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Leão XIV
Leão XIV na primeira mensagem urbi et orbi após a sua eleição quando defendeu "uma paz desarmada e desarmante". Foto © António Marujo/7MARGENS

Uma leitura da “Magnifica Humanitas”

A paz que Leão quer tudo desarma

| 23/09/2026

A encíclica “Magnifica Humanitas”, do Papa Leão, só na aparência é sobre a Inteligência Artificial”. Ela tem um foco concreto: no tempo em que a IA é cada vez mais arma de guerra, a paz é a urgência. Uma leitura do documento com essa chave, nas vésperas da viagem do Papa a França. 

À memória de Eugénio Fonseca (1957-2026),
ex-presidente da Cáritas Portuguesa.

 

Desarmar. É este o verbo do Papa Leão. Desarmar palavras, corações, tecnologia, nações e estados. Desarmar e levar a que essa “paz desarmada” seja uma paz que desarma, “desarmante”.

Esse é o verbo do Papa. Desde o primeiro momento, após ser eleito: na bênção urbi et orbi, à cidade e ao mundo, relacionando o desarmamento e a paz com a mensagem de Jesus; reafirmado pelas mais de 400 mensagens e apelos à paz e ao desarmamento (incluindo nuclear) e de condenação da guerra, ao longo do primeiro ano de pontificado; e a ser aprofundado na mensagem para o próximo Dia Mundial da Paz, a 1 de Janeiro de 2027, que terá como título “Desarmar a tecnologia, servir a paz” – foi há dias anunciado pelo Vaticano. Comentando esta escolha, o padre jesuíta italiano Antonio Spadaro escrevia que “desarmar a tecnologia” é “o verbo que governa o pontificado de Leão” – e que isso significa despojá-la da “única presunção: que ela possa decidir em nosso lugar e, acima de tudo, que possa decidir mais rapidamente do que um ser humano consegue julgar”.

“A paz esteja convosco! Esta é a paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada e uma paz que desarma, que é humilde e perseverante. Que vem de Deus, do Deus que nos ama a todos incondicionalmente.” Foi dessa forma que Leão XIV enunciou, após a eleição, aquilo que, logo se percebeu, seria um tema grande do pontificado.

De várias formas e por diferentes modos, o próprio Papa sistematizou muito do seu pensamento sobre a matéria na encíclica Magnifica Humanitas (“Magnifica Humanidade”), publicada em Maio: “gostaria de utilizar uma palavra que me é cara: ‘desarmar’”, escrevia no parágrafo 110 (todos os números a seguir se referem aos parágrafos do documento). “Desarmar a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também económica e cognitiva. Trata-se da corrida ao algoritmo mais eficaz e ao banco de dados mais vasto, com o objetivo de consolidar uma vantagem geopolítica ou comercial sobre todos os outros. Desarmar significa quebrar esta equivalência entre poder técnico e direito de governar.” A mensagem do Dia da Paz de 2027 desenvolverá a ideia.

 

Mais de um apelo por dia

Papa Leão XIV na despedida do Líbano. Foto Vatican Media

O Papa Leão XIV na despedida do Líbano; aqui e em África, relacionou a paz com a corrupção de muitas lideranças políticas e disse que “Deus não ouve a oração de quem faz a guerra” Foto © Vatican Media. 

Nos primeiros 15 meses enquanto Papa, o tema e as propostas da paz desdobraram-se em meia centena de apelos (mais de um por dia, em média), com a ideia do desarmamento como horizonte. Apelos e denúncias no seguimento dos do Papa Francisco, que falava de uma “guerra mundial aos pedaços”: ao longo de meses, Leão denunciou o desrespeito do Direito Internacional humanitário; afirmou que as “armas nucleares ofendem a humanidade” e alertou para a não revisão do Tratado de Limitação de Armas Nucleares (além de António Guterres, parece ser o único líder mundial a falar do assunto); condenou o aumento (pelo 11º ano consecutivo) dos gastos em armamento para quase 2,5 mil milhões de euros. Referiu ainda outros temas que relacionou com a paz: violência contra as mulheres, atentados contra a casa comum e o ambiente, tráfico de pessoas, tiranos que governam o mundo ou (ir)responsabilidade mediática.

