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Dia de los Muertos na localidade mexicana de San Antonio Tecomitl, na região de Milpa Alta. Foto © Luis Alberto Blancas Aguirre, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

A paz perpétua

Luis Alberto Blancas Aguirre, CC BY-SA 3.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0>, via Wikimedia Commons

Dia de los Muertos na localidade mexicana de San Antonio Tecomitl, na região de Milpa Alta. Foto © Luis Alberto Blancas Aguirre, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

 

O projecto de 2022 do meu coro é – podem crer! – espectacular: vamos “dançar” o Requiem de Fauré, e ligá-lo à tradição mexicana do Dia de los Muertos. A doçura da abordagem de Fauré, que nos propõe a morte como passagem para o paraíso, e o reencontro festivo com aqueles que amamos e passaram para o lado de lá. E também a reapropriação dos sentidos do nosso corpo, bastante maltratados durante a crise da covid: um evento para ver, ouvir, cheirar, saborear e viver em proximidade. 

Desde o princípio que penso que este projecto é muito actual, e um grande presente que damos à população de Berlim. Na ânsia de sobreviver à crise e de regressar depois à normalidade, restou pouco espaço para nos confrontarmos com o que nos aconteceu nestes dois anos: o stress do quotidiano transtornado, o medo da morte e da doença, a ameaça da falência, a dor de despedidas que não foram possíveis. 

Sim, é um grande projecto, mas: como sempre, falta o dinheiro para o realizar. Temos andado a pensar nas várias possibilidades de financiamento e uma delas foi pedir patrocínios às agências funerárias. 

Uma delas deu um pequeno apoio, combinado com várias condições – a costumeira publicidade, mas também um ensaio do nosso coro nas suas instalações. Comecei por revirar os olhos, pensando que estavam a exagerar nas contrapartidas para um apoio tão minúsculo. Mas estivemos lá recentemente e viemos de lá muito mais ricos.

Mostraram-nos a sala dos velórios, o armazém de caixões com todo o tipo de modelos (escolhi logo para mim o mais simples: a caixa de pinho não tratado, que eles usam para recolher ossadas) e a sala onde preparam os cadáveres para os expor no velório. Têm uma máquina parecida com as de diálise, para trocar líquidos e mudar a cor da pele (“Se o corpo estiver mais bonito na morte do que era em vida, é sinal que exageramos nos nossos esforços”, disse o guia, e eu a pensar “bem, se o nicho de mercado pegar, as pessoas ainda vão começar a encomendar aparências post mortem, ai eu queria ficar tipo Brad Pitt, ai eu queria ficar tipo Brigitte Bardot…”).

Falámos muito da morte, esse tema tão evitado. O pudor no trabalho com os corpos indefesos (as zonas genitais, obviamente, mas também o detalhe de, no exame para técnico de preparação do corpo, se chumbar caso se pouse por um momento a cabeça do cadáver na mesa, em vez de a pousar no suporte que ali existe para esse fim. A relação com o corpo como última homenagem à pessoa que vivia dentro dele – por exemplo, a história de uma família que entregou um lenço para pôr no corpo, e o tanto que eles pensaram sobre como usar o lenço (na mão? na cabeça, com um nó à frente, como quem vai para a apanha das batatas? na cabeça, com um nós atrás, como quem anda a limpar o pó?); repararam que aquela mulher tinha uma cicatriz na cabeça, e usaram o lenço para a cobrir, prolongando-o com um nó elegante num dos lados, entre o pescoço e o ombro: a homenagem que é também observação e reinvenção da pessoa. As decisões sobre o funeral: o que a própria pessoa quer, mas também o que é conveniente para os vivos –  um enterro na floresta não é grande ideia no caso de o cônjuge sobrevivo ter dificuldades graves de mobilidade; ou a história da família que ia enterrar a mãe ao lado do pai, e foi apanhada de surpresa ao saber que a mãe deixara indicações para deitarem as suas cinzas ao mar (“conversem sobre isso antes de morrer, ponham-se de acordo quanto à melhor solução” – dizia ele). 

No fim, alguém perguntou ao responsável da agência funerária, que trabalha todos os dias com mortos, se acreditava num além da vida. A resposta dele: 

– Espero que não haja nada depois desta vida. A verdadeira paz perpétua é o fim absoluto. 

Gostei da formulação: “espero que”. E ocorreu-me que esse ponto absolutamente final pode ter um lado positivo: nada de viver na inquietação eterna de tudo o que se fez mal nesta vida, nada de voltar à terra para tentar melhorar. A nossa vida é aqui e agora, e todos os dias contam, todos os gestos contam. A nossa vida é um rascunho gravado na pedra. 

A nossa vida eterna seria essa herança que aqui deixamos: o bem e o mal que espalhámos. E, nesse caso, não entraríamos no paraíso depois da morte, como em Fauré, mas estaria nas nossas mãos recomeçar todos os dias gestos de oferecer ao mundo o paraíso à medida das nossas possibilidades. 

Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blog Dois Dedos de Conversa, onde este texto foi inicialmente publicado. 

 

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