Via-Sacra no Vaticano

A “paz” pedida por refugiados, mães sem filhos, vítimas da guerra e de conflitos

| 7 Abr 2023

Via-Sacra lembrou refugiados, com o Papa à distância, por recomendação médica. Foto © Vatican Media.

Via-Sacra lembrou refugiados, com o Papa à distância, por recomendação médica. Foto © Vatican Media.

 

Resguardado do frio da noite de Roma, por recomendação médica, o Papa Francisco acompanhou a partir de casa a Via-Sacra celebrada no Coliseu de Roma, na qual se pediu a paz através de “vítimas da violência, das guerras, simbolizando as pessoas que o Papa Francisco foi encontrando nas suas viagens”.

Jovens da Ucrânia e da Rússia estiveram juntos na X estação, para relatar, por um lado, a fuga da guerra, e por outro, o ge“sofrimento e a tristeza” por um conflito que “dizem, devíamos estar orgulhosos”. “Sou um rapaz russo… Enquanto o digo vem-me quase um sentido de culpa, mas ao mesmo tempo não compreendo porquê e sinto-me mal duas vezes. Despojado da felicidade e de sonhos para o futuro. Há dois anos vejo chorar a avó e a mãe. Uma carta informou-nos que o meu irmão mais velho morreu. A mesma coisa aconteceu com o pai e o avô: também eles partiram e não sabemos mais nada”, recordou.

A Via-Sacra, este ano presidida pelo vigário-geral para a diocese de Roma, o cardeal Angelo De Donatis – em substituição do Papa Francisco que acompanhou a celebração a partir da Casa de Santa Marta, no Vaticano – evocou a dor vinda de diversos pontos do mundo, da América do Sul à Terá santa, do mar mediterrâneo à guerra da Ucrânia, da África austral à América central.

“Vozes da Terra Santa” recordaram, na I estação, que “a violência parece ser a única linguagem”. “Justiça e perdão não conseguem dialogar. Vivemos juntos, sem nos reconhecermos, rejeitando um a existência do outro, condenando-nos mutuamente, num círculo vicioso sem fim e cada vez mais violento. E neste contexto carregado de ódio e rancor, também nós somos chamados a expressar um juízo e a tomar a nossa decisão”, ouviu-se no Coliseu.

A II estação, pela “voz de um migrante da África ocidental”, destacou o trajeto que teve início “há seis anos” que passou pelo “deserto”, encontrou “carros queimados, bidões de água vazios, cadáveres de pessoas” e contrabandistas, numa luta para chegar à Europa e a um campo de refugiados “onde se perde o juízo”.

“Todas as noites, perguntava a Deus porquê: porquê homens como nós devem considerar-nos inimigos? Muitas pessoas que fogem da guerra carregam cruzes semelhantes à minha”, lamentou, rezando pelo fim das “condenações fáceis do próximo”, dos “julgamentos precipitados”, das “críticas e das palavras inúteis”.

Pela voz dos jovens da América Central, foi proclamado o desejo de paz na III estação, que denunciaram situações de “narcotráfico, de violência, de vícios e da exploração das pessoas, enquanto muitas famílias continuam a chorar a perda dos filho”.

A IV estação foi lida por uma mãe da América do Sul, hoje a trabalhar para prevenir “os acidentes causados por milhões de minas disseminadas”, que recordou a marca que os guerrilheiros deixaram na sua filha, “de sete meses”, provocada por uma bomba que lhe esfacelou a perna e cobriu a filha de sangue: “Entendi que muitas vítimas precisavam de descobrir, como eu e através de mim, que a vida para elas também não tinha acabado e que não se pode viver de ressentimentos”.

No Coliseu de Roma ouviram-se vozes a pedir a paz vindas de três migrantes da África, do sul da Ásia e do Médio Oriente, vindas de cenários de “ódio” que provoca “um vazio de amor” que “faz sentir um peso inútil”.

A VI estação foi lida por um sacerdote religioso da Península Balcânica, que tinha 40 anos quando chegou a guerra, foi raptado, sofreu maus-tratos e violência, mas onde lhe foi assegurado que não morreria sem ser trocado por 150 homens: “A oração, repetida no coração, fez maravilhas”.