Nas suas viagens ao Líbano (Dezembro) ou África (Abril), relacionou o tema com a corrupção que atinge muitas lideranças políticas e disse que “Deus não ouve a oração de quem faz a guerra”; pelo contrário, “rejeita-a dizendo: ‘Mesmo que multiplicásseis as orações, eu não ouviria: as vossas mãos estão cheias de sangue’”, uma citação do livro bíblico do Profeta Isaías (1, 15). Convidou ainda ao abandono dos ídolos do poder e do dinheiro, os outros dois lados do triângulo da guerra; e apelou à educação para a não-violência, recusando a guerra como um “cenário de videojogo” com drones e promessas falsas: “Como se pode acreditar, depois de séculos de história, que as acções bélicas trazem a paz?” Perguntas e afirmações que certamente se repetirão na viagem a França, em Setembro, tendo em conta o que se passa na Ucrânia, Gaza e Irão.

Aparentemente, a encíclica Magnifica Humanitas trata da Inteligência Artificial (IA). Mas o documento sistematiza a reflexão de Leão sobre os grandes temas da Doutrina Social da Igreja (DSI), e concretamente sobre a paz, ao qual dedica o último capítulo. O subtítulo – “Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial” – confirma esse horizonte alargado. O contexto é a mudança de época que estamos a viver com a IA. Mas o centro continua a ser aquele que a DSI, ou moderno pensamento social cristão, elegeu desde a encíclica Rerum Novarum (“As coisas novas”), de Leão XIII, em 1891: a defesa da dignidade da pessoa na sociedade, na política e no trabalho; a justiça, o desenvolvimento e a paz – e, na última década e meia, com o Papa Francisco e a sua encíclica Laudato Si’, de 2015, também a casa comum. Precisamente sobre este último tema, Leão recorda as graves consequências da IA no campo ambiental, tendo em conta a energia e água gastas, as emissões de dióxido de carbono e o consumo intensivo de recursos, tornando urgentes “soluções tecnológicas mais sustentáveis”.

O documento foi muito elogiado quando saiu, por crentes e não-crentes de diferentes sectores sociais e políticos: a encíclica é um exaustivo, certeiro e muito completo diagnóstico dos bloqueios políticos, económicos, tecnológicos e éticos com que nos confrontamos, mas também das potencialidades a que podemos aspirar, enquanto sociedades – mesmo se fundado no ensino bíblico e no olhar do cristianismo.

 

Um salto, Babel e Neemias

Leão XIII, intelectual, político e diplomata, inaugurou com a encíclica Rerum Novarum o moderno pensamento social católico. Foto: Direitos reservados.

 

A encíclica começa por situar as razões do texto e por fazer um percurso pela DSI desde Leão XIII, em 1891. Vale a pena o parêntesis, que o Papa não faz no documento, para dizer que, antes desse ano, havia um vasto pensamento teológico sobre a economia e a política, inspirado na Bíblia e nos Evangelhos, desenvolvido desde os primeiros séculos do cristianismo pelos “padres da Igreja”, os teólogos dos primeiros séculos.

Alguns, como Basílio de Cesareia (c. 329-379), criticavam asperamente os detentores de riquezas: “O pão que reténs pertence ao faminto”, escrevia ele na Homilia sobre a parábola do homem rico e do pobre Lázaro; na mesma época, Ambrósio de Milão dirá que a terra foi criada para produzir alimentos de uso comum; Agostinho de Hipona, que o Papa refere explicitamente, desenvolve um vasto pensamento social e político em A Cidade de Deus; Tomás de Aquino, já no século XIII, também na esteira de Basílio e outros, dirá na Summa Theologica (II-q.66, a.7) que apoderar-se de comida em caso de fome extrema não é roubo nem pecado, antes se recupera algo para o sustento, que alguém subtraíra ao bem comum. Experiências como as de Francisco de Assis (séc. XIII), Bartolomé de las Casas (séc. XVI) ou o padre António Vieira (séc. XVII) foram consolidando muitas dessas perspectivas; mas a DSI só é assim designada a partir da Rerum Novarum, no final do século XIX.

