A pedofilia, do fascínio à reprovação

| 10 Mar 19

Capa do “Libération” de sexta-feira, dia 8: o jornal, como muitos sectores sociais, já defendeu a pedofilia, mesmo se hoje a condena.

 

As primeiras páginas das duas edições mais recentes do diário francês Libération concedem um amplo destaque ao tema da pedofilia. Quase metade da primeira página da edição deste fim-de-semana (9-10 de Março) está ocupada por uma fotografia de Michael Jackson e um título: “Pédophilie – Michael Jackson, very very bad”. O pretexto da notícia é um documentário, a exibir em França no dia 21 de Março, que inclui dois testemunhos acusatórios da pedofilia do artista. Antes, na sexta-feira (8 de Março), toda a primeira página era dedicada ao arcebispo de Lyon, cardeal Philippe Barbarin, condenado em tribunal, no dia anterior, por não ter comunicado à justiça os abusos sexuais de menores cometidos pelo padre Bernard Preynat.

Não foi a primeira vez que o jornal colocou o cardeal na primeira página. Há três anos, no dia 17 de Março, a manchete apresentava uma espécie de imprecação, glosando um poema de Jacques Prévert: “Lembra-te, Barbarin”. O título e o texto que o acompanha, que refere “as suspeitas de cobertura de actos pedófilos”, é eloquente da mudança no modo como o jornal foi encarando a pedofilia ao longo dos anos.

É que o Libération, que agora denuncia a pedofilia da Igreja, tinha feito anteriormente o elogio da pedofilia nas suas páginas. O próprio jornal o recordava, no dia 27 de Setembro do ano passado, em Check Newsque pretende ser “um novo tipo de motor de busca gerido por jornalistas”, destinado a ajudar os leitores a distinguir a verdadeira da falsa informação.

Perguntava então um leitor: “Vocês denunciam, e bem, a pedofilia na Igreja, mas não é verdade que o Libération fez, durante muito tempo, o elogio da pedofilia nas suas páginas (se for o caso, não me recordo de ter encontrado qualquer arrependimento nas vossas páginas)? Espero que tenham a coragem de enfrentar o passado”. A resposta foi dada pelo jornalista Cédric Mathiot: “É necessário dizer que sim [que fez a apologia da pedofilia nas suas páginas]. E isso sucedeu até ao início dos anos 80”. A seguir, garante que o Libération se explicou e o lamentou. “Lembra-te, Libération”, sim, mas num espaço bem mais discreto do que uma primeira página.

A pedofilia apresenta-se hoje como algo que é absolutamente repugnante, mas nem sempre foi assim. No final de Dezembro passado, o Le Monde, outro diário francês, tinha dado conta da significativa alteração que, nas últimas quatro décadas, se verificou no modo de a encarar. Havendo quem a considerasse uma fascinante singularidade, a pedofilia era ainda objecto de uma significativa simpatia nos anos setenta do século XX. Para o demonstrar, a jornalista Maïa Mazaurette recordava um abaixo-assinado assaz mediático em defesa de três homens acusados de terem tido relações sexuais com crianças de 13 e 14 anos dos dois sexos.

Entre os subscritores, encontravam-se grandes celebridades da intelectualidade francesa como, por exemplo, os filósofos Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Roland Barthes, Gilles Deleuze, Félix Guattari e André Glucksmann; os escritores Louis Aragon e Philippe Sollers; o encenador e realizador Patrice Chéreau, e os ex-ministros Jack Lang, com a pasta da Cultura num governo de esquerda, e Bernard Kouchner, também fundador dos Médicos Sem Fronteiras, encarregado dos Negócios Estrangeiros num governo de direita. Diziam eles que os acusados estavam a ser vítimas de uma caça às bruxas, chegando a comparar a perseguição à que sofreram os judeus durante a II Guerra Mundial. Se, nessa altura, abundavam os que reclamavam que os três homens que iriam ser julgados em tribunal fossem perdoados pelos actos cometidos, agora, verifica Maïa Mazaurette, a pedofilia é considerada “um dos piores crimes que se possam imaginar”.

