338 casos já validados

A “nuvem escura que nunca larga” as vítimas de abusos sexuais

| 30 Jun 2022

17 casos já entregues ao Ministério Público, todos de padres que podem estar ainda no activo; 338 testemunhos validados, com um peso importante de situações ocorridas no confessionário. Uma maioria de vítimas que, ainda assim, continua a considerar-se como católica. Após quase seis meses de trabalho, a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa fez um novo balanço. E apresentou três depoimentos de vítimas que querem ajudar a que outras como elas também falem e que pedem à Igreja um gesto de reparação.

Cuaresma III © Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza.

 

São três testemunhos de fazer gelar o sangue. Um deles vem de um homem que se afirma ainda como católico mas que diz que o abuso sofrido o leva a questionar a sua fé. O depoimento foi lido pelo padre José Manuel Pereira de Almeida, vice-reitor da Universidade Católica e coordenador nacional da Pastoral da Saúde da Igreja: “Homem pedófilo, quero que saibas o que fizeste à minha fé: (…) Ter fé implica ter confiança, ter esperança, agir por amor. Confiar que alguém nos ama, como os pais amam os filhos e que esse amor repousa em nós. Como os pais amam os filhos (…) E aqueles que me amaram sempre tornaram-se o objeto da minha desconfiança. E Deus no meio disto? A serenidade do amor, onde ficou pousada?” (O testemunho pode ser lido na íntegra noutro texto do 7MARGENS.)

Uma mulher de 50 anos conta (pela voz emprestada da apresentadora Carolina Patrocínio) que foi abusada a partir dos seis anos e até cerca dos dez/onze, por um padre amigo da família, “homem respeitadíssimo na diocese, com obras publicadas”. E acrescenta: “Falei com um bispo, contei tudo. Embora dissessem que acreditavam em mim, senti que não acreditavam na totalidade. Perguntaram-me: ‘Tem mesmo a certeza que foi esse padre?’ (…) Disse sempre que não quero dinheiro nem nenhum tipo de compensação. (…) Quero que o padre em causa saiba que me fez muito mal. A mim e a outras crianças a quem eu sei que fez o mesmo. Quero que perceba que mudou a minha vida para pior, que há uma nuvem escura que nunca me larga.”

O apresentador Manuel Luís Goucha deu voz a outro testemunho, de um homem de 46 anos, que quer que outras pessoas que passaram pelo mesmo “não tenham medo, que falem e que assim se ajudem a si próprios e a outros que passaram ou podem vir a passar pelo mesmo”.

“Serei breve, falar disto custa”, escreve a terceira vítima no depoimento que entregou à Comissão Independente para a conferência de imprensa que, nesta quinta-feira, 30 de Junho, fez o ponto de situação de quase seis meses de trabalho da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa.

“Acreditem, isto não se cura mesmo. (…)    o meu drama são os meus pensamentos desde que aquilo aconteceu e mais tarde e essa é que me custa admitir, voltou ainda a acontecer outra vez. (…) violento foi o que aconteceu. Falar disto é como ensopar uma esponja

Fonte: Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa.

que limpa e absorve a porcaria e pelo menos melhora sempre a superfície.” Numa escola católica em Lisboa, quando tinha 12 anos, a vítima magoou-se no recreio e, na enfermaria, foi acolhida por um padre-enfermeiro, que lhe pediu para se despir da cintura para baixo. O abuso repetir-se-ia ainda outra vez. “Era católico quando tudo isto aconteceu e a grande pergunta que ainda faço a mim mesmo e para a qual fico sempre com a boca seca e sem qualquer tipo de resposta para ela, é a seguinte: como é que eu ainda sou católico? Fé em quem? Porquê?”

A pergunta desta última vítima bate certa com a maior parte dos 338 testemunhos validados até esta quinta-feira, 30 de Junho, pela Comissão Independente. Um total de 61% das pessoas cujos testemunhos foram validados dizem que continuam a considerar-se católicas, contra 39% que dizem que não. E entre os que continuam católicos, “a esmagadora maioria são católicos praticantes”. Um dado que “implica a Igreja portuguesa, no sentido de ela própria fazer um apelo ao testemunho”, considerou a socióloga Ana Nunes de Almeida, que apresentou alguns dos dados recolhidos até agora.

No início da conferência de imprensa, o coordenador da Comissão, o pedopsiquiatra Pedro Strecht referiu que este trabalho interessa também a “todos os católicos, para que a sua Igreja saia definitivamente reforçada de todo este processo, pois distinguir ‘uns’ entre ‘muitos’ é também conseguir separar a minoria dos seus membros prevaricadores da maioria que a forma e confere um registo saudável ao todo que é a própria instituição religiosa”.

Destruição de vidas também no confessionário
Giuseppe Molteni, La Confessione (A Confissão), 1838, Cariplo Collection, Artgate Fondazione Cariplo, via Wikimedia Commons:

Giuseppe Molteni, La Confessione (A Confissão), 1838, Cariplo Collection, Artgate Fondazione Cariplo, via Wikimedia Commons.

Dos testemunhos já recolhidos e validados (houve 29 que foram excluídos, por variadas razões), Ana Nunes de Almeida referiu outros números: 40% são mulheres, 57% de homens, havendo quem não se tenha identificado. A maior parte das vítimas (58,5%) tem, hoje, entre 36 e 65 anos – ou seja, estão em plena idade activa. Somando de outro modo as diferentes faixas etárias, 29% são pessoas que têm até 45 anos. E um pouco mais de metade (52%) têm habilitações superiores. A maior parte dos casos vem do litoral do país, sentindo a Comissão que a mensagem ainda não passou para o interior.

