Reportagem

A nova geração de universitários que quer encontrar-se em Cristo (I)

| 5 Set 2022

Na última década, um novo tipo de “associativismo católico” tem crescido no ensino superior, apesar da significativa redução do número de jovens que se dizem católicos. O primeiro Núcleo de Estudantes Católicos (NEC) surgiu em 2010. Hoje, existem 18 só na Diocese de Lisboa. São constituídos por estudantes com vontade de viver, mostrar e discutir a religião no espaço académico. Estas são as primeiras duas histórias de quatro núcleos contadas pelas vozes de quem deles faz parte.

14 de Junho. Leonor Carola (esquerda) com o Almirante Gouveia e Melo. Edificio Egas Moniz (Hospital de Santa Maria), Conferência do Raio-X com o tema "acolher a fragilidade humana". Créditos: Marta Baptista e Francisco Fouto.

“Acolher a fragilidade humana” foi o tema desta “NECTalk” organizada pelo Núcleo de Estudantes Católicos da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Foto © Marta Baptista e Francisco Fouto.

 

A noite já tinha caído sobre a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), da Universidade Nova de Lisboa. Num corredor do Edifício C, Beatriz Afonso, estudante da faculdade, espera ansiosamente que lhe libertem a sala que tinha reservado. Às 20h, com as últimas aulas terminadas, terá lugar a primeira conferência depois do confinamento organizada pelo Núcleo de Estudantes Católicos (NEC) da faculdade, do qual é uma das coordenadoras. O NECTalk (como lhe chamam) consistirá no testemunho de um jovem casal católico sobre como a “Teologia do Corpo” – um conjunto de homílias proferidas pelo Papa João Paulo II – os orientou do namoro ao casamento e à constituição de uma família.

Apesar da demora, a sala, por fim, fica livre e os dez estudantes que aguardavam no corredor afastam rapidamente as mesas e formam uma meia-lua com as cadeiras. Só falta agora encontrar o melhor lugar para posicionar o telemóvel e começar o direto nas redes sociais. “O que nós estamos a fazer (e fizemos na semana passada) é, dez minutos antes de começar, anunciar que vamos passar um direto”, conta Beatriz Afonso, uma semana depois em conversa por videochamada. “Tivemos 13 pessoas a assistir no Instagram”, acrescenta.

Doutrina da Igreja, namoro, casamento, pornografia, revolução sexual, parentalidade, vício e conversão. Duas horas depois, abre-se a conversa aos jovens. No fim, há livros e lanche – bolachas e sumo. Para uma quinta-feira, a noite na faculdade já vai longa.

Os encontros presenciais só puderam regressar no ano letivo 2021-22, quando grande parte da população estudantil já estava vacinada. No ano letivo 2020-21, as “atividades passaram todas para o online”, conta Beatriz. O seu objetivo enquanto coordenadora do núcleo é trazer os estudantes novamente à faculdade: “É a nossa prioridade máxima, porque não vamos conseguir criar um núcleo, uma comunidade, se as pessoas não vão aos sítios.”

Fevereiro 2020. Beatriz Afonso. Missão País, A dos Cunhados. Fonte desconhecida.

Beatriz Afonso, durante uma atividade da Missão País em que participou no ano 2020. Foto: Direitos reservados.

Beatriz tem 21 anos e frequenta o mestrado em “Novos Media e Práticas Web”. É mais uma estudante de um crescente número de jovens do ensino superior que, especialmente nas universidades de Lisboa, tem vindo a associar-se em Núcleos de Estudantes Católicos – NEC. Após a criação do primeiro em 2010, o número destes núcleos cresceu a um ritmo assinalável. Em 2012, quando estudantes católicos da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa conseguiram que o seu núcleo fosse o primeiro NEC oficializado numa faculdade, existiam quatro em todo o território da Diocese de Lisboa – uma área que ocupa a margem norte do rio Tejo até Peniche. Em 2021, são 18 só nesta Diocese.

O padre Nuno Amador, responsável na Pastoral Universitária, o “braço” académico do Patriarcado de Lisboa, acompanha os núcleos em Lisboa. “A Pastoral Universitária, como missão geral, significa o cuidado pastoral pela comunidade universitária”, explica ao telefone. “Ou seja, no fundo, é uma presença da Igreja junto da comunidade académica.”

