A obra “mais completa” sobre a primeira tradução da Bíblia em português

| 16 Jan 20

Histórias à volta da Bíblia (1)

A 26 de Janeiro, a Igreja Católica celebra um domingo dedicado à Bíblia, por sugestão do Papa Francisco. A esse propósito, o 7MARGENS publicará vários textos sobre edições e iniciativas recentes relacionadas com a Bíblia.

Apocalipse XII, 1-3; Ilustração de Ilda David’ para a edição ilustrada da Bíblia de Almeida, com fixação de texto de José Tolentino Mendonça

 

O quarto volume de A Bíblia em Portugal, da autoria do biblista e frade franciscano capuchinho Herculano Alves, será apresentado esta quinta-feira em Lisboa. Centrado na Bíblia de João Ferreira Annes d’Almeida, o primeiro a fazer a tradução (quase) integral do texto bíblico, este volume é a obra “mais científica e mais completa” sobre o primeiro tradutor (quase) integral da Bíblia para português.

A obra que esta quinta-feira será apresentada – que integra um projecto mais vasto – retoma o livro editado em 2007, resultante do trabalho de investigação do autor, e no qual apresenta alguns dados inéditos sobre o homem que, em 1681, publicou em Batávia (actual Jacarta, capital da Indonésia) a primeira parte daquela que iria ser a tradução de referência da Bíblia, ao longo de mais de três séculos, para milhões de portugueses.

“Almeida é um desconhecido em termos contemporâneos, mas é notável pela sua obra e pela forma como divulgou a língua portuguesa no Oriente”, diz Timóteo Cavaco, investigador em história religiosa e que já desempenhou o cargo de secretário-geral da Sociedade Bíblica Portuguesa (SBP), a mesma editora que continua a publicar a Bíblia d’Almeida, asism conhecida.

O investigador irá apresentar o livro numa sessão que decorrerá no Auditório José Araújo, na Biblioteca da Universidade Lusófona, em Lisboa, a partir das 18h. “Há um factor relevante na figura e obra de Ferreira d’Almeida”, afirma ao 7MARGENS. “Esta é a única tradução da Bíblia para uma das principais línguas europeias que é feita fora da Europa”, o que confere ao tradutor um estatuto percursor do conceito da lusofonia, defende Timóteo Cavaco.

Por outro lado, o facto de o tradutor começar cedo a fazer esse trabalho (aos 16 anos), “não ofusca outras vertentes da sua vida e da sua missão: foi pregador, missionário, viajante e desenvolveu uma dimensão intercultural importante”, acrescenta o investigador. E o missionário protestante só se pode entender “se desligarmos da imagem do tradutor fechado e isolado”, como Lutero no castelo de Wartburg. “Ao contrário de Lutero nessa fase, Ferreira d’Almeida traduziu a Bíblia enquanto continuava a sua missão.”

A publicação deste IV volume daquela que se pode considerar uma “verdadeira história da Bíblia em Portugal” não desvaloriza Ferreira d’Almeida, diz Timóteo Cavaco. “Ele foi o primeiro a traduzir a Bíblia quase integralmente, mesmo se já havia outras traduções anteriores, e é isso que procurarei enquadrar”, antecipa o investigador.

Antes de Almeida, por exemplo, o rei D. Dinis tinha traduzido os primeiros capítulos do Génesis, D. João I traduziu os Salmos e ordenou a tradução do texto completo, mas ficou-se pelo propósito e, depois, Damião de Góis traduziu o Eclesiastes, um dos poucos textos bíblicos publicados em português no período humanista (e reeditado há alguns anos pela Gulbenkian).

 

Afinal, também se chamava Annes…

E o que se conta neste volume, afinal? O autor, Herculano Alves considera estar-se perante “o maior escritor de língua portuguesa”, depois de ter concluído o seu trabalho de três anos de investigação acerca do missionário protestante João Ferreira d’Almeida (1628-1691), cuja tradução da Bíblia já chegou a pelo menos 2000 edições e perto de 200 milhões de exemplares, em 340 anos.

Nas cerca de 900 páginas desta obra, Herculano Alves traça a biografia do missionário protestante, cataloga as edições da Bíblia de Almeida até hoje (numa versão muito acrescentada em relação à primeira edição, de 2007) e desvenda a figura histórica para lá do mito entretanto construído.

Almeida, sublinha frei Herculano Alves, foi o primeiro a traduzir a Bíblia na sua (quase) integralidade para português, num tempo que a Igreja Católica “estava ainda toda contente com a Bíblia em latim”. O tradutor concretizou assim, em português, a novidade desse tempo, colocando a Bíblia nas línguas vernaculares.

Génesis I, 31; Ilustração de Ilda David’ para a edição ilustrada da Bíblia de Almeida, com fixação de texto de José Tolentino Mendonça

 

O livro agora apresentado resulta da pesquisa feita em 118 bibliotecas de quatro continentes, onde se encontram traduções d’Almeida. As mais importantes, além da Biblioteca Nacional de Lisboa, são a do Museu da Bíblia em São Paulo (Brasil), Nova Iorque e as bibliotecas nacionais da Holanda, Dinamarca e de Paris – onde o autor encontrou “edições raríssimas”.

Só até à publicação da primeira edição, Herculano Alves recenseara 1796 edições, com mais de 111 milhões de exemplares – da Bíblia completa ou em edições separadas do Novo Testamento, Antigo Testamento, Evangelhos ou outras. Mas o frade católico fez a conta por baixo e só catalogou as obras quando tinha certezas. Por isso não contou muitas edições não entradas nas bibliotecas nem outras, sobretudo do Brasil, cujo número de exemplares as editoras não registavam. Os números totais não serão, por isso, exagerados.

