
O Papa na Via-Sacra de Sexta-Feira Santa: O que iria na sua cabeça? Foto © Vatican Media.
Ao participar nesta tarde de Sexta-feira Santa, 02-04-2021, na Via-Sacra transmitida diretamente da Praça de S. Pedro, em Roma, a forte imagem do Papa Francisco no seu semblante fechado e triste, levou-me a refletir sobre o que iria na sua cabeça.
Não se me oferecem grandes dúvidas. Com uma Via-Sacra para a qual o Papa pediu de forma clara e especial a participação das crianças, certamente pelo espírito de Francisco perpassavam as imagens brutais do sofrimento das crianças no mundo que, teimosamente, mantem diferentes frentes de guerra ativas, nas quais normalmente as grandes vítimas mais inocentes são as crianças.
As recentes imagens do Norte de Moçambique não permitem dúvidas. O mundo, apesar de todos os esforços em prática de várias instituições, nomeadamente da recente palavra de Francisco na Fratelli Tutti, mantém núcleos de guerra regionais muito ativos.
Não somos e não nos comportamos como irmãos, como pede Francisco.
Nestas circunstâncias, o silêncio de Sábado poderá ser preenchido com uma oração pela Paz, oração esta que também pode ser rezada em qualquer outro momento, respondendo assim ao apelo de Francisco por um mundo mais fraterno.
O texto que segue pede a Sophia de Mello Breyner parte dum seu poema por ela escrito quando Portugal estava envolvido na guerra colonial; na sua versão completa e original da autora foi então “rezado” por muitos de nós. A parte da oração que foge ao texto inicial da autora foi trabalhado com o apoio de palavras e pensamentos do Papa Francisco.

“Que prossiga em nós a germinação obscura da paz, no mais quotidiano dos gestos.” Foto © Vatican Media.
Oração pela paz
Dai-nos Senhor a Paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos.
Que a tua Palavra nos dê o gosto da Paz, Senhor,
e que prossiga em nós a sua germinação obscura,
no mais quotidiano dos nossos gestos.
Que o sim que dissemos hoje
à visitação da tua Palavra
nos abra ao consentimento do que se olha fundo,
verdadeiro e alto
e que a tua Palavra nos relance
nos caminhos do outro que olha a mesma fonte,
de lugares diferentes e humores diferentes.
Que o tempo que nos deste seja um novo,
Recomeço de esperança e de justiça
Erguei o nosso ser à transparência
para podermos ler melhor a vida;
nas palavras do Papa Francisco “de modo particular
para que respondendo à nossa vocação comum de colaborar com Deus
e com todas as pessoas de boa vontade
para a promoção da concórdia e da Paz no mundo
saibamos resistir à tentação de nos comportarmos
de forma não digna da nossa humanidade”.
Que a tua Palavra nos atire
para a aventura das solidariedades de que se vive
para que a vida seja larga e contagie a sombra.
“O flagelo generalizado da exploração do homem pelo homem, Senhor,
fere gravemente a vida de comunhão e a vocação a tecer
relações interpessoais marcadas pelo respeito, a justiça e a caridade.
Tal fenómeno abominável
que leva a espezinhar os direitos fundamentais do outro
e a aniquilar a sua liberdade e dignidade assume múltiplas formas
sobre as quais desejo deter-me, para que à luz da Palavra de Deus
possamos considerar todos os homens já não escravos mas irmãos.”
Que a tua Palavra nos questione
acerca do sofrer e do chorar insuportáveis,
para que em tudo te acolhamos,
“em tantos trabalhadores e trabalhadoras, mesmo menores
escravizados nos mais diversos sectores, a nível formal e informal,
nas condições de vida de muitos migrantes
que ao longo do seu trajecto dramático padecem a fome,
são privados da liberdade, despojados dos seus bens ou abusados,
nas pessoas obrigadas a prostituírem-se, entre as quais muitos menores,
e nas escravas e escravos sexuais,
em quantos menores e adultos objecto de tráfico e comercialização
para remoção de órgãos, para serem recrutados como soldados,
em todos aqueles que são raptados e mantidos em cativeiro por grupos terroristas,
servindo os seus objectivos como combatentes ou, especialmente,
no que diz respeito às meninas e mulheres, como escravas sexuais”.
Deus que vens em Jesus Cristo, nossa esperança
e no Espírito
hoje e sempre,
fazei Senhor que a Paz seja de todos,
dai-nos a Paz que nasce da verdade
dai-nos a Paz que nasce da justiça
dai-nos a Paz chamada liberdade
dai-nos Senhor a Paz que vos pedimos,
A Paz sem vencedor e sem vencidos
Ámen.

“Erguei o nosso ser à transparência para podermos ler melhor a vida.” Foto © Vatican Media.
Em Sexta-feira Santa, 02-04-2021
Fernando Gomes da Silva é engenheiro agrónomo