É a partir dela e dos principais textos papais dos últimos 135 anos que Leão descreve os fundamentos do pensamento social cristão: o ser humano como imagem de Deus; a igual dignidade de todas as pessoas; e o “altíssimo valor dos direitos humanos”; descreve, depois, os princípios da DSI: dignidade, bem comum, destino universal dos bens, subsidiariedade, solidariedade e justiça social. As tensões criadas pelo paradigma tecnocrático, o poder digital e o transumanismo são colocadas em contraponto ao humanismo cristão no terceiro capítulo.

A verdade, o trabalho e a liberdade são os temas do capítulo IV. É aqui que Leão XIV aborda a essencial busca da verdade para a democracia, contra o poder “que impõe subtil ou claramente aquilo que deseja que os outros considerem como verdadeiro”; a ecologia da comunicação, que deve levar a uma atitude de vigilância e transparência – onde inclui um elogio aos jornalistas que desvendaram os abusos sexuais na Igreja; a centralidade da escola como lugar de aprendizagem sociopolítica, pedagógica, intelectual e sapiencial; a importância de uma economia que valorize a qualificação e capacidade inovadora dos trabalhadores e dê prioridade à protecção do emprego e dos postos de trabalho; a subordinação da economia à dignidade da pessoa e ao bem comum; a valorização da finança pelo “desenvolvimento e pela criação e evolução do trabalho” e não da “finança pela finança””.

 

O salto que a encíclica dá

Antonio Spadaro

Antonio Spadaro: a Magnifica Humanitas representa um salto na doutrina social católica. 

Com a reflexão que Leão introduz, a DSI dá um salto, analisa o padre jesuíta Antonio Spadaro na introdução à edição do documento na Paulinas Editora: ela reconhece “que a transformação digital interpela, a partir de dentro, as próprias categorias da Doutrina Social e exige o seu desenvolvimento posterior”.

É esse passo, muito por culpa do tema da paz e do desarmamento (dos corações, dos arsenais militares, das palavras…) que Leão XIV dá em todo o texto, mas de modo especial no último capítulo, onde contrapõe “A cultura do poder e a civilização do amor”. Aí começa por fazer uma “crítica estrutural à concentração de poder nas mãos de actores privados transnacionais que redefinem as condições de acesso à vida pública”, diz Spadaro. “A verdadeira aposta [é…] se a inteligência humana saberá manter-se humana perante a tentação do desempenho absoluto.”

É altura de introduzir os dois ícones bíblicos que o Papa Leão utiliza como mote ao longo da reflexão que faz no documento, ambos do Primeiro Testamento cristão (Bíblia hebraica): Babel é a história de quando a humanidade quer construir uma torre para chegar ao céu, de modo a tocar (e a ser como) Deus, dona de um poder absoluto. O final é conhecido: Deus confunde os humanos, que passam a falar uma multiplicidade de línguas e, com isso, deixam de entender-se para construir a torre. A história tem uma moral: o (anseio de) poder confunde e divide.

A segunda é quando Neemias, judeu no exílio, regressa a Jerusalém e coloca um grupo de famílias em cada estaleiro de obras para, em conjunto, todos reconstruírem as muralhas da cidade. “A escolha é entre a lógica do domínio e a lógica da responsabilidade”, comenta Spadaro. Com Neemias, a cidade “renasce por responsabilidade partilhada”. Dois episódios, “duas lógicas de poder: concentrá-lo ou distribuí-lo, homogeneizar ou compor”.

