A Páscoa em Moçambique, um ano antes do ciclone – e como renasce a esperança

| 20 Abr 19 | Destaques, Newsletter, Sete Partidas, Últimas

Memórias de há um ano, entre a Beira e Nampula, e como renasce a esperança de um povo, após a destruição provocada pelo Idai.

O padre João Dimba, conselheiro geral dos Missionários Espiritanos, distribuindo ajuda humanitária às populações da paróquia da Natividade. Foto: Direitos Reservados

Um padre que passou de refugiado a conselheiro geral pode ser a imagem da paixão e morte que atravessou a Beira e que mostra caminhos de Páscoa a abrir-se. Na região de Moçambique destruída há um mês pelo ciclone Idai, a onda de solidariedade está a ultrapassar todas as expectativas e a esperança está a ganhar, outra vez, os corações das populações arrasadas por esta catástrofe. Nesta Quinta-Feira Santa, em Roma, pude ver fotos do padre João Dimba, conselheiro geral dos Missionários Espiritanos, ido também daqui: nas imagens, ele distribuía ajuda humanitária às populações da ainda recém-criada paróquia da Natividade.

O padre Dimba deve, ele mesmo, recordar-se dos seus tempos de infância quando, durante a cruel guerra civil moçambicana, teve de fugir com os pais para o Malawi, onde viveu em campos de refugiados, acabando por se integrar neste país vizinho. Lá conheceu os Missionários do Espírito Santo e hoje é um dos responsáveis máximos da congregação, trabalhando aqui no conselho geral, em Roma. Optou por viver a Semana Santa e a Páscoa com o povo sofredor de Moçambique sua terra natal.

 

Quinta-Feira Santa alagada, Via-Sacra poeirenta

Há um ano, aterrei na Beira, Moçambique, no sábado de Ramos. Não chovia, o que permitiu uma belíssima procissão e celebração da eucaristia de Domingo de Ramos na Natividade, um dos bairros periféricos que nasceu com a fuga da guerra, com casas pobres ‘plantadas’ nos arrozais do tempo colonial e que era agora uma nova paróquia. Escusado será dizer que bastam umas chuvadas para que tudo fique inundado. Mas não choveu naqueles dias e a celebração foi uma festa enorme, a que tive a honra de presidir, a convite do padre Nicholas, espiritano zambiano que dirige o novo Seminário Espiritano de Moçambique e é pároco desta nova comunidade.

Vieram buscar-me na segunda feira e fui até à Missão de Inhazonia, 160 kms depois do Chimoio, já na fronteira com o Zimbabwe. Ali está uma comunidade Espiritana numa área por onde a guerra civil passou e deixou marcas que o tempo não consegue apagar. A área da missão é enorme, com comunidades a mais de 200 quilómetros, que têm de ser feitos em terra batida. Dali fui até ao Chimoio para a Terça-Feira Santa, dia da Missa Crismal, com a consequente reunião de todos os padres da diocese á volta do seu bispo, o jovem D. João Carlos. E regressei à Beira para ali começar o meu Tríduo Pascal.

Chovera entretanto e o acesso à Igreja da Natividade, ali nas áreas pantanosas, tornou-se impossível a pé enxuto. Mas lá fomos nós para a celebração de Quinta-Feira Santa, com uma belíssima cerimónia do Lava-Pés. A maioria das pessoas – há que dizê-lo com algum humor – chegou ali com os pés bem lavados: para entrar na igreja, havia alguns centímetros de água no caminho de terra batida. Eu fui levado de jipe até à porta da sacristia e escapei a “lavar os pés” com aquela lama! Mas nem a pobreza nem o mau tempo impediram as pessoas de participar numa celebração que durou horas a cantar, a dançar e a meditar no silêncio.

A Sexta-Feira Santa acordou-me cedo, pois fui levado à catedral da Beira para a oração da manhã com o bispo e uma multidão de povo. Dali segui para Nampula, onde presidi a uma Via-Sacra poeirenta pelos caminhos da paróquia de S. João de Deus, nas periferias da cidade. Seguir-se-ia uma longuíssima celebração da Paixão de Cristo, com mais de uma hora para que o muito povo pudesse adorar a Cruz.

