À hora a que este texto está a acabar de ser escrito – às 17h18 de quinta-feira, dia 8 – ainda não foi divulgado quem receberá, este ano, o Prémio Nobel da Paz. O leitor mais tardio, todavia, já saberá se a distinção foi, além de merecidamente atribuída a alguma pessoa ou organização, útil para chamar a atenção do mundo para algum conflito ou guerra que permanece por resolver, apesar dos esforços do laureado.
Concedido até agora a 112 pessoas e a 28 organizações (a duas mais do que uma vez: a Cruz Vermelha recebeu-o três vezes e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, duas vezes), o Nobel da Paz, tantas vezes controverso, pode ser assaz injusto, muitas vezes mais por quem exclui do que por quem premeia. O caso mais deplorável de omissão impediu que o Mahatma Gandhi figurasse entre os nobelizados. Foi ignorado apesar de ter sido nomeado cinco vezes.
Sabe-se oficialmente que a lista de candidatos incluiu este ano 287 nomes. Os estatutos do Nobel impõem que permaneçam secretos durante 50 anos, a não ser que os divulguem – e isso é permitido – os próprios proponentes externos, que podem ser, por exemplo, os anteriores galardoados, parlamentares e académicos. Entre as propostas que se sabe que foram apresentadas, está Donald Trump. Os seus serventuários parecem demonstrar, assim, que não estão à altura de distinguir entre um engenheiro do caos e um promotor da paz.
Mas há um conjunto de nomes de personalidades e de organizações que circulam mais insistentemente que seriam justos merecedores do Nobel da Paz. É o caso do Papa Leão XIV, infatigável a propor alternativas ao tribalismo belicista que abunda em todos os cantos do planeta; do Tribunal Internacional de Justiça e do Tribunal Penal Internacional, que têm tornado evidente a relação entre paz e justiça; da Save the Children, infatigável a defender as crianças de todo o mundo; ou das Salas de Resposta a Emergências, cujo trabalho no Sudão tem sido considerado como uma das iniciativas humanitárias de base mais extraordinárias da memória recente.
É um labor não amplamente conhecido, o das Salas de Resposta a Emergências, que formam uma vasta rede humanitária a operar em inúmeros lugares do Sudão, um país que tem vindo a ser devastado por uma infindável guerra civil. O trabalho a que se entregam os voluntários das Salas de Resposta a Emergências inclui a administração de cozinhas comunitárias, a distribuição de cabazes de alimentos, o fornecimento de assistência médica, a organização de evacuações e, além disso, a documentação do conflito, que a Organização das Nações Unidas diz ser a causa da “maior crise humanitária do mundo”.
As Salas de Resposta a Emergências também fornecem informação aos media internacionais. Nisso, não estão sós. Nesta terça-feira, dia 6, a Organização Não-Governamental Médicos Sem Fronteiras, que, muito merecidamente, recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1999 – e seria justificado obtê-lo de novo –, indicava que “a sobrevivência no Sudão está a depender da próxima refeição, do próximo medicamento, do próximo encaminhamento seguro para um hospital, da próxima clínica cuja porta esteja aberta”, razão por que todos os donativos são fundamentais.
“A guerra, as deslocações, os ataques contra os serviços de saúde, as dificuldades de circulação e a destruição de infraestruturas estão a aumentar as necessidades médicas das pessoas”, explica a Médicos Sem Fronteiras, notando que isto ocorre num momento de cortes no financiamento humanitário, com severos efeitos no enfraquecimento dos serviços de saúde que deveriam prevenir, detectar e tratar doenças. A Organização Não- Governamental divulgava uma estimativa das Nações Unidas que indica que 33,7 milhões de pessoas no Sudão necessitam de assistência humanitária este ano.

“O Vatican News recorda que as Salas de Resposta a Emergências, “em 2024, estiveram quase a vencer o Prémio Nobel da Paz” e que, em 2025, conquistaram o Prémio Right Livelihood, uma espécie de Prémio Nobel alternativo. E, depois da publicação do texto, arrecadariam o Prémio Chatham House.Imagem: Simon Fraser, Alsanosi, Alaa, Abdalla, Khalid and Bronwen Maddox, entrega do prémio Chatham House 2025. Foto L-R
“Perante o silêncio ensurdecedor da comunidade internacional e dos grandes meios de comunicação social, desenrola-se, portanto, um dos conflitos mais ferozes da história recente”, escreveu o Vatican News, o portal oficial de notícias da Santa Sé, num texto sobre o trabalho das Salas de Resposta a Emergências. Aí se refere que, desde o início da guerra, em Abril de 2023, entre as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido, centenas de milhares de pessoas morreram vítimas de ataques armados, de fome, de doenças ou de isolamento. “Um grande número de pessoas aterrorizadas foi obrigado a abandonar as suas casas. As estatísticas mais recentes apontam para cerca de 15 milhões de pessoas. Destas, aproximadamente quatro milhões emigraram para países vizinhos que enfrentam agora o colapso: o Sudão do Sul e o Chade, por exemplo, notoriamente assolados por graves problemas internos, acolhem cada um 1,2 milhões de pessoas. E o êxodo continua”.
O Vatican News recorda que as Salas de Resposta a Emergências, “em 2024, estiveram quase a vencer o Prémio Nobel da Paz” e que, em 2025, conquistaram o Prémio Right Livelihood, uma espécie de Prémio Nobel alternativo. E, depois da publicação do texto, arrecadariam o Prémio Chatham House.
Vivendo o Sudão uma tão vasta tragédia – para a qual os meios de comunicação social não têm olhos – seria, evidentemente, muito justo que, aos que se esforçam por minorar o imenso sofrimento dos sudaneses, fosse atribuído o Prémio Nobel da Paz. Mesmo que as Salas de Resposta a Emergências recebessem a distinção, a atenção mediática global talvez não se voltasse para África. O desdém seria expectável pelo menos em Portugal, onde quem acompanha a informação televisiva tende a supor que o grande conflito da actualidade é o que opõe Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus.