O Papa observa: “por um lado, a tentação de construir a torre de Babel, confiando no poder e no orgulho; por outro, a paciência em reconstruir Jerusalém ‘por partes’, (…) salvaguardando o humano e o bem comum.” Isso serve-lhe de ponto de partida para alertar contra a forma como a IA tem “graves consequências para a dignidade humana” num âmbito ainda mais dramático que os da vida e da sociedade: “a guerra”. Está em causa, diz, uma decisão sobre a vida e a morte mais “rápida e impessoal” dos sistemas digitais, “dissociada da ética e da responsabilidade”, reduzindo o inimigo a uma “estatística” ou vítima “colateral” (182-183).

 

“Preocupante reabilitação”

projeção do logo dos ODS na Assembleia Geral da ONU. Foto ONU

Assembleia Geral da ONU: o Papa Leão defende com veemência as organizações multilaterais. Foto © ONU

O percurso de análise, observação, diagnóstico e crítica do Papa neste capítulo passa por algumas ideias-fortes: as instituições multilaterais foram enfraquecidas (“Não menciona a Administração Trump, que rejeitou o multilateralismo, mas a situação encaixa na perfeição”, observa o padre Reese num outro artigo sobre a encíclica); a paz foi remetida para segundo plano, em nome de lógicas de poder que menosprezam “a cooperação para o desenvolvimento, o desarmamento, a prevenção de conflitos e a construção da confiança mútua” e enfraquecem “as conquistas do direito humanitário: o princípio da proporcionalidade na resposta às agressões; a garantia do acesso à água, aos alimentos e aos bens essenciais; o respeito pela vida dos civis e das crianças” tratados “como reminiscências ingénuas do passado” (203). Temos visto tudo isto em Gaza, no Congo, ou no Sudão, por exemplo.

Reconhecendo a “fragilidade da ONU e do sistema político internacional [que] revela a necessidade de reformas profundas, Leão faz uma veemente defesa dessas organizações, que “continuam a ser instrumentos essenciais para promover uma civilização do amor, possibilitando o diálogo entre as nações, a resolução pacífica dos conflitos, o desenvolvimento integral dos povos, a protecção das pessoas mais vulneráveis, o desarmamento e o cuidado da criação” e para reduzir as desigualdades, defender refugiados e minorias, libertar recursos do armamento para a promoção humana e o cuidado da Casa comum (226).

Há uma “preocupante reabilitação da guerra como instrumento de política internacional” e uma degradação dos “critérios éticos que tinham limitado o seu uso”, observa (190). Sobre a (regressão) ética, defende que a IA no campo bélico deve estar sujeita “aos mais rigorosos compromissos éticos, no respeito pela dignidade humana e pela sacralidade da vida, evitando uma corrida ao armamento”. A IA “não retira ao conflito a sua intrínseca desumanidade”, reduzindo as vítimas a dados (197-198). Antes, a cadeia de responsabilidades deve permanecer identificável e verificável: quem projecta, quem treina, quem autoriza e quem utiliza deve poder prestar contas das suas escolhas, (…) as decisões irreversíveis não podem ter como critérios supremos a rapidez e a eficiência (…) e a tecnologia que facilite atingir sem ver o rosto do outro reduz o nível moral do conflito” e ignora “o impacto sobre populações indefesas” (199).

 

Um tratado só simbólico vs. novos protagonistas

Macomia, Cabo Delgado, Moçambique.

Cabo Delgado, Moçambique: a destruição em Macomia, depois de um ataque terrorista em 2020: há grupos armados que fazem da guerra um “modo de viver para jovens e crianças”. Foto: direitos reservados

O Tratado sobre a proibição de armas nucleares, já ratificado por mais de 70 países “corre o risco de permanecer em grande parte simbólico, uma vez que as principais potências nucleares não aderem ao mesmo”. Também se difundiu “a convicção – errada – de que a dissuasão nuclear é uma condição indispensável para a segurança, cujo resultado é alimentar uma nova e pouco controlável corrida ao armamento” (194). E os conflitos convencionais tendem a tornar-se “crónicos, com um custo humano e ambiental extremamente elevado”. Uma outra observação que, não o dizendo, parece referir-se ao desnorte de Trump contra o Irão: “É muito mais fácil iniciar uma guerra do que terminá-la e, no entanto, a reflexão sobre a prevenção de conflitos continua a ser dramaticamente marginal.”

