[O flagelo que não acaba (i)]

A origem distante e próxima dos abusos na Igreja

| 8 Nov 2022

Começo com este uma série de artigos sob o título genérico de “O flagelo que não acaba”, dedicados à realidade dos abusos na Igreja. Abusos sem especificações, porque acontecem de diferentes formas, e todos têm uma origem comum: o abuso de poder.

Infância. Abusos. Série "Childhood Fracture" (V), de Allen Vandever

 “A Igreja, que nasceu laica e sinodal, perdeu essas duas condições em momentos diferentes. A sua condição laical terminou muito depressa, quando a partir do final do primeiro século e durante os dois séculos seguintes, o laicado foi afastado de qualquer protagonismo ao sacralizarem-se as figuras do presbítero e do bispo. Gravura: Infância. Abusos. Série “Childhood Fracture” (V), de Allen Vandever. Reproduzido de Wikimedia Commons

 

Quando na vida vem à tona um escândalo, a reação imediata é procurar os culpados e tentar averiguar a sua origem. No caso que nos ocupa e que diz respeito aos abusos na Igreja, determinámos a procura da origem procurando as possíveis primeiras datas, das possíveis primeiras denúncias, das possíveis primeiras vítimas. Uma pesquisa complicada se começarmos a colocar a palavra “possível” tantas vezes.

Na realidade, a crise do abuso de poder começou há muito tempo, séculos atrás. E não estou a exagerar. A Igreja, que nasceu laica e sinodal, perdeu essas duas condições em momentos diferentes. A sua condição laical terminou muito depressa, quando a partir do final do primeiro século e durante os dois séculos seguintes, o laicado foi afastado de qualquer protagonismo ao sacralizarem-se as figuras do presbítero e do bispo.

A condição sinodal levou mais tempo para desaparecer. Foi na Baixa Idade Média, depois de estar presente durante mais de mil anos, quando a sinodalidade desapareceu esmagada por um clericalismo imposto a velocidade galopante e, aí, começou a tomar forma o flagelo que ainda hoje estamos a viver. Além disso, o clericalismo tem muitos companheiros de viagem. Na verdade, nenhum deles mais importante que o outro, pois todos ajudam a aprofundar o problema. A partir da instalação do clericalismo, apareceu o abuso de poder. Basta examinar o percurso da história da Igreja.

Os séculos foram passando e o clericalismo foi-se enquistando na Igreja. Uma das suas consequências foi a separação, até nos desconhecermos uns dos outros, os que formamos a Igreja. Uma espécie de cultura submersa apropriou-se do povo de Deus. Éramos, e em boa medida ainda somos, seres que vivem em compartimentos estanques.

Essa separação consentiu que ocorressem espaços de escuridão que ocultavam e propiciavam comportamentos aberrantes. As personalidades narcisistas triunfavam. Porque os abusadores correspondem a uma personalidade narcisista até ao extremo que, ainda por cima, se disfarça de santidade. Essa forma de comportamento por parte de um clero que ninguém controlava e que agia com prepotência foi ensinada, talvez até sem querer, de geração em geração em seminários sob a forma de impunidade.

Não fazia falta um manual, nem apontamentos nem bibliografia. O testemunho, também para o mal, era e é o melhor exemplo. Assim, de forma inconsciente, os seminaristas empaparam-se e aprenderam formas, comportamentos e astúcias que moldaram a personalidade de alguns deles à imagem e semelhança dos seus “deformadores”.

Assumiram durante anos e anos que, sendo sacerdotes, eram intocáveis e, portanto, impunes. Eram homens sagrados segundo uma concepção deformada do sagrado, manipulada até a náusea, sem ser conscientes de que o clericalismo é a perversão de uma vocação chamada a servir os mais fracos, pobres, necessitados, inocentes. No entanto, não se importaram com isso. Consideraram-se como uma casta e viveram como tal.

Chegou um momento em que era impossível continuar a tapar os escândalos. O que começava a ser um murmúrio dentro de muitos ambientes eclesiais, foi destapado com força no único lugar que as vítimas encontraram para serem ouvidas: os meios de comunicação. A partir daí começou a levantar-se o tapete – e como negar o evidente! Pois sim: fizeram-no, negaram (e negam) tudo e transformam-no num ataque à Igreja. Não a eles diretamente (clero e hierarquia), mas à Igreja, para criar um caos maior.

Também chegou a atitude clericalista para tentar evitar o inevitável. E começaram a ouvir-se explicações de membros do clero que diziam claramente que não tinham de justificar-se; que o mundo não os entendia; que tinham renunciado a muita coisa e, portanto, podiam dizer e fazer aquilo que quisessem; que eram os representantes de Cristo e da sua Igreja e, portanto, mereciam respeito; que os ataques dos meios de comunicação eram o sinal inequívoco de que seguiam o Crucificado e se abraçavam à sua cruz… Sem se aperceberem, ou talvez sim, que o Crucificado foi a Vítima por excelência.

E apareceram os bispos negando tudo, negando até os encobrimentos que se podiam demonstrar. Negando, negando, negando… E insistindo que tudo isto é uma mentira descarada e manipulação, porque os inimigos da Igreja há muito tempo que estão a tramar um ataque bem orquestrado contra ela, contra os cristãos. A culpa é sempre dos outros.

Quando chegará o momento de assumir a responsabilidade pelo sucedido? Para quando assumir a responsabilidade objetiva da instituição? Para quando não voltar a revitimizar as vítimas uma e outra vez?

Perante tal reação está o estupor de muitos membros da Igreja, inclusive parte do clero e, sobretudo, o sentimento de abandono das vítimas.

Veremos isso mais adiante.

 

Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a comissão metodológica do Sínodo dos Bispos católicos. Este texto é publicado por cedência da autora e da revista espanhola Vida Nueva ao 7MARGENS. Tradução de Júlio Martin.

 

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