A uma pergunta do 7MARGENS sobre se isso não exigiria um pedido dos bispos no sentido de o tema ser referido em todas as missas, Pedro Strecht disse que a Comissão já propôs, em Fevereiro e Abril, que a CEP providenciasse a colocação de publicidade estática à porta das igrejas, mas que não cabe à Comissão dar uma ordem desse género. Daniel Sampaio acrescentou, “a título pessoal, que seria essencial que nas missas este assunto fosse falado”.

Na caracterização dos abusos percebe-se que eles não são, na maior parte dos casos, com penetração sexual, o que significa que os dados mostram que “a destruição de vidas das pessoas não está ligada só” a esse factor, como sublinhou Ana Nunes de Almeida. No tipo de situações referenciadas, o telemóvel e o confessionário abrangem a maior parte dos 29,5% de “outros” na caracterização dos abusos sofridos. Muitas vezes, com utilização de “linguagem sexualmente explícita, palavras ou imagens obscenas ou perguntas não apropriadas”, que as vítimas só mais tarde percebem o seu alcance e significado.

Em vários casos, as vítimas decidiram falar agora ou pela oportunidade surgida pela existência da Comissão, contribuindo ao mesmo tempo “para que a Igreja se purifique”; ou porque pensa em outras pessoas, para que mais ninguém passe por tal situação. Há ainda quem, incentivado pelo pároco, prefere dar o testemunho anónimo possibilitado pelo preenchimento do inquérito digital; e quem se revolte com a curta dimensão dos números até agora divulgados: “Ouvi nas notícias que foram à volta de 300 casos; isso foi só no meu seminário; se fosse, três mil era pouco”, dizia um testemunho.

Fonte: Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa.

 

A Comissão enviou entretanto à Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) uma nota a falar de uma “dupla expectativa” das vítimas: “O pedido de perdão pelo passado, assumido pela Igreja junto das vítimas, a par do inequívoco compromisso por um futuro diferente perante todos os seus fiéis”, de modo a “que sobre um grito de dor e de revolta não reste apenas a resignação”. Referindo que apenas uma pessoa fala de compensação financeira, Strecht acrescentou que a materialização dessa mensagem deveria assumir uma “forma simples, digna e pública” e ser concretizada até final do ano: “Um local eterno de encontro, pausa, reflexão, oração até, onde possa ficar inscrito e imortalizado o que também todos nós, sem qualquer dúvida, sentimos perante o que cada uma destas vítimas evoca através do seu injustamente sofrido exemplo de vida.”

 

“O peso de uma exumação”

 

Sobre o acesso aos arquivos diocesanos, que obrigou a uma ida de vários bispos a Roma, para ultrapassar as questões jurídicas levantadas pelo núncio na assembleia da CEP em Abril, Strecht disse que estão agora “abertas as portas” para que a equipa que está a trabalhar nessa área possa começar a estudar os arquivos eclesiásticos de 1950 até à atualidade. Para o efeito, houve já uma reunião com a presidência da CEP e a direcção da Confederação dos Institutos Religiosos de Portugal e um primeiro inquérito para recolha de dados foi já enviado a todas as dioceses, institutos religiosos e sociedades de vida consagrada.

O coordenador da comissão destacou o ambiente de “confiança mútua” existente entre a Comissão e o episcopado, ao mesmo tempo que insistiu na importância de as vítimas perderem o medo, a vergonha ou o sentimento de culpa.

Já o psiquiatra Daniel Sampaio, que integra também a comissão, insistiu na ideia de que os abusos sexuais são “um problema global, transversal em todas as sociedades”, para apelar: “Se foi a Igreja Católica que deu este passo, no sentido de estudar os abusos no seu seio, é preciso que a sociedade também o faça. Não podemos ficar por este relatório e por este estudo. O abuso sexual é uma questão muito importante das sociedades actuais.”

Fonte: Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa.

 

Daniel Sampaio referiu ainda as consequências do abuso nas vítimas: 60% das crianças abusadas revelam problemas graves de stress pós-traumático, perturbações de ansiedade, perturbações depressivas e tentativas de suicídio. A amostra até agora recolhida revela exemplos de todas essas situações, disse, considerando que é necessária uma boa resposta, que não existe em Portugal, dos serviços de saúde mental a este problema.

A terapeuta familiar Filipa Tavares, que também integra a Comissão, referiu que sempre que se identificaram “necessidades e abertura para um acompanhamento especializado, foram dadas informações nesse sentido”. Dos 241 telefonemas recebidos pela Comissão, 101 foram, de mulheres e 140 de homens, disse, que no final agradeciam ter tido alguém a escutar as suas experiências.

A revelação de que o confessionário não foi, muitas vezes, “um lugar seguro, antes pelo contrário”, deveria levar ainda a Igreja a “preocupar-se com dispositivos disponíveis para apoio às vítimas de abusos sexuais”, considerou Daniel Sampaio.

Fonte: Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa.

 

No caso dos 17 testemunhos enviados já ao Ministério Público – ou seja, que não prescreveram –, deve haver “poucas expectativas quanto ao êxito” da investigação judicial, tendo em conta o sigilo e a limitação de alguns dados obtidos, considerou Álvaro Laborinho Lúcio, numa intervenção escrita, por impossibilidade de estar presente.

A realizadora Catarina Vasconcelos, que integra igualmente a comissão, referiu-se aos depoimentos das vítimas: “Percebemos que os seus testemunhos têm o peso de uma exumação: ao invés de se desenterrarem ossadas, desenterram as crianças frágeis que eram aquando dos abusos que sofreram.” E acrescentando que “os abusos enclausuraram as pessoas vítimas, retiraram-lhes o direito de poderem ser crianças”, referiu que “a liberdade surge como direito que ainda não chegou a toda a população portuguesa”.

 

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