Ao mesmo tempo, aparecem “novos protagonistas armados – grupos jihadistas, milícias privadas, redes criminosas – (…) que, movidos tantas vezes por interesses económicos, fazem da guerra um “verdadeiro modo de viver para gerações inteiras de jovens e crianças”, com o conflito como uma “fonte de poder e rendimento (195-196). Várias guerras em África evidenciam-no.

“Em vez de progredirmos, estamos a retroceder em relação à mudança histórica” de 1989, que, acompanhada de “uma globalização predominantemente económica” trouxe fundamentalismos e nacionalismos, resume o Papa Leão (201). E conclui: “A construção de um mundo em estado de beligerância permanente é um mal, e deve ser chamado pelo seu nome”. E se isto pode parecer pessimismo, trata-se “duma denúncia necessária” (210).

 

Civilização do amor

Papa Francisco discursa na assembleia geral das Nações Unidas, em 2015. Foto ONU a

O Papa Francisco a discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas em 2015: Leão retoma a ideia do perdão como categoria política, na linha do que Francisco propôs na encíclica Fratelli Tutti. Foto © ONU.    

A perspectiva cristã, porém, não se esgota na denúncia do mal, acrescenta o Papa nesse mesmo parágrafo. Na linha do Papa Francisco, que na encíclica Fratelli Tutti, sobre a fraternidade, introduziu o tema do perdão como categoria política, Leão propõe uma civilização do amor, no antípoda dos discursos políticos que reduzem o diferente (seja etnia, nação, povo, género, religião…) a um inimigo – na Bíblia, Jesus identifica o “reino de Deus” com os valores da verdade, da paz, da justiça, da fraternidade e da alegria.

Recordando a introdução da expressão pelo Papa Paulo VI, em 1971, Leão afirma: “Hoje devemos recuperar com firmeza esta visão: a civilização do amor não é uma utopia ingénua, mas um projecto exigente”, traduzindo a “caridade em estruturas de justiça”, dando “corpo institucional à fraternidade” e considerando o outro – uma pessoa ou um povo – “como aliado necessário na construção do bem comum.” E, na senda da Fratelli Tutti, diz que “só este amor social, capaz de se tornar cultura e norma, pode gerar uma ordem internacional estável” (186).

Num contexto de transição digital, a ideia da civilização do amor assume a interdependência dos laços mais estreitos que a IA permite, transformando-os “numa solidariedade desejada e escolhida”. Trata-se, enfim, de converter a ideia do amor no “princípio organizador da vida económica, política e cultural”, e de a IA “servir para edificar a família humana universal [e] a proximidade digital se torna ocasião concreta de encontro e cuidado recíproco” (187).

A alternativa à “civilização do amor” é má: “os últimos sessenta anos foram marcados por conflitos de uma ferocidade impressionante que, muitas vezes, envolveram de forma massiva as populações civis, causando vítimas inocentes, ondas de refugiados, desestabilização e feridas duradouras”. A perda da memória histórica pelo “atenuar do testemunho directo da Shoah e das duas Guerras Mundiais” também “facilita a reescrita selectiva ou distorcida do passado”, que se junta às “notícias falsas” e “manipulações narrativas” (189/191).