Cada NEC funciona com grande autonomia e é responsável pela organização da sua própria dinâmica. Em certos casos, por afinidades pré-existentes entre as faculdades, alguns núcleos realizam atividades em conjunto, como acontece entre as Faculdades de Medicina da Nova e da Universidade de Lisboa. No entanto, a generalidade dos núcleos continua a funcionar de forma bastante dispersa e, por isso, o padre Amador procura reunir-se pelo menos uma vez por trimestre com os responsáveis de todos os grupos para alinharem algumas atividades.

 

O mais importante é o facto de não estarmos sozinhos

O crescimento do número de NECs nas faculdades é indissociável da Missão País, uma iniciativa de voluntariado e missionação direcionada para os jovens do ensino superior. “Juntei-me ao NEC logo no primeiro ano, a seguir à Missão País”, conta Leonor Carola, de 20 anos, estudante no 4º ano de Medicina na Universidade de Lisboa e coordenadora do Raio-X, o NEC da sua faculdade.

“Basicamente, comecei a ir às iniciativas do NEC porque a rapariga que estava à frente dele tinha andado no meu colégio e insistiu comigo”, diz.

Leonor vem de uma família de pais católicos não-praticantes, mas a avó “supercatólica”, nas suas palavras, puxou-a sempre mais para a dimensão religiosa. Frequentou o colégio católico de São Tomás, em Lisboa, e no 11º ano, incentivada por amigos, tomou a “melhor decisão” da sua vida quando se juntou aos grupos da Família Missionária Verbum Dei. Quando chegou à universidade, o sentido de pertença que vivenciou na Missão País deixou-a “mais à vontade para assumir a fé” também nesse meio, confessa.

Como explica o padre Amador, durante o atual pontificado, houve uma alteração na forma como a Igreja interage com os jovens. “No caso dos NEC, isto vem ao encontro de algo que o Papa Francisco tem pedido: que as coisas não sejam feitas para os jovens, mas que sejam feitas com os jovens”, enfatiza. E é isto que também faz sentido para Leonor: “O mais importante é o facto de não estarmos sozinhos e de nos juntarmos a um grupo”. E concretiza: “Se sentisse que nestes seis anos só faria o curso, não ficaria realizada.”

Devido à formação mais prolongada de medicina, o Raio-X costuma contar com um maior número de participantes nas suas atividades. Só no grupo de WhatsApp estão 133 alunos. “Temos a nossa página no Instagram e a nossa página no Facebook e este ano criámos um grupo no WhatsApp”. Leonor salienta, sorrindo, que não fazem spam. “Sou só eu e o Lourenço [também coordenador no núcleo], e a única coisa que mandamos para lá são as atividades que vamos tendo, e se quiserem [os alunos] vão aparecendo.”

Devido ao carácter não-institucional de muitos destes núcleos, as atividades costumam ser realizadas fora das faculdades e a missa celebrada na igreja mais próxima. “Aproveitamos essa sinergia, em vez de estarmos a inventar outras estruturas”, explica o padre Amador. Cada NEC é acompanhado por um pároco, mesmo que não corresponda ao pároco da paróquia a que o NEC se “associou”. O próprio padre Amador está com alguns núcleos. “Acompanho mais a FCSH e vou tentando passar um pouco pela estrutura de vários: celebro, às vezes, com o Instituto Superior de Agronomia, com o Técnico e com Farmácia”, diz.

O caso do Raio-X é especial. A sua “casa”, como Leonor a descreve, é a capela do Hospital de Santa Maria. “Aquilo que nós fazemos, ou não fazemos, é com autorização do capelão do Hospital”, afirma. Na capela, que “não é muito grande”, as missas semanais de quinta-feira organizadas pelo núcleo costumam estar cheias, com “quarenta e tal” pessoas.

A nível pessoal, o período de confinamento foi especialmente desafiante: “a missa [do NEC] foi aquilo de que eu senti mais falta…”, revela. A maioria das atividades foi cancelada, incluindo a “Missão Aqui”, uma iniciativa de voluntariado do Raio-X nos serviços do Hospital de Santa Maria através da qual os estudantes, mesmo os não-religiosos, fazem companhia aos doentes. Só a missa e as “Noites de Oração” continuaram, mas online.