 

Quando o abuso de menores se tornou escandaloso

A jornalista comete uma imprecisão, hoje comum, ao considerar a pedofilia como sinónimo de abuso sexual de menores. A pedofilia pode ser uma perversão, mas não implica necessariamente o cometimento de um crime. O Código Penal português coloca o “abuso sexual de crianças” e o “abuso sexual de menores dependentes” sob a alçada dos “crimes contra a autodeterminação sexual”, sem fazer qualquer referência à pedofilia. Do mesmo modo, um indivíduo pode, mais ou menos secretamente, ter vontade de matar, por exemplo, um colega de trabalho, sem que isso faça dele um assassino. Claro que, se se tornar um assassino, é porque a vontade de matar existiu. Do mesmo modo, é improvável que um abusador sexual de menores não seja pedófilo.

É por isso que a pedofilia se torna escandalosa, como diz o título de um livro do sociólogo Pierre Verdrager. Observou ele que, na guerra das ideias, “os pedófilos tinham a seu lado as direitas extremas, que erotizam as relações assimétricas – percebidas como deliciosamente aristocráticas –, mas também uma esquerda que considera necessário libertar a criança do gulag familiar: face ao pater familias  que faz fetiche da progenitura e a inibe, o pedófilo apresenta-se como o salvador heróico da infância”. O sociólogo acrescenta que os condescendentes em relação à pedofilia contavam com um poderoso aliado: Sigmund Freud. Atendendo a que o fundador da psicanálise garantia que a sexualidade existe desde o nascimento, “a maioridade sexual é uma noção idiota. Melhor ainda: se Édipo existe, então, o primeiro objecto de fixação sexual de uma criança é um adulto”.

A pedofilia apenas começa a ser um tema mais tarde. Em 1980, o termo aparece num título de um livro, quebrando-se então, como assinala Maïa Mazaurette, a sua quase invisibilidade. Aos poucos, vai-se afirmando uma nova sensibilidade colectiva. Começa a perceber-se que o consentimento de uma criança não pode ser verdadeiramente “esclarecido”, algo de que hoje não subsistem dúvidas. “Uma criança não tem a maturidade física e emocional face a um adulto ou a um adolescente mais velho para fazer valer o que pretende e para se poder opor ao que não quer. Ela sofre um constrangimento moral”, afirma a psiquiatra Muriel Salmona.

Uma discussão sobre um livro, em 1990, no famoso programa televisivo de Bernard Pivot, coloca em confronto o escritor francês Gabriel Matzneff e a romancista canadiana Denise Bombardier. O diário íntimo escrito pelo francês, com referências a relações com adolescentes de pouca idade, é invectivado pela canadiana. A tolerância em relação à pedofilia estava a diminuir. E é também nos anos 90 do século passado que se torna repugnante, para o que contribuiu o caso terrível, ocorrido em 1996, do rapto e violação de seis raparigas e o assassinato de quatro delas pelo pedófilo belga Marc Dutroux, condenado a prisão perpétua. Era a viragem definitiva. Os pedófilos tornaram-se abomináveis.

Maïa Mazaurette acrescenta, todavia, outro aspecto. Citando Sophia Leventidi, especialista em literatura comparada, chama a atenção para a circunstância de, ao mesmo tempo que emerge uma reprovação sem precedentes contra os pedófilos, se ver, “por todo o lado, uma infância sexualizada”. A infância é, simultaneamente, “sagrada e altamente erotizada”. “Entre puberdades precoces, cosméticas para rapariguinhas e celebração dos corpos frágeis, a vigilância impõe-se”, escreve a jornalista, que deixa para o fim uma pergunta: “E se fosse, nos ecrãs e na publicidade, que se apresentasse hoje a pedofilia que não queremos ver?”

(Uma versão reduzida deste texto foi publicada no Diário do Minho de 3 de Março)

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