As alternativas do presente não são melhores, insiste o Papa: derivas bélicas em que a capacidade de dominar dita a agenda; utilização do poder da força sem limites; “estreita ligação entre interesses económicos, [aparelhos] militares e decisões políticas”; o mercado das armas tornado sector-chave na economia de vários países e “motor autónomo de escolhas bélicas”, baseado em “enormes interesses económicos” (193). Ou seja, de novo o triângulo dinheiro-poder-guerra, cujos custos reais recaem “sobre os mais pobres, que assistem à redução dos recursos destinados à saúde, à instrução e aos serviços sociais” – como tragicamente já se admite na União Europeia, nascida para contrariar precisamente a lógica da guerra na resolução de conflitos.

 

Desarmar as palavras

 

O Papa sublinha o óbvio: “para além de minorias violentas, a humanidade não deseja a guerra”. Mais: a ideia de guerra justa já não serve, “é importante reafirmar que foi superada”, invocada com demasiada frequência para justificar qualquer guerra” – e Reese comenta que muitos católicos conservadores a usaram para defender as intervenções dos EUA no Vietname ou no Médio Oriente.

O problema é que a grande parte dos que procuram a paz estão desprovidos “duma visão de conjunto” (217/185), mesmo se temos hoje “instrumentos muito mais eficazes e capazes de promover a vida humana, como o diálogo, a diplomacia e o perdão” (192). Apelando à responsabilidade pessoal, o texto cita O Senhor dos Anéis, do escritor católico John R.R. Tolkien: “Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível (…), erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar.”

Desarmar as palavras aparece de novo como uma das cinco pistas para concretizar a possibilidade de intervenção pessoal. A par da construção da paz na justiça, da assunção do olhar das vítimas, do cultivo de um saudável realismo, e da revitalização do diálogo e do multilateralismo. A propósito das vítimas, diz – e nós lemos Ucrânia e Gaza: “Há conflitos nos quais não é justo permanecer neutros nem é suficiente pensar ‘não ser cúmplice’. Quando nos deparamos com bombardeamentos contra civis; com ataques a hospitais, escolas ou infraestruturas vitais; com actos de violência que atingem crianças, estamos perante escândalos que ferem a própria humanidade.” (213-218)

A “civilização do amor” passa pela “experiência do encontro autêntico com o outro, com quem é diferente, com o estrangeiro, com o migrante”. Não é por acaso, escreve Spadaro na edição da Paulinas, “que o documento dedica páginas decisivas aos migrantes, às mulheres, aos trabalhadores invisíveis da cadeia digital, às crianças das minas das terras raras”. E, na política, a “cultura do poder” deve dar lugar à negociação, ao diálogo e às relações diplomáticas, “o método autenticamente humano” (220-221), na expressão de Giorgio La Pira, autarca católico de Florença entre 1951-58 e 1961-65, conhecido pelo seu empenho em favor dos mais pobres e dos desempregados e como defensor da paz mundial no tempo da Guerra Fria.

 

Magníficas humanas

Algumas personalidades citadas por Leão XIV em Magnifica Humanitas. Foto DR

Algumas das personalidades citadas por Leão XIV na encíclica Magnifica Humanitas: Dorothy Day, um dos nomes  Foto DR

Antes de Tolkien e La Pira e da referência à ONU, Leão destaca, nos parágrafos 123-125, ao referir-se à grandeza do coração humano por oposição aos seus limites, várias “mulheres corajosas e generosas”, mártires “da fraternidade e da justiça”, que encarnaram “a esperança do Evangelho e a dignidade humana” ou ainda “‘mártires do quotidiano” que cuidam, educam, acompanham e consolam sem alarde”. Uma forma de dizer que pessoas por vezes sozinhas ou em pequenas comunidades, podem ajudar à mudança em favor da paz.

Entre os exemplos, estão dois não-católicos: o pastor baptista Martin Luther King, que liderou o movimento pelos direitos civis; e Nelson Mandela e “a sua decisão de não entregar ao ódio o futuro”, quando pôs fim ao apartheid na África do Sul. Há ainda “mártires da fraternidade e da justiça”, como Maximiliano Kolbe (1894-1941), padre católico polaco que, em Auschwitz, se ofereceu aos nazis para morrer no lugar de um pai de família; Oscar Romero (1917-1980), arcebispo de San Salvador, assassinado enquanto celebrava missa, pela defesa que fazia dos mais pobres e da crítica à impunidade militar no seu país; o argentino Enrique Angelelli (1923-1976) conhecido como “bispo dos pobres”; e o vietnamita François-Xavier Nguyễn Văn Thuận (1928-2002) bispo perseguido pelo regime comunista do seu país.

