Reportagem

A nova geração de jovens universitários que quer encontrar-se em Cristo (II)

| 6 Set 2022

Apesar da significativa redução do número de jovens que se dizem católicos, o número de Núcleos de Estudantes Católicos (NEC) não pára de crescer no ensino superior. Surgidos em 2010, são agora 18 só na Diocese de Lisboa. Alguns nasceram em plena pandemia. Reúnem estudantes com vontade de viver, mostrar e discutir a religião no espaço académico. Hoje publicamos mais duas histórias desses núcleos, contadas pelas vozes de quem neles participa. Segunda parte da reportagem sobre os NEC (primeira parte nesta ligação do 7MARGENS).

Fevereiro 2022. Diogo Alvito. Chegada da peregrinação do NECT ao santuário de Fátima. Fonte desconhecida.

Durante a pandemia, atividades como a peregrinação anual a Fátima tiveram de ser repensadas. Na foto, chegada da peregrinação do NEC do Técnico ao santuário, em 2020. Direitos reservados.

 

Apesar de 2021 ter sido um ano marcado por aulas à distância, só na Universidade de Lisboa foram criados dois NEC, um na Faculdade de Psicologia e outro em Medicina Dentária. Nos sofás da sala de espera de Psicologia Geral, na Faculdade de Psicologia, Sofia Ângelo, de 21 anos e aluna de mestrado, explica como tem sido o processo de criação do núcleo. “Começámos com um grupo de WhatsApp e depois fomos falando com pessoas que conhecíamos da Missão País”, diz. “Era do género: se conheceres alguém, traz contigo!”. Por enquanto, o grupo ainda é pequeno. “Somos apenas 22 participantes” e, nota com um sorriso na cara, “só temos um rapaz!… É para veres como é a nossa faculdade!”

O que mais a atraiu foi o tipo de atividades que os NEC desenvolviam, como o voluntariado e as conferências. Para Sofia, que estudou num colégio jesuíta e fez o seu grupo de amigos da faculdade na Missão País, fundar um núcleo de estudantes católicos acabou por ser um passo natural. “Quando vens para a faculdade, tens de ser tu a mexer-te”, diz.

Neste momento, só falta constituírem uma estrutura para o núcleo. “Existimos apenas como grupo no WhatsApp”, esclarece. E explica como têm funcionado: “Quem tiver uma ideia envia e nós depois movemo-nos todos como pudermos para a fazer acontecer.”

Sofia diz que ainda não falaram com a Associação de Estudantes para oficializarem o núcleo e, quando questionada porquê, não resiste a expressar alguns receios. “Nós pensámos em criar o núcleo, só que depois veio uma parte de meio medo”, admite. “Mesmo em Psicologia, onde nós trabalhamos muito a tolerância e empatia…”, hesita em continuar. “Estamos muito polarizados, hoje em dia, e muitas vezes há uma atitude de ‘ou estás contra, ou estás connosco’”.

Apesar das dúvidas, depois de falar com o padre Nuno Amador, responsável da Pastoral Universitária da Diocese de Lisboa, ficou mais tranquila. “Não tem de ser uma coisa formal da faculdade”, esclarece Sofia, “podemos ser só um núcleo de católicos da Faculdade de Psicologia que se encontram”. No grupo prevalece a opinião de que não precisam de ser reconhecidos para funcionarem como desejam.

A intenção dos NEC não passa por fazer “guerras”, garante o padre Amador. “É tentar, pela boa relação, levar as pessoas a perceber que o NEC pode ser uma mais-valia para todos, e não só para os católicos.” Se a relação for feita pelos próprios alunos, será sempre mais fácil, “mas depois depende muito dos diretores e das associações de estudantes”, conclui.

Agora, a prioridade para os membros do núcleo é abrirem-se às pessoas e provarem que não têm quaisquer intenções de “exclusividade e elitismo”, explica Sofia. Acima de tudo, desejam “ser aceites” tal como são.

 

Estudantes e católicos, sim. Fechar os olhos, não.
abuso menores igreja Ilustracao Churchandstate.org

O tema dos abusos de menores na Igreja é frequentemente debatido entre os jovens. Ilustração: Churchandstate.org.

 

Entre os jovens, e especialmente desde os casos muito mediatizados que ocorreram na Irlanda e nos EUA, um tema que costuma estar à superfície quando se discute religião são os casos de abusos sexuais de menores dentro da Igreja Católica.

Há alguns meses, num curto lapso de tempo, foi publicado um relatório sobre os abusos sexuais cometidos no seio da Igreja Católica francesa – que estima um total de 330 mil menores abusados sexualmente entre os anos de 1950 e 2020 – e a Conferência Episcopal Portuguesa anunciou a criação de uma comissão independente, financiada pela Igreja, para o “apuramento histórico” dos casos de abuso sexual eventualmente cometidos, com o relatório final a ser apresentado até dezembro de 2022.

Leonor Carola, 20 anos, estudante no 4º ano de Medicina na Universidade de Lisboa e coordenadora do Raio-X, o NEC da sua faculdade, é perentória: “Esta situação é péssima e eu não tenho nenhuma forma de a defender porque não há nenhuma forma de a defender!”, afirma. “Muito embora muita gente ache que, porque eu sou católica, vou ter de os defender. Claro que não!”

