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Pormenor da capa do disco Easter Lily. Anton Corbijn fotografou este lírio (trumpet lily), em 2026, para a capa do disco. Foto: Direitos reservados/Promoção.
Pormenor da capa do disco Easter Lily. Anton Corbijn fotografou este lírio (trumpet lily), em 2026, para a capa do disco. Foto: Direitos reservados/promoção.

Novo disco de surpresa

A Páscoa cumpriu-se ao som dos U2

| 19/04/2026

A Quaresma cumpriu-se ao som dos U2. Não é heresia: depois dos irlandeses nos surpreenderem, na Quarta-Feira de Cinzas, com The Days of Ash, um EP engatilhado no rock e a disparar sobre estes tempos com fúria e fogo, a Sexta-Feira Santa cumpriu-se com a edição de Easter Lily, outro EP revelado de surpresa com seis novos temas, entre a fé, a esperança e o amor.

Para Bono, o vocalista da banda irlandesa, este é o tempo de luta: “Continuamos a olhar para o rock’n’roll como ato de resistência contra toda esta desgraça [que vemos] nos nossos pequenos ecrãs. Estes são, sem dúvida, ‘anos de solidão’ para muitos de nós a observar o caos lá fora no mundo.”

Este tempo no deserto, como diz Bono, é também tempo de fazer muitas perguntas: “É um tempo que faz a nossa banda cavar mais fundo nas nossas vidas para encontrar uma fonte de canções que tentem corresponder ao momento… Com Easter Lily acabámos por fazer perguntas muito pessoais, como: As nossas próprias relações resistem a estes tempos desafiantes? Até que ponto se luta pela amizade? A nossa fé consegue sobreviver à deformação de significado que os algoritmos tanto gostam de premiar? Toda a religião é lixo e continua a separar-nos…? Ou há respostas a encontrar nas suas fissuras? Existem cerimónias, rituais, danças que poderemos estar a perder nas nossas vidas?” E está identificado este tempo: “Do rito da Primavera à Páscoa e à sua promessa de renascimento e renovação…”

Easter Lily foi editado de surpresa na Sexta-feira Santa, depois de The Days of Ash ser lançado também sem anúncio na Quarta-feira de Cinzas. Foto: Direitos reservados/promoção. U2 disco

Easter Lily foi editado de surpresa na Sexta-feira Santa, depois de The Days of Ash ser lançado também sem anúncio na Quarta-feira de Cinzas. Foto: Direitos reservados/promoção.

O lírio da paz (ou da Páscoa, Lilium longiflorum) que dá nome ao disco de originais – e está representado na capa numa belíssima fotografia do colaborador de longa data, Anton Corbijn – aponta para uma dimensão interior, de cada um consigo, mais do que a olhar para fora. No entanto, este Lile na Cásca, como se escreve em irlandês, é também um símbolo usado na Páscoa pelos republicanos irlandeses como homenagem aos seus companheiros combatentes que morreram durante a Revolta da Páscoa de 1916 ou em conflitos posteriores que conduziram à independência da Irlanda. A flor é usada durante a Páscoa como símbolo de memória e da pureza de Cristo.

 

Pregar a coexistência entre religiões

É um álbum que respira fé por todos os poros, mas sempre de um ponto de vista muito crítico, marca de água na história de Bono, The Edge, Larry Mullen Jr. e Adam Clayton. O tema que fecha o álbum, Coexist (I Will Bless The Lord At All Times?), é mais um capítulo em que os U2 não desistem de pregar uma coexistência religiosa pacífica, recusando que as orações dos que fazem a guerra sejam ouvidas por Deus, Alá ou Javé.

a capa do disco Easter Lily, só disponível em versão digital. U2

A capa do disco Easter Lily, só disponível em versão digital. Foto: Direitos reservados.

Este tema – provavelmente o melhor deste disco e um dos mais desafiantes no cânone dos irlandeses – é ilustrado por paisagens sonoras de Brian Eno, outro colaborador de longa data, remetendo para alguns dos exercícios ensaiados pelos Passengers, o projeto que juntou os U2 e Eno em 1995 no álbum Original Soundtracks 1. Edge diz mesmo que é dos temas mais entusiasmantes que fizeram nos últimos anos.

Trata-se de uma canção de embalar para pais de crianças vítimas da guerra, avisam os U2. “A coexistência é a ideia central desta letra. O facto de a religião se ter tornado um motivo para entrar em guerra é, para nós, uma loucura. É fácil cair no desespero – há tanto a temer, sobretudo porque, ao sucumbirmos à guerra, não estamos a fazer o suficiente para combater ameaças verdadeiramente existenciais, como a emergência climática.” Edge completa a ideia: “Coexistir pode parecer uma ideia ridícula agora. O facto de que é torna ainda mais necessária e vital. Como dizem, a noite é mais escura pouco antes do amanhecer.”

Já Brian Eno explicou que Coexist “teve um efeito poderoso” nele, quando Bono lhe enviou a “versão completa desta música”, quando estava a ler uma evidência “abominável” do “avanço global do fascismo”, “desta vez em Israel”. “Eu estava com raiva e chateado com as notícias, mas emocionado com esta música de gratidão, que me lembrou que o foco no que está certo é tão essencial como o oposto – as duas maneiras de mudar o mundo são: acabe com algo mau ou comece algo bom. A música lembrou-me que elas andam de mãos dadas. E embora eu não agradeça ao ‘Senhor’, senti que estava a agradecer por esta vida e por existir”, conclui o compositor e produtor.