Sábado Santo e Domingo de Páscoa seriam vividos em Itoculo, no interior pobre da diocese de Nacala, com celebrações muito vivas onde se realizaram dezenas de baptismos de jovens e adultos, a provar que as comunidades católicas estão em franco crescimento.

Isto foi no ano passado, longe de imaginar que um ano depois, pela fúria do Idai, a Beira seria destruída.

 

Do terrível ciclone ao risco pelos outros

As primeiras notícias foram de arrepiar. As imagens que os media divulgaram faziam doer o coração e eu tentava, a cada momento, rever as imagens e olhar os rostos daquele povo que tão bem me acolhera e estava tão feliz – sobretudo as crianças e os jovens que insistiram para fazer fotografias comigo.

Um ano depois, a intempérie não poupou esta pobre gente. Ninguém se lembra de nada parecido na história do país. Pessoas morreram, muitíssimas estão desalojadas e com fome.

O padre Albert Wulfu, missionário espiritano na Beira, partilhou o drama que se viveu na região nos dias 14 e 15 de março (e que se continua a viver):

“Foi uma noite barulhenta, tensa e longa. O vento começou por volta das 9 horas de quinta-feira, 14 de março. Quando o vento aumentou, pelas 19 horas, já estava tudo na escuridão e sem meios de comunicação. As pessoas cujas casas começaram a desabar correram para um local seguro, algumas das quais com ferimentos. À meia-noite, o tempo acalmou, mas por pouco tempo. Ouviam-se os gritos daqueles que pensavam que era o fim. Pela uma hora da manhã, o vento atingiu o máximo, com velocidade de 220 km/h, de acordo com os meteorologistas. Neste ponto, casas foram abaladas, árvores caíram e vidros quebraram, as telhas voaram e edifícios ruíram. Na minha vida, foi a primeira vez que tive uma catástrofe natural de tal magnitude, e foi de fato desastrosa’.”

Dias depois, o padre Alberto Tchindemba, responsável máximo dos Espiritanos em Moçambique, a residir em Nampula, conseguiu chegar à Beira com apoio financeiro. Também ele descrevia a tragédia:

O padre Alberto Tchindemba, responsável máximo dos Espiritanos em Moçambique, com um grupo de desalojados do ciclone Idai. Foto: Direitos Reservados

 

Percorrendo a cidade e o bairro onde se encontra a nossa Paróquia, vi casas completamente arrasadas pelo ciclone… árvores caídas, postes de eletricidade no chão, movimento de pessoas a apanhar metades de chapas de zinco para cobrir as suas casas, paredes caídas. No bairro onde está a nossa Paróquia vi ainda situações tristes e dramáticas de gente que precisa com urgência de alimentos e de um lugar digno para reclinar a cabeça. A nossa Igreja Paroquial não foi poupada. Muitas chapas que cobriam a Igreja foram levadas pela fúria do ciclone’.”

Mas, no meio da tragédia, o padre Alberto descrevia igualmente como renascia a esperança:

“Os colegas padres estão vivos e passam horas a fio a identificar e alistar as pessoas que precisam urgentemente de assistência. Eles levaram-me a um centro de acolhimento de pessoas afetadas pelo ciclone que fica na Escola Primária de Inhamizua, perto da nossa casa. Aqui tive a oportunidade de ver as pessoas que ficaram sem tecto e sem pão, completamente entregues ao cuidado das ONGs [Organizações Não-Governamentais]e de algumas pessoas singulares que trazem alguma coisa para ajudar os mais necessitados’.”

Feliz Páscoa!

(Na foto de abertura: o padre Tony Neves com um grupo de crianças e jovens, no Domingo de Ramos de 2018, em Moçambique; Tony Neves é padre católico e responsável do Departamento da Justiça e Paz dos Missionários do Espírito Santo (Espiritanos), de cuja congregação é membro.)

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