Terra Santa

A ocupação ameaça o modo de vida sagrado dos beduínos

| 5 Abr 2022

Esta reportagem faz parte de uma série de trabalhos do serviço de imprensa do Conselho Mundial de Igrejas, intitulada Iniciativa da Páscoa, que pretende retratar o quotidiano dos palestinianos, muçulmanos e cristãos que vivem em Jerusalém e arredores, com os problemas que enfrentam e o que lhes dá esperança. Neste artigo, Eid Jahalin, porta-voz da comunidade beduína de Khan el-Ahmar, conta como a ocupação retira direitos ancestrais ao seu povo.

(Nas duas histórias anteriores, Samira Dajani-Budeiri falava da importância do seu bairro e Yacoub Rajabi referiu-se à sacralidade da dignidade humana e da própria vida.)

Eid Jahalin, porta-voz da comunidade beduína de Khan el-Ahmar. Foto via CMI-WCC, cedida pelo próprio. 

Eid Jahalin, porta-voz da comunidade beduína de Khan el-Ahmar. Foto via CMI-WCC, cedida pelo próprio.

 

Ao olhar para as belas vistas da sua comunidade beduína em Khan el-Ahmar, Eid Jahalin reflecte sobre os muitos aspectos do seu modo de vida de que gosta: “Vivemos em harmonia com a natureza e, de facto, somos parte dela”, afirma. “Os meus antepassados viveram assim durante muitas gerações, longe das pressões sociais.”

A tranquilidade desta terra, rodeada de montanhas, é apenas interrompida por alguns veículos e pela alegre agitação das crianças a brincar ao ar livre.

“A nossa comida vem da natureza: os produtos que comemos incluem os nossos próprios ovos, iogurte, leite, carne e pão”, explica ele. “O ar à nossa volta é limpo, e a paisagem não poderia ser mais bela.”

Para esta comunidade de cerca de 3.000 beduínos, este modo de vida é sagrado. “Não queremos viver nas cidades, porque amamos a forma de viver que os nossos antepassados têm tido durante milhares de anos, geração após geração”, acrescenta Eid Jahalin. “A nossa vida é simples e o nosso sustento depende principalmente do nosso gado, que vive connosco no meio da natureza.”

No entanto, esta sacralidade tem sido ameaçada dia após dia por ataques, expulsões e, talvez o pior de tudo, pelo que parece ser a indiferença da grande maioria do mundo.

Eid, o porta-voz da comunidade, diz que os beduínos não vão desistir da sua busca por uma vida digna e pacífica. Apesar de todos os dias observar violações ou ataques de colonos a ovelhas ou pessoas.

“Sou o líder do conselho local, e estou impedido de conseguir um emprego em Israel porque relato o que está a acontecer, e também ajudei a construir uma escola para as crianças”, explica. “Acredito que a educação dos nossos filhos é muito importante, porque as crianças só podem ter um bom futuro se forem educadas.”

Eid acredita que a educação é um direito humano; e também que todas as religiões valorizam a educação. “Sou uma pessoa que quer promover a educação na nossa comunidade e melhorar as condições de vida”, afirma.

Todos os dias Jahalin vai à escola, frequentada por 200 crianças, para perguntar à directora se precisa de ajuda e para se certificar de que as crianças e os 22 professores têm tudo o que precisam.

Além disso, ele analisa os pedidos e necessidades dos membros da sua comunidade: problemas relacionados com seguros de saúde, água e electricidade. “Também recebo grupos de solidariedade, e acompanho as pessoas, com advogados, contra ameaças de demolição e despejo, especialmente as que são dirigidas contra a escola, que enfrenta uma ordem de demolição.”

Crianças sofrem as piores consequências

Para os beduínos, “ocupação” não é um termo político que aparece num documento ou nas notícias; significa, antes, dificuldade e sofrimento para as pessoas e, com toda a probabilidade, especialmente para as crianças.

Estas passam as suas noites aterrorizadas pelo ruído dos drones utilizados pelos colonos e pelas forças de segurança para monitorizar a comunidade beduína. “À noite, enquanto dormimos, eles projectam-nos luzes dos drones, e isso aterroriza as crianças, já para não falar do barulho”, diz Eid Jahalin.

As povoações também desviam os esgotos, que inundam a área e constituem um grande problema durante o Verão, quando as temperaturas sobem. “Aparecem muitos insectos, todos os tipos de insectos, que causam doenças entre as crianças”, afirma Eid.

“Em 2019, uma organização norte-americana doou material lúdico para as crianças, que incluía escorregas e baloiços”, acrescenta. “As autoridades israelitas obrigaram-me a demolir o parque infantil ou então seriam elas próprias a demoli-lo e a impor-me sanções”, conta. “Em 2014, os italianos deram-nos brinquedos para as crianças, e quando as autoridades israelitas os viram através de drones, vieram ao local e confiscaram os brinquedos”, acrescenta.

Quando os seus antepassados chegaram a esta terra, ela tinha muitos poços de água e nascentes naturais. “Mas as forças de ocupação intervieram e desviaram as águas”, explica Eid. “A construção de povoações na área começou em 1982, e depois iniciou-se o processo de empobrecimento da população.”

O número de ovelhas está a diminuir devido a restrições no uso da terra, falta de água e ameaças dos colonos e das forças de segurança. “Estamos agora confinados a uma pequena área do território”, diz o porta-voz beduíno. “Foram estabelecidos pastores israelitas na área, houve sítios turísticos que foram criados à nossa custa e é-nos negado o acesso à terra.”

Além disso, alega Eid, os membros da comunidade não estão autorizados a entrar em Jerusalém, onde costumavam comercializar os seus produtos. Se estacionarem os seus carros na estrada principal ou mesmo se ficarem na berma da estrada, são multados pela polícia.

“Desde 2009, têm sido negadas autorizações de trabalho em Israel a todos os membros da nossa comunidade.”

Eid Jahalin pede orações para que a comunidade beduína recupere a sua independência para que ele e outros possam viver em paz na sua terra. De fora de Jerusalém, os beduínos podem ouvir muezins e sinos de igreja. “Mas não podemos responder a estas chamadas”, explica. “Nem todos os palestinianos podem visitar estes lugares de oração por causa do muro de separação.”

 

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