[Segunda leitura]

A outra “Brigada do Reumático”

| 26 Jun 21

Xico Santo Amaro. Brigada do Reumático.

“Nós arranjávamos tudo de graça e recebíamos tantos beijos e amizade que enchia o coração.” Foto © Bela Coutinho / Diário de Coimbra

 

Comenta ele, o Xico Santo Amaro:
“Nós arranjávamos tudo de graça e recebíamos tantos beijos e amizade que enchia o coração.”

Que maneira bonita de dizer.

E quem é, e o que faz, o Xico Santo Amaro? Ele é um dos elementos da “Brigada do Reumático”. Isso mesmo, “Brigada do Reumático”. Mas não aquela, a outra, a dos generais caquéticos que, em vésperas do 25 de Abril de 1974, se calhar já cheirando o esturro que por aí vinha, decidiram ir prestar homenagem à ditadura e a Marcelo Caetano, decerto por serviços prestados. Não, esta “Brigada do Reumático” é outra, muito mais interessante, muito mais pujante — e, por acaso, até presta serviços. Se presta. Lá diz o Xico Santo Amaro, “nós arranjávamos tudo de graça e recebíamos tantos beijos e amizade que enchia o coração”.

Começaram por ser 10 homens. Da freguesia de Buarcos, ali para as bandas da Figueira da Foz. Agora já são menos, mas continuam juntos na lide. Todos já bem entrados na idade, na casa dos 80 anos. Mas ainda cheios de força e de vontade.

A história arrancou há um bom par de anos, quando foi eleito para presidente da Junta um senhor chamado José Esteves. E este grupo, com gente que tinha já deixado de trabalhar, mas achava que “não ter que fazer é uma chatice”, resolveu ir oferecer-se ao autarca para tratar de pequenas obras e arranjos na freguesia. Onde fosse preciso. De graça. Em regime de voluntariado. Era o Xico Santo Amaro, era o Xico Moura, era o Fernando Augusto, um ror deles. E lá meteram mãos à obra. E resolveram batizar-se com boa disposição e sentido de humor: passaram a ser a “Brigada do Reumático”.

Conta o Diário de Coimbra (16-6-2021), em prosa assinada por Bela Coutinho, que o grupo, ao longo destes anos todos, trabalhou milhares de horas para a comunidade. Ofereceu-as. Deu-as. Às vezes até pagando do seu bolso uns pregos que faltavam aqui ou uma lâmpada que fundira ali. E recebendo, em paga, “tantos beijos e amizade que enchia o coração”.

Fizeram arranjos em escolas, em edifícios públicos, em casas particulares de gente sem posses, sei lá, onde fosse preciso. Numa escola, por exemplo, até já lhes chamavam “os nossos anjos”, tanta foi a vez que deram uma mão no que era preciso. E que valiam as obras? Lá volta o Xico Santo Amaro: “As obras valem zero. O que fica, para mim, foi a gratidão”. E outro Xico, o Xico Moura: “É melhor fazermos isto do que estar no sofá a dormir”. E o Fernando Augusto: “Não ter que fazer é uma chatice. Isto é uma espécie de bálsamo.”

Isto deu uma ajuda grande à gente de Buarcos, claro, e até permitiu fazer umas poupanças interessantes. Contam eles, por exemplo, que havia uma escola com uns portões que há vários anos nem sequer abriam, aguardando por uma reparação que nunca mais vinha. O orçamento da Câmara para o arranjo, contam, era de 2.400 euros. “E nós com 90 euros fizemos a ‘festa’ e pusemos os portões a trabalhar”. Mais nada. Qual reumático, qual carapuça.

Parece que agora vai acabar a Brigada, porque o autarca já não se recandidata e isto era uma coisa feita com ele. Por estes dias, lá estão os homens a recuperar e a embelezar o velho poço da terra, aquele onde tanta gente se habituou a ir à água. Será a última obra? Lê-se a história no jornal e fica-se com a sensação de que ninguém gostaria de pôr fim a isto. A ver vamos, eleições e tal. Mas gente com este querer fazer não parece ser de desistir à primeira nem à segunda. Até porque “não fazer nada é uma chatice”. E é melhor andar nisto do que “estar no sofá a dormir”. Mesmo que seja a troco de nada. De nada?… Não, nada disso. A troco de “tantos beijos e amizade que enchem o coração”.

 

(Em tempo:  Todas as informações e citações foram retiradas do artigo “Brigada do Reumático: 12 anos de voluntariado, da autoria de Bela Coutinho, publicado no Diário de Coimbra de 16 de junho de 2021 – versão integral só na edição em papel).

 

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