Como acontece com muitos destes jovens, a dimensão religiosa não é facilmente separável do seu bem-estar, nem do estudo. “Já não sabia como é que ia fazer a minha época de exames”, diz Leonor. Rezar costuma ajudá-la nos momentos de maior ansiedade: “Depois fico muito mais pronta e calma para estudar.”

 

Fevereiro 2020. Leonor Carola. Missão País, Vila de Rei. Num lar. Leonor ao centro em baixo (foto nº2). Crédito: desconhecido.

Leonor Carola (ao centro) conta que, quando chegou à universidade, o sentido de pertença que vivenciou na Missão País a deixou “mais à vontade para assumir a fé” também nesse meio. Foto: Direitos reservados.

 

 

O afastamento entre os jovens e a religião

Segundo os dados do INE, em 2011, 81% da população residente em Portugal identificava-se como “Católica”, uma diminuição de mais de três pontos percentuais em relação a 2001 (84,5%). Mais recentemente, em 2017, a percentagem de católicos diminuiu para os 77%, um valor ainda bastante superior à média de 64% na chamada “Europa Ocidental Católica” (Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, França, Irlanda, Itália, Portugal e Suíça).

No entanto, se analisarmos os números apenas relativos aos “Jovens” (18 aos 29 anos), o European Social Survey (ESS) mostra uma forte diminuição da pertença católica em Portugal. Em 1999, a percentagem de jovens portugueses que se identificava como católica era de 76,5%. Em 2016, o ano com dados mais recente, apenas 50,2% se identificaram da mesma maneira.

A população católica em Portugal estará num declínio demográfico irreversível? Questionado, José Pereira Coutinho, autor do livro Religião em Portugal: Análise Sociológica (2020) e investigador no Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião, da Universidade Católica Portuguesa (CITER-UCP), responde: “Os cientistas sociais costumam ser prudentes em relação a previsões. Aliás, não há previsões. Aquilo que há são tendências.”

Pereira Coutinho refere como contra-exemplos a França, “que é um país mais escolarizado do que Portugal”, a Hungria e a Lituânia, esta última com um “acréscimo claro” da religiosidade católica. Para o investigador, é provável que a religiosidade católica na generalidade dos países vá “chegar a um ponto em que não cai mais ou, se cai, cai muito ligeiramente. Porquê? Porque haverá sempre pessoas religiosas”. Contudo, quando questionado sobre o abandono crescente da religião pelos jovens, a explicação adensa-se.

Em primeiro lugar, há o conceito de autonomia, uma “questão claramente das sociedades ocidentais”, refere. Segundo o investigador, a autonomia está ligada ao processo de individualização e traduz-se em “estarmos livres da influência da autoridade religiosa”, explica. Nesse caso, “nós é que decidimos como nos relacionamos com o religioso e com o sagrado”. Um dos efeitos deste processo é a diminuição da influência que as estruturas religiosas têm sobre os jovens, os quais “de maneira alguma” se sentem especialmente ligados ao passado e à tradição.

Em segundo lugar, a eclosão da família tradicional, o “agente principal de transmissão religiosa”. O aumento dos divórcios e a diminuição dos casamentos religiosos, entre outros fatores, são sinais e causas do declínio do modelo da família tradicional, fazendo com que a transmissão religiosa seja mais difícil pois “quanto mais socializado religiosamente um jovem é, mais defesas tem contra a individualização”.

Mas então, o que é que pode explicar o crescimento em contracorrente dos núcleos de estudantes católicos? “Os jovens estão numa constante construção identitária”, explica Pereira Coutinho, “e a presença religiosa de um movimento que ajuda a essa construção é muito importante. Para além disso, há a questão comunitária que está ligada à liturgia, aos vários rituais, às peregrinações e por aí fora…”.

 

Leia a segunda parte da reportagem aqui.

Este trabalho foi realizado no âmbito da cadeira de Atelier de Jornalismo, da licenciatura em Ciências da Comunicação 2021-2022, da Universidade Católica Portuguesa. 

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