Não podemos tratar a paz “como um ideal distante”, ou acabaremos por “não considerar escandaloso que ela possa ser negada e que até mesmo se faça guerra para alcançá-la”, alerta Leão XIV na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz, apresentada esta quinta-feira, 18 de dezembro. “A paz existe, deseja habitar-nos”, assegura o Papa, ao mesmo tempo que deixa um apelo a todos os fiéis: “mais do que nunca, é preciso mostrar que a paz não é uma utopia”.
Esta é a primeira mensagem de Leão XIV para o Dia Mundial da Paz – instituído por Paulo VI em 1967 para ser celebrado a cada 1 de janeiro – e era aguardada com expetativa, tendo em conta que os apelos à paz têm sido uma constante desde o primeiro dia do seu pontificado… e que, a julgar pelos conflitos que continuam a grassar no mundo, parecem não estar a surtir o efeito desejado.
Se há algo que fica claro é que o Papa não desiste. Pelo contrário, insiste e procura ser mais claro e concreto: nesta mensagem, não só lança um clamor contra o clima de guerra instalado, como alerta para o facto de que muitos de nós são “cúmplices” desse clima e de que todos, sem exceção, têm a responsabilidade – e capacidade – de promover a paz.
Líderes políticos precisam de trilhar o “caminho desarmante da diplomacia”

Yona Tukuser, artista ucraniana de Hlavani, na região de Odessa, mostra um cartaz que afirma “Hope for peace” (esperança pela paz). Foto © António Marujo/7MARGENS
No texto, Leão XIV reconhece que “há muitas pessoas com corações prontos para a paz”, mesmo que “um grande sentimento de impotência as domine diante do curso cada vez mais incerto dos acontecimentos”. Mas muitos outros caminham numa direção diferente, reconhece também.
E aqui o Papa aponta para a “lógica de oposição” no âmbito político, que tem ido “muito além do princípio da legítima defesa” e que “é o dado mais atual de uma desestabilização planetária que se torna cada vez mais dramática e imprevisível”. Tudo isso se traduz em “repetidos apelos para o aumento dos gastos militares – e as escolhas que disso decorrem”, os quais “são apresentados por muitos governantes com a justificativa da periculosidade alheia”.
Leão XIV apoia-se nos números: “ao longo de 2024, as despesas militares a nível mundial aumentaram 9,4% em relação ao ano anterior, confirmando a tendência ininterrupta dos últimos dez anos e atingindo o valor de 2,72 biliões de dólares, ou seja, 2,5% do PIB mundial”, denuncia. E sem citar nenhum caso específico, sabemos que a sua crítica se dirige, por exemplo, à política de rearmamento lançada pela União Europeia.
Para Leão XIV, não restam dúvidas: aqueles que “possuem responsabilidades públicas nos mais altos e mais qualificados lugares” precisam de trilhar o “caminho desarmante da diplomacia, da mediação e do direito internacional”.
O Papa assinala ainda que há “um processo de desresponsabilização dos líderes políticos e militares devido ao crescente ‘delegar’ às máquinas as decisões relativas à vida e à morte das pessoas” e considera que isto pode levar a “uma espiral de destruição sem precedentes, que compromete o humanismo jurídico e filosófico do qual qualquer civilização depende e pelo qual é protegida”.
Além disso, lamenta o “realinhamento das políticas educativas”, explicando que “em vez de uma cultura da memória, que preserve a consciência adquirida no século XX e não esqueça os milhões de vítimas, promovem-se campanhas de comunicação e programas educativos em escolas e universidades, bem como nos meios de comunicação social, que difundem a percepção de que se vive continuamente sob ameaça e transmitem uma noção de defesa e segurança meramente armada”.
Por isso, faz o apelo concreto: “É preciso denunciar as enormes concentrações de interesses económicos e financeiros privados que estão a empurrar os Estados nessa direção; mas isso não é suficiente, se ao mesmo tempo não for promovido o despertar das consciências e do pensamento crítico”.
O “serviço fundamental que as religiões devem prestar”

O Patriarca Bartolomeu, o Papa Leão XIV e outros líderes cristãos juntos Niceia, no passado dia 28 de novembro. Foto © Vatican Media
E acrescenta, num apelo concreto a todos os fiéis: “juntamente com a ação, é mais do que nunca necessário cultivar a oração, a espiritualidade, o diálogo ecuménico e inter-religioso como caminhos de paz e linguagens de encontro entre tradições e culturas”. Estratégia que ele próprio já tem protagonizado, nomeadamente na sua recente viagem à Turquia e ao Líbano.
Em resumo, defende o Papa, “é necessário motivar e apoiar todas as iniciativas espirituais, culturais e políticas que mantenham viva a esperança”. E se “a melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores”, então é preciso contrapor a isso “o desenvolvimento de sociedades civis conscientes, de formas de associativismo responsável, de experiências de participação não violenta, de práticas de justiça restaurativa em pequena e grande escala”.
Uma responsabilidade de todos, e em particular dos cristãos

Após ter sido eleito, o Papa saudou a multidão com a frase “A paz esteja com todos vós!”. Foto © Vatican Media
Como que a regressar à “casa de partida”, Leão XIV escolheu para título da mensagem a mesma saudação que usou daquela primeira vez em que o vimos como Papa, na tarde da sua eleição: “A paz esteja com todos vós!”, lembrando que esta saudação “ganhou novo vigor nos lábios de Jesus ressuscitado” e que é repetida “todos os dias e em todo o mundo” pelos sucessores dos apóstolos.
No texto, explica: “Desde a noite da minha eleição como bispo de Roma, quis inserir a minha saudação neste anúncio coral. E desejo reiterá-lo: esta é a paz do Cristo ressuscitado, uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante. Ela provém de Deus, o Deus que nos ama a todos incondicionalmente”.
Mas essa paz de Cristo, que “tem o sopro da eternidade”, nem sempre é percetível no nosso mundo, reconhece também. Há um contraste entre as trevas e a luz, que não se trata apenas de “uma imagem bíblica”, mas antes “é uma experiência que nos atravessa e nos surpreende diante das provações que encontramos nas circunstâncias históricas em que vivemos”. Para não nos afundarmos na escuridão, “é necessário ver a luz e acreditar nela”, explica o Papa, que sabe que é possível “esquecer a luz” e há atualmente tantos que o fazem.
Por isso, Leão dirige-se assim a todos os que lerem a sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz: “Queridos irmãos e irmãs, quer tenhamos o dom da fé, quer pareça que não o temos, abramo-nos à paz! Acolhamo-la e reconheçamo-la, em vez de a considerarmos distante e impossível”. Porque, lembra o pontífice, “antes de ser um objetivo, a paz é uma presença e um caminho”, e deve ser “um princípio que orienta e determina as nossas escolhas”.
E, apesar de se dirigir a todos, não deixa de se centrar no exemplo de Jesus, que mesmo antes de ser capturado – e consciente da violência que se abateria sobre ele – “disse aos que estavam com Ele: ‘Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou’. E imediatamente acrescentou: ‘Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde'”. O Papa assinala que esta “resposta não violenta” de Jesus desconcertou os apóstolos e foi contestada por todos eles, mas Jesus insistiu que a seguissem até ao fim.
“A paz de Jesus ressuscitado é desarmada, porque desarmada foi a sua luta, dentro de precisas circunstâncias históricas, políticas e sociais”, sublinha Leão XIV. E por isso os cristãos têm uma responsabilidade particular no caminho da paz: “os cristãos devem tornar-se, juntos, testemunhas proféticas desta novidade, conscientes das tragédias das quais muitas vezes foram cúmplices”.