Dois adolescentes do norte de África, José com 16 anos, e Johnson, de 14 anos, deram conta da vida num campo de refugiados, na VII estação. “Aqui a vida não é boa. Temo pelo futuro, meu e dos outros adolescentes. Porque sofremos no campo de deslocados? Por causa dos conflitos em curso no meu país, flagelado pela guerra desde que existe. Sem paz, não conseguiremos levantar-nos. Uma vez e outra promete-se a paz, mas continua-se a cair sob o peso da guerra, a nossa cruz”, lamentou um.

“Vivo noutro campo para deslocados, bloco B, setor 2. Tenho 14 anos e frequento a terceira classe. Aqui a vida não é boa, muitas crianças não vão à escola, porque não há professores nem escolas para todos, o lugar é demasiado pequeno e superlotado, não há espaço sequer para jogar futebol. Queremos a paz a fim de voltar para casa. A paz é boa, a guerra é má. Gostaria de o dizer aos líderes do mundo. E, a todos os amigos, peço que rezem pela paz”, pediu outro.

A VIII estação foi lida por “mulheres de Jerusalém” que pediram a paz, vindas de um povo “esmagado pela cruz do conflito: da violência, das deslocações internas, dos ataques aos lugares de culto”, numa Via-Sacra “que parece não ter fim”, onde choram a fome dos filhos.

Uma consagrada, vinda da África Central, contou, na IX estação, a sua experiência junto de crianças, futuros soldados, para lhes transmitir “que são o futuro” e para que conheçam “os valores evangélicos da ajuda mútua, do perdão, da honestidade, para que o sonho da paz se torne realidade”.

Um jovem do Médio Oriente recordou a invasão de um grupo extremista que “invadiu o bairro” e “matou de rajada” quem se encontrava no caminho.

“Eu tinha nove anos. Recordo a angústia da mãe e do pai; à noite, encontramo-nos abraçados e rezando, cientes duma nova e duríssima realidade à nossa frente. A guerra tornava-se de dia para dia mais horrenda. Por longos períodos, faltavam luz e água, e abriram-se poços por toda a parte. A comida era um problema diário”, recordou.

“A guerra foi a cruz da nossa vida. A guerra mata a esperança. No nosso país, e mais ainda depois das terríveis calamidades naturais, muitas famílias, crianças e idosos estão sem esperança”, acrescentou.

Uma mãe do ocidente asiático recordou a morte do seu filho por um ataque terrorista. “A morte destes três anjos impeliu-nos a fugir: se não fossem eles, ficando na cidade, teríamos inevitavelmente caído nas mãos dos terroristas. Não é fácil aceitar esta realidade. Contudo a fé ajuda-me a esperar, porque me lembra que os mortos estão nos braços de Jesus. E nós, sobreviventes, procuramos perdoar ao agressor, porque Jesus perdoou aos seus carrascos”, explicou.

Uma religiosa da África oriental trouxe à memória o dia em que uma religiosa, missionária foi morta por terroristas, no mesmo dia em que se assinava um acordo de independência: “O dia da vitória transformou-se em derrota: o medo e a incerteza inundaram os nossos corações. A experiência de centenas de famílias que viram a morte trágica dos seus entes queridos tornou-se realidade: o corpo sem vida da irmã jazia nos nossos braços”.

Na XIV estação jovens mulheres da África austral recordam a invasão da aldeia por rebeldes que “tomaram como reféns todos aqueles que puderam, deportaram quem encontraram e carregaram-nos com aquilo saquearam”.

“Quando o Papa veio ao nosso Continente, depositamos ao pé da cruz de Jesus as roupas dos homens armados, que ainda nos metem medo. No nome de Jesus, perdoamos-lhes por tudo o que nos fizeram. Pedimos ao Senhor a graça duma convivência pacífica e humana”, ouviu-se.

A Via-Sacra terminou com “14 obrigados”, lidos pelo cardeal Angelo De Donati, agradecendo “o amor demonstrado diante da traição”, também a coragem “de quem abraça a cruz”, “o amor sem excluir ninguém”, pela esperança “na hora da privação”, pela misericórdia e pelo “perdão oferecido aos assassinos”.

 

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