 

A amizade em tempos de isolamentos

É com uma dedicatória a um amigo que os U2 abrem o EP, com Song for Hal, um “lamento sobre o confinamento”, que The Edge começou a compor nos tempos da pandemia, quando muitos morreram sozinhos. Hal Willner era um produtor musical, amigo da banda, que teria feito 70 anos na segunda-feira de Páscoa e morreu há cerca de seis anos de complicações da covid-19. O guitarrista The Edge assume as vezes de vocalista principal deste lament, “uma canção de desafio e de esperança, que resiste à ideia de que podemos estar sozinhos no tempo e no espaço”.

No alinhamento, In a Life é a canção que se segue, sobre a amizade (e não admira que o vídeo colecione fotografias de Bono, Edge, Larry e Adam muito novos, em ambientes caseiros, escolares ou em concertos nos primeiros anos). Os U2 dizem que é “absurdo” falar “sobre fé e amizade em tempos tão niilistas”. Não se arrependem, garantem: “Isto é emocionalmente direto, o que para alguns não vai ser nada fixe. Mas é precisamente isso que importa… confrontar e desafiar aquela indiferença que se insinua nas relações.”

Já a terceira canção, Scars invoca influências de Siouxsie & The Banshees e do pós-punk, como explica The Edge. “Não queríamos que Scars fosse de forma alguma sentimental, por isso, o arranjo é bastante difícil, lembrando a música que achamos inspiradora pela primeira vez no início dos anos 1980: a era pós-punk.” Adam Clayton (que se diz entusiasmado com os novaiorquinos Geese) e Larry Mullen Jr. (que está a tocar bateria de um modo diferente, menos tenso, como o próprio reconhece) ajudaram a banda a seguir estes caminhos. “É por isso que adoro estar numa banda. Nunca teria imaginado esta maneira de tocar a música”, confessa Edge.

Resurrection Song e Easter Parade são os temas que mais apontam para a Páscoa celebrada neste disco. A primeira é uma canção de viagem, dizem os U2, com “um certo tom irónico”, traduzindo-se num “ato de rebeldia contra o cinismo, um cinismo em relação à religião que pode ser compreensível”. No caso da segunda, a canção apresenta-se como “devocional”, “uma celebração da nova vida, do renascimento e da ressurreição”. Para os U2, “a fé tem de envolver a dúvida. Para nós, moldados pela tradição cristã, tudo isto está ligado à Páscoa, ao mistério da morte e da ressurreição”, explicam-se. É esta devoção que leva Easter Parade a mergulhar numa versão pop de um Kyrie eleison. É ouvir, para acreditar.

Não é de agora que a fé ajuda a explicar opções líricas e musicais dos U2, defendem-se. “Já explorámos estas ideias antes — antigamente com 40 [1983] ou com o Yahweh [2002]. É uma tradição rica que alguns dos nossos artistas favoritos exploraram – Johnny Cash, Bob Marley, Patti Smith – mas, ainda assim, ao falar sobre a natureza espiritual de canções como esta, é fácil cair em clichés.”

Não há clichés. O disco devolve-nos um som fresco de uns U2 que continuam a prometer, para o outono, um “álbum barulhento, caótico, ‘desproporcionadamente colorido’, para tocar ao vivo! É aí que os U2 vivem”.

Patti Smith é também inspiração para este Easter Lily, reconhece Bono. “O álbum Easter de Patti Smith deu-me tanta esperança quando foi lançado em 1978. Eu ainda não tinha 18 anos. O título é uma homenagem a ela. Tentaremos fanfarras e espetáculo noutro momento para lembrar ao resto do mundo que existimos, mas, entretanto… isto é entre vocês e nós.” Ou como se pergunta The Edge: “Acho que a questão é: porquê agora estas músicas de transcendência? O nosso palpite é que o público está tão faminto quanto nós por algo a que se agarrar nestes tempos difíceis.” Lá está, estas canções são deste mundo.

 

Louis le Brocquy, Riverrun. Procession with Lilies (1984)

Louis le Brocquy, Riverrun. Procession with Lilies (1984): este pintor irlandês criou uma série de pinturas com o título Procession with Lilies — a partir de uma fotografia que viu num jornal irlandês da Páscoa de 1939, quando vivia em França, onde se veem crianças numa procissão com lírios. Segundo Adam Clayton, dos U2, que escreve um texto sobre o autor e o quadro na revista Propaganda (que acompanha o disco), “a pintura reflete aspetos da vida rural irlandesa e rituais religiosos, particularmente das procissões católicas. Le Brocquy transforma a cena em algo atemporal e simbólico”. E descreve: “As suas figuras são alongadas e estilizadas, não têm características faciais detalhadas e estão agrupadas, fundindo-se umas com as outras. Os lírios brancos destacam-se contra os tons suaves da pintura.” Clayton destaca ainda que “a pintura também retrata uma dualidade de celebração e luto”. E continua: “Assim, reflete sobre um sentido de comunidade sobre a individualidade e a ideia de uma experiência humana compartilhada. É por essas razões que, quando Bono estava a explorar os temas do EP Easter Lily, esta obra desempenhou um papel significativo na inspiração da expressão de que o que precisamos é procurar a comunidade enquanto enfrentamos um mundo incerto. Em última análise, [a forma] como reagimos depende de nós. Podemos escolher ficar sobrecarregados pelo caos ou escolher celebrar em comunidade a liberdade que possuímos, embora limitada em alguns casos.”

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