AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

A passadeira da Rua das Pretas

| 20/07/2023

Rua das Pretas, Lisboa, foto enviada por Margarida Cordo

Rua das Pretas, em Lisboa. “Não existem peões e condutores, já que todos, em algum momento, andamos a pé. Temos é de saber respeitar as regras implícitas.” Foto: Direitos reservados.

 

Estranho título o deste artigo. Na verdade, a Rua das Pretas é uma via bem pequena da cidade de Lisboa, mas quase toda a gente sabe onde fica. Talvez tenha tido grande história com lojas típicas ou não, mas, atualmente, não tem nada para além de uma farmácia, um comércio de tecnologia, um minimercado e dois pequenos restaurantes. O resto está tudo fechado, devoluto ou para obras.

A Rua das Pretas tem duas passagens de peões, uma no início, junto à Avenida da Liberdade, e outra no extremo oposto, a confinar com a Rua de S. José.

Todos os dias ali passo. De manhã a caminho do trabalho. À noite, de regresso a casa. Bem cedo há muito poucos peões. Ao anoitecer, entre turistas e nacionais, é toda uma pequena multidão a querer atravessar para o outro lado. A acrescentar a isto, o cansaço não ajuda a que sejamos tolerantes, pelo que, ao final do dia, algumas das coisas que adiante comentarei custam mais a suportar.

Justamente no fim-de-semana em que escrevi este texto, saiu no jornal Expresso um artigo bem interessante e duro, escrito por Raquel Albuquerque, com o título “A cada três dias um peão morre atropelado”. O texto referia que mais de 40% dos atropelamentos são na passadeira e que o risco de morrer atropelado a 50 Km/h chega aos 60%. Portugal é o país da Europa ocidental com mais mortes de peões. E também que, ao contrário de Portugal, Espanha alterou o Código da Estrada a pedido dos autarcas, reduzindo o limite para 30 Km/h em certas vias.

Adiante no texto pode, ainda, ler-se que foi dentro das cidades que ocorreu a grande maioria (89%) dos atropelamentos dos últimos cinco anos e 43% dos peões estavam na passadeira. A percentagem sobe para mais de metade se juntarmos os que estavam no passeio ou na berma. “Para uma pessoa idosa, a probabilidade de morte a 30 Km/h é inferior a 10%, mas a 50 Km/h é de 60% e a 80 Km/h é de 100%.”

Ou seja, e em suma, é preciso reduzir a velocidade e aumentar o civismo dos condutores.

Estamos a preparar esse momento tão importante que é a realização da Jornada Mundial da Juventude. Ironicamente temos um país envelhecido, cada vez mais envelhecido, mas seja qual for a idade, este acontecimento não é indiferente para os que somos católicos e, eu diria, para todos. Temos de transformar a nossa cidade num bom lugar para existir; num verdadeiro local de encontro, num sítio de esperança para todas as gerações. Não existem peões e condutores, já que todos, em algum momento, andamos a pé. Temos é de saber respeitar as regras implícitas. Como alguém disse, “ética é a obediência ao que não é obrigatório”.

Queremos ser sítio de hospitalidade e de bom acolhimento e esta intenção passa por tudo. Até pelo trânsito. Desejamos que quem cá vem reunir-se com o Papa Francisco leve uma memória inesquecível de bem sentir-se.

Na verdade, não estamos num país em que os semáforos não contam. Somos da Europa e é nela que nos encontramos.

Vou voltar à passadeira da Rua das Pretas. No fim do dia, com o cansaço de horas de trabalho, com o semáforo encarnado para os peões, eles atravessam-se diante dos carros. Umas vezes a correr, outras a andar como se não existisse um sinal e outras, ainda, a olharem para os telemóveis, como se neles encontrassem o que precisam naquele exato momento. Isto faz perder a paciência e dá mesmo vontade de reagir de forma impulsiva.

Obviamente que as distrações existem e qualquer um de nós, esteja em que condição estiver, é sujeito a elas num ou noutro momento, apesar de sabermos que temos de as evitar. Portanto, quanto a estas, nada a dizer. É algo humano. O que não é aceitável nem humano é a displicência com que tudo se vive até no atravessar das ruas. Não pode ficar-se à espera de que mudem os limites de velocidade. Cada um de nós precisa de fazer a sua parte, em função da condição em que se encontrar, peão ou condutor.

Não vale atravessar as várias passadeiras como a da Rua das Pretas com o sinal encarnado. Não vale acelerar nele diante de um peão distraído.

Mudar o mundo é mudar a nossa conduta sem ficar à espera que mude primeiro a lei.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt

 

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado

Diocese de Portalegre – Castelo Branco

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado novidade

No fim do processo, “nem um centímetro” da Diocese de Portalegre – Castelo Branco deve “ficar sem ser coberto por um conselho pastoral paroquial” (ou interparoquial se necessário e conveniente). Foi o desafio do bispo Pedro Fernandes à diocese de que assumiu a tarefa de pastor ainda não há um ano. Esta é talvez a melhor síntese do que foi a “Assembleia Diocesana”, no dia 6 de outubro, em Ponte de Sor, a que várias centenas de pessoas responderam participando de um modo ativo.

Guerras e mudanças de regime

[Entre Margens]

Guerras e mudanças de regime novidade

Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.