“Se tudo funcionasse como deveria funcionar, não haveria necessidade de isso acontecer…”, argumenta Beatriz Afonso, “mas a Igreja é a primeira a assumir que o Homem é fraco e pecador e, portanto, não acho que seja um contrassenso”. Sofia diz mesmo que a criação da comissão é um sinal de que a Igreja quer sair “um bocadinho do pedestal”.

Segundo José Pereira Coutinho, autor do livro Religião em Portugal: Análise Sociológica (2020) e investigador no Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião, da Universidade Católica Portuguesa (CITER-UCP), para os mais jovens que ainda estão numa fase de construção da sua identidade, “os exemplos de figuras religiosas são muito importantes porque, no fundo, são o reflexo de uma instituição”. “Por mais que uma pessoa esteja envolvida, por mais que um católico seja convicto, acaba por ser afetado e começa a questionar-se”, conclui.

 

“Queremos um espaço para nós e para os outros também”
Outubro 2021. Diogo Alvito. Missa de Início de Ano 2021-2022.Igreja de São João de Deus, Praça de Londres. Fonte desconhecida

Missa de Início do ano letivo 2021-2022, organizada pelo NECT, na Igreja de São João de Deus, Praça de Londres. Foto: Direitos reservados.

Diogo Alvito, de 22 anos, está em Breslau (Wroclaw), Polónia, no programa Erasmus. Fala por videochamada durante uma tarde cinzenta em Portugal. Diogo está no 5º ano no Instituto Superior Técnico e frequenta o mestrado de “Data Science”. Desde o ano letivo 2020-21, é um dos dois estudantes coordenadores do NECT, o Núcleo de Estudantes Católicos do Técnico.

A pandemia virou de cabeça para baixo o plano de atividades do núcleo. Desde as missas, ao terço, noites de oração, conferências, grupos de partilha e, sobretudo, a peregrinação anual a Fátima, todas as atividades tiveram de ser repensadas. “Grande parte das nossas atividades eram presenciais”, diz, “e essas atividades eram o que estimulava o próprio convívio entre os estudantes”. Com as interrupções, explica, o número de participantes acabou por baixar.

Apesar de estar no outro lado da Europa, Diogo continua a acompanhar as atividades do NECT. No primeiro ano à frente do núcleo, propôs a criação da pasta dos “Convívios” para “continuar a cultivar este espírito de comunidade”, diz. O objetivo consiste em marcar um dia ou uma hora e realizar alguma atividade em grupo. E dá um exemplo recente: “tivemos um convívio, há cerca de duas ou três semanas, em que fizemos um torneio de paddel nos próprios campos do Técnico” onde conta terem participado mais de 20 pessoas.

Contudo, a pandemia gorou-lhe um objetivo pessoal. O NECT não é um núcleo reconhecido pela sua faculdade e Diogo queria mudar isso. “Quando entrei para a coordenação do NECT, tinha como um dos principais objetivos lutar por isso. Só que tive a infelicidade de surgir a covid, e achei que seria ainda mais impossível, tendo em conta a Faculdade já ter de estar a lutar com mil e um problemas”, desabafa.

O Técnico argumenta que pelos estatutos e enquanto instituição laica não pode oficializar núcleos de natureza religiosa. Diogo explica melhor a sua posição: “Para eu poder dar o máximo na minha faculdade, preciso de também ter a dimensão espiritual integrada em mim próprio”, e enfatiza, “acho que seria muito bom uma faculdade como o Técnico poder abrir as portas às várias religiões, porque nós não pedimos que nos abram só a nós, como católicos. Queremos um espaço para nós e para os outros também o terem.”

O maior inconveniente de não serem um núcleo reconhecido pela faculdade é o menor acesso a meios de divulgação. A título de exemplo, Diogo conta como quando quiseram promover a Missão País tiveram de ficar do lado de fora dos portões a distribuir panfletos porque não tinham permissão para afixar cartazes na faculdade.

“Não é que nós nos escondamos”, diz. “Conseguimos estar à vontade a fazer as nossas atividades, nem temos qualquer problema com o Técnico”. Do ponto de vista do núcleo, o maior benefício seria a possibilidade de “chegar a mais pessoas” e seriam os estudantes quem mais “ganharia diretamente”, argumenta.

O padre Amador enfatiza o carácter duradouro das relações criadas nos NEC, e descreve como muitos destes jovens continuam a encontrar-se depois de terem concluído o curso superior. “É engraçado”, conta, “pois hoje em dia estou com aqueles que já passaram pelos NEC há cinco, dez anos, mas agora em casamentos, batizados dos filhos… Nós temos casais que se conheceram na primeira Missão da FCSH e que já têm três filhos!”

Porque, nas suas palavras, a relação que se cria nos núcleos é especial: uma “amizade familiar, uma amizade em Cristo que passou e que se manteve”.

 

Este trabalho foi realizado no âmbito da cadeira de Atelier de Jornalismo, da licenciatura em Ciências da Comunicação 2021-2022, da Universidade Católica Portuguesa. 

 

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