de carácter disciplinar e doutrinal. Isso não porque na Igreja não há liberdade de expressão, mas porque na Igreja não há liberdade de insulto, não há liberdade de calúnia, não há liberdade de difamação, não há liberdade de fraude.”

Na Igreja, acrescenta o teólogo italiano, “um arcebispo não pode insultar pessoalmente outro cristão, talvez ironizando sobre seu nome, sem sofrer as consequências de uma intemperança que está escandalosamente em contradição com o que deveria ser e representar”. Pior: “As palavras irrepetíveis com as quais um arcebispo fala da Igreja, do papa, dos teólogos, da pastoral, da oração, do Concílio Vaticano II, da inculturação, da história e da cultura contemporânea já são agora uma questão que toca a estrutura do debate interno na Igreja.

O teólogo defende a liberdade de opinião, mesmo dos bispos, por razões de “oportunidade ou urgência”, mas há limites a partir dos quais bispos ou teólogos se colocam fora da comunhão. “O tempo não flui para trás. Nem liturgicamente, nem pastoralmente, nem doutrinalmente. Somente no cinema isso pode acontecer”, diz, referindo o exemplo de O estranho caso de Benjamin Button. E, por isso, “o silêncio das instituições responsáveis para a garantia do discurso comum parece, no mínimo, inoportuno”, conclui.

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