A nota mais relevante talvez seja a que vai para, entre “muitas outras”, várias mulheres “corajosas e generosas” de diferentes contextos “que contribuíram com o seu empenho para tornar a história mais humana”. De novo, duas não-católicas: Elisabeth Elliot (1926-2015), missionária protestante, escritora e palestrante belga; e a muçulmana Benazir Bhutto (1953-2007), morta num atentado terrorista depois de ter sido a primeira mulher no cargo de primeira-ministra no Paquistão.

As católicas são Laura Montoya (1874-1949), colombiana que trabalhou com os povos indígenas; Teresa de Calcutá (1910-1997), a albanesa que na Índia se entregou aos mais moribundos nas ruas, sem comida nem abrigo; Marie Skłodowska-Curie (1867-1934), física franco-polaca pioneira do Raio-X; Maria Montessori (1870-1952), pedagoga, educadora e médica italiana, cujo método é ainda hoje seguido em muitas escolas; Wangari Maathai (1940-2011), primeira mulher africana a receber o Nobel da Paz pelo seu contributo para o desenvolvimento sustentável e a democracia.

O outro nome significativo é o de Dorothy Day (1897-1980), sindicalista, pacifista (presa várias vezes por se manifestar contra a guerra) e fundadora do jornal e associação O Trabalhador Católico nos Estados Unidos. Dorothy tinha sido marxista, chegou a fazer um aborto e esta neste momento com o processo de canonização aberto. “À medida que os católicos enfrentam novos desafios, dispõem de um tesouro de sabedoria de épocas passadas ao qual podem recorrer”, escreve Nathan Beacom, num texto no America, portal dos jesuítas dos EUA, no qual pergunta se a versão actual do socialismo “é compatível com o ensino social católico” (ver caixa). “O esforço para se manter fiel a este património e para o viver na prática foi o que fez de Dorothy Day não apenas uma activista, mas uma santa.”

“É precisamente esta interconexão de instituições justas, testemunhos fidedignos e fidelidades quotidianas, que mantém viva a esperança e indica uma direcção: permitir o crescimento da técnica sem deixar regredir o coração”, conclui Leão no seu documento. “Por isso, a humanidade – magnífica e ferida – não deve ser substituída nem superada: pode acolher os progressos da técnica para aliviar os sofrimentos e abrir novas possibilidades, desde que não renuncie ao que lhe permite ser ela mesma, ou seja, à capacidade de relação e amor.”

Desarmar tudo, pede o Papa Leão. “Existe uma saída?”, perguntava José Mário Branco, em A Noite. E responde: “Irmãos, irmãos, amemo-nos agora.” Existe outra saída para esta Magnífica Humanidade?…

 

 

Um Papa adepto do socialismo democrático?

Apresentação da enciclica Magnifica Humanitas, 25 maio 2026. Foto Vatican Media 2

O Papa Leão na apresentação da enciclica Magnifica Humanitas, em 25 de Maio. Foto © Vatican Media

“Em muitos aspectos, o socialismo democrático estava e está próximo da Doutrina Social da Igreja [que,] em todo o caso, contribuiu decisivamente para a formação da consciência social.”

Não foi um qualquer esquerdista ou teólogo mais “progressista” que disse estas palavras. A citação é do Papa Bento XVI num texto de 2006 sobre “A Europa e os seus Descontentamentos”, no qual fala da identidade política e cultural da Europa do pós-guerra – publicado, ainda para mais, na revista católica conservadora dos EUA, First Things. Nele, o antigo Papa alemão dizia que o socialismo democrático conseguiu ser “um contrapeso saudável contra as posições liberais radicais nos dois modelos” de Estado – o centralizado dos regimes comunistas, e o liberal dos Estados Unidos e de muitos países da Europa Ocidental. “Enriquecia-os e corrigia-os”, concluía.