A busca permitiu ainda desvendar um dos mistérios respeitantes ao tradutor da Bíblia: no único manuscrito existente da obra Diferença da Cristandade, onde se explica o que separa protestantes de católicos (guardado na Holanda), estava a assinatura completa do próprio: João Ferreira Annes d’Almeida. Em tudo o mais, o nome Annes nunca aparecia.

 

… e não foi padre católico

Outro dos problemas decifrados pelo frade católico acerca do missionário protestante diz respeito à (im)possibilidade de Almeida ter sido padre católico. Herculano Alves defende, sustentado pelos documentos, que isso não aconteceu. O missionário viveu com um tio padre em Lisboa, depois de ter saído de Torre de Tavares (hoje no concelho de Mangualde) e antes de partir para a Holanda, de onde se fez ao Oriente.

Eduardo Moreira, missionário anglicano e historiador (1886-1980) escrevia, sobre esta fase de Almeida: “Em casa do tio clérigo se conservou ele até aos catorze anos incompletos, educado nas virtudes e manhas, se as tinha, do seu protector. Certamente passou da gramática ao latim e, porventura, à lógica. Certamente ajudou à missa, conheceu a tábua de Pitágoras, o Lunário Perpétuo, folheou com mão esperta alguma História Sagrada e decorou João de Barros.”

Tendo emigrado nessa época, teria sido impossível o jovem João ser ordenado padre católico. E no Oriente – Ceilão, Indonésia, Malaca, Índia, regiões por onde circulou – isso não aconteceu, porque cedo Almeida aparece já como protestante. Na viagem que fez de Amesterdão para Malaca, Almeida teria lido um pequeno opúsculo intitulado “Diferença da Christandade”, que trata das divergências entre católicos e protestantes. “No mesmo instante, [Deus] se serviu logo tambem de em mim prantar hum ardente e inextinguível Zelo e Desejo de, conforme a o Talento que de sua paterna e liberal Maõ recebera, o comunicar tambem”, escreverá ele, mais tarde, recordando o momento em que se sentiu a chamado a missionar.

A tradução que Almeida faz da Bíblia, iniciada quando tinha 16 anos, e os outros escritos – alguns deles, panfletos anti-católicos muito violentos – fizeram de Almeida um “grande propagador da língua portuguesa”. Mais ainda quando, depois da extinção da Companhia de Jesus decretada pelo Marquês de Pombal, ficou destruído o mais importante meio difusor da cultura de Portugal no Oriente.

Êxodo XII, 11-12; Ilustração de Ilda David’ para a edição ilustrada da Bíblia de Almeida, com fixação de texto de José Tolentino Mendonça

 
Olhado com desconfiança por portugueses e holandeses

Nem tudo foi fácil para Ferreira d’Almeida, apesar da importância que hoje se lhe reconhece: a tradução do Novo Testamento, completada em 1645, só seria editada em 1681 – foi a primeira a ser impressa. Os portugueses, católicos, olhavam-no com desprezo por se ter tornado protestante; os holandeses protestantes, que na época eram a potência colonial daquela região, não gostavam que ele difundisse a língua dos inimigos.

A difusão que a tradução de Almeida já teve até hoje convertem o seu texto no mais lido e difundido de sempre em língua portuguesa. Entretanto, as sucessivas edições, correcções e actualizações ortográficas (em Portugal e no Brasil) tinham transformado a original Bíblia d’Almeida (que continua a ser publicada pela Sociedade Bíblica Portuguesa). A tradução original passou a ser uma referência por vezes vaga, o que levou o biblista Tolentino Mendonça a preparar uma edição com fixação do texto, publicada em oito volumes ilustrados por Ilda David’, entre 2006-07.

Para muitas pessoas, Almeida seria mesmo a cartilha em que se aprendeu a juntar as letras, assumindo um papel ímpar de difusão cultural da língua. Um facto que a coloca “sem paralelo entre nós”, mas que é concretizado “numa completa clandestinidade cultural, longe do reconhecimento e do prestígio que lhe são devidos”, como observava o agora cardeal Tolentino, na ocasião. A ignorância sobre Almeida, acrescentava, mede-se também, em Portugal, pela marginalidade a que uma certa agenda “cultural” remete tudo o que cheire a religioso ou, simplesmente, aos modos de reflectir, pela arte e pela cultura, a condição humana.

Quando Almeida morre, em 1691, aos 63 anos, tem quase concluída a tarefa da sua vida. Além de deixar publicadas várias obras de polémica com missionários católicos, o último versículo por ele traduzido está no livro de Ezequiel, capítulo 48: “E o que restar será para o príncipe; desta e da outra banda da santa oferta, e da possessão da cidade, diante das vinte e cinco mil canas da oferta, na direcção do termo do oriente e do ocidente, diante das vinte e cinco mil, na direcção do termo do ocidente, correspondente às porções será a parte do príncipe: e a oferta santa e o santuário da casa estarão no meio.”

Cantares de Salomão VI, 11; Ilustração de Ilda David’ para a edição ilustrada da Bíblia de Almeida, com fixação de texto de José Tolentino Mendonça

 

(Este texto retoma elementos de artigos publicados no Público em Maio, Outubro e Dezembro de 2006 e Fevereiro de 2007)

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