Há precisamente um mês, em 29 de Julho, o padre jesuíta americano Thomas Reese publicava, na sua coluna no Religion News Service, um texto sob o título “Será o Papa Leão um democrata socialista?” Reese referia-se deste modo à ala esquerda do Partido Democrata (Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez ou o mayor de Nova Iorque, Zohran Mamdani, entre outros). Para muitos nos EUA, falar de socialismo é equivalente a comunismo. Mas, em termos europeus, poderíamos falar da social-democracia de Olof Palme, Willy Brandt ou François Mitterand, Mário Soares ou Sá Carneiro, hoje abastardada e desvirtuada por tendências neoliberais que já pouco têm a ver com essas origens.

Reese não duvida: “Os papas modernos tendem a manter-se afastados da política partidária, mas quando Leão fala, soa certamente como um socialista democrático”. Logo depois: “Tanto o actual Papa Leão como os socialistas-democráticos falam de solidariedade para com os trabalhadores e os pobres. Ambos defendem os direitos dos trabalhadores e sindicatos fortes”.

Ambos, socialistas democráticos e o Papa, estão preocupados com a “mão invisível” do mercado, o bem comum como desígnio da política, o trabalho digno, a inclusão social, a distribuição mais equitativa dos benefícios da inovação, a correcção de desigualdades incluindo nos sistemas fiscais, o acesso universal à saúde ou a defesa da casa comum contra as alterações climáticas. E, por fim, ambos contestam a lógica belicista de Trump, Putin ou Netanyahu, bem como a corrida armamentista na qual a União Europeia também tem entrado.

Não há desacordo? Sim. O pensamento social cristão investe mais na subsidiariedade que no centralismo defendido por alguma esquerda, tal como defende mais o direito à propriedade privada – desde que seja para todos, uma vez que é um direito, como ironizava o sociólogo Alfredo Bruto da Costa.

Em múltiplas ocasiões, o Papa Francisco referiu-se também às coincidências e divergências entre pensamento social católico e social-democracia, marxismo ou mesmo comunismo. Em Novembro de 2016, disse a Eugenio Scalfari, fundador do La Repubblica, que “são os comunistas que pensam como os cristãos: Cristo falou de uma sociedade em que os pobres, os débeis e os excluídos é que decidem”. Dois anos antes, tinha dito ao Il Messaggero que “a bandeira dos pobres é cristã” e que os comunistas a “roubaram”.

Num artigo publicado também em 2014 sobre a doutrina social do Papa Francisco na exortação Evangelii Gaudium, o professor da Universidade do Porto, Paulo Ferreira da Cunha, comentava que a democracia cristã foi, “juntamente com o socialismo democrático, trabalhismo e social-democracia, alguns de inspiração marxista, moderada ou ‘revisionista’, esteio essencial da grande Europa de paz e prosperidade criada no pós-guerra, e obreira, com essas forças, do Estado social europeu”. E acrescentava: “infelizmente utilizamos uma forma verbal pretérita…”

Obviamente, a distância entre o pensamento social cristão e o socialismo democrático cresce em matérias da moral individual como o aborto ou a eutanásia, mas muitas pessoas que são referências em matéria de Doutrina Social da Igreja, como Lourdes Pintasilgo, Manuela Silva, José Dias da Silva, Bruto da Costa, Acácio Catarino ou Eugénio Fonseca (ou Dorothy Day nos Estados Unidos – ver texto principal) alinharam com o Papa Bento XVI: “O socialismo democrático estava e está próximo da Doutrina Social da Igreja.”

Quem diria?

 

Estes textos foram originalmente publicados no Expresso/Revista E, de 28 de Agosto.

 

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