A pergunta que temos de fazer… e a resposta que muda tudo

| 22 Fev 2024

Pessoas observam edifício em chamas, após um bombardeamento. na Ucrânia Foto © UNICEFAleksey Filippov

Enquanto a atenção do mundo se concentra na Terra Santa, as forças militares russas prosseguem os bombardeamentos em inúmeras cidades ucranianas. Foto © UNICEF/Aleksey Filippov

 

Se há dois anos, precisamente no dia 23 de fevereiro, alguém me tivesse dito: “A Rússia está prestes a invadir a Ucrânia. E não estou a falar das regiões de Donetsk e Lugansk, onde o conflito já se arrasta desde 2014… Não. Na próxima madrugada, militares russos vão entrar de forma massiva na Ucrânia e espalhar-se por todo o território… e até a capital, Kiev, será bombardeada!”, eu não teria acreditado. Por não perceber nada de geopolítica? Por ingenuidade? É verdade que as relações internacionais não são o meu forte, e que não acho que o Inferno esteja cheio de boas intenções – acho mesmo que ele está vazio. Mas aposto que, ingénuos ou não, muitos não teriam acreditado.

Há dias, conversava com Iryna, uma refugiada ucraniana que viveu durante onze meses com os dois filhos pequenos num centro de acolhimento perto da minha casa, e de quem me tornei amiga. Ela própria, num misto de tristeza e incredulidade, dizia, referindo-se à guerra no seu país: “Como é que é possível isto estar a acontecer? Às vezes, acordo e, por breves instantes, ainda penso se tudo não terá passado de um enorme pesadelo…”.

Infelizmente, é a realidade. A invasão aconteceu. Passaram dois anos e continua a acontecer. E, ao contrário de Iryna, muitos de nós já nem nos espantamos com isso… Sabemos o que se passa. Será que estamos, literalmente, tão fartos de saber que já ousamos não querer saber?

Cada vez que falo com Iryna, percebo que – além de carregar consigo um sofrimento que só quem vive uma situação destas pode verdadeiramente compreender – sente uma enorme gratidão para com Portugal e os portugueses. Ela que permaneceu com o marido e os filhos na Ucrânia durante ainda quase dez meses depois daquela madrugada em que despertaram em sobressalto ao som dos primeiros bombardeamentos; ela que nos dias e semanas seguintes tentou convencê-los – e a si própria – de que a paz seria rapidamente reposta; ela que se sabia, apesar de tudo, privilegiada, pelo facto de o marido, advogado numa multinacional, não ter de ir para a frente de guerra; ela que só decidiu abandonar o país quando tomou consciência de que afinal a guerra não ia acabar assim tão depressa, e de que não podia continuar a sujeitar os seus filhos – então com cinco e sete anos – a viverem fechados na cave de casa, com medo e com frio, depois de o último gerador que conseguiram comprar a custo se ter avariado.

Quando chegou a Portugal, em dezembro de 2022, naquele que foi o último voo humanitário a trazer refugiados ucranianos para o nosso país, Iryna surpreendeu-se com o inverno muito mais ameno, mas sobretudo com o calor humano com que foi recebida. No centro de acolhimento, já tinham um quarto preparado para ela e para os filhos, ajudaram-na a inscrevê-los na escola, deram-lhes roupas, livros e brinquedos, proporcionaram-lhes aulas de português e passeios para conhecer um pouco melhor a região. Em pouco tempo, fez amigos ucranianos, portugueses e até russos, e alguns meses mais tarde o marido – que tinha permanecido ainda na Ucrânia – conseguiu juntar-se a eles.

Se o sofrimento foi diminuindo? Nem por isso. Por um lado, porque a situação em Portugal se complicou. No final do verão, souberam que o centro de acolhimento teria de mudar de instalações para Ourém e, como já tinham as crianças integradas na escola, quiseram permanecer na mesma localidade. Mas encontrar casa a um preço minimamente acessível ou beneficiar do apoio do Programa Porta de Entrada revelou-se uma tarefa impossível. Acabaram por ter de mudar-se na mesma, e transferir as crianças de escola. Mas pelo menos continuaram perto de Lisboa, onde têm agora esperança de ser bem-sucedidos num desafio que também se tem apresentado muito difícil: encontrar trabalho.

Por outro lado, a situação na Ucrânia – onde deixaram familiares, amigos, e o seu povo – preocupa-os cada vez mais. E temem – sem que isso belisque o sentimento de gratidão para com Portugal e com todos os que têm apoiado, de alguma forma, o seu país – que o mundo esteja a esquecer-se deles.

O arcebispo de Cantuária, Justin Welby, a quem tive a oportunidade de fazer uma entrevista para o 7MARGENS, na sua recente vinda a Lisboa, esteve na Ucrânia há duas semanas. E explicou-me que decidiu regressar àquele país, onde já tinha estado em 2022, “porque a situação mudou. Particularmente desde outubro, a atenção do mundo tem estado concentrada na Terra Santa, e eu quis dizer aos ucranianos: ‘Vocês não estão esquecidos. Pensamos em vocês, rezamos por vocês, lembramos as pessoas de vocês.’

Um dos momentos que mais o marcaram nesta viagem aconteceu em Odessa – a quarta maior cidade ucraniana, e onde Iryna e a família viviam. Ali, o líder espiritual da Comunhão Anglicana conheceu uma senhora idosa, que tinha acabado de ser evacuada de uma aldeia próxima, na sequência de mais um ataque das forças militares russas. “A filha, de 50 anos, tinha morrido no bombardeamento e ela, quando falou comigo, ainda tremia do choque da tragédia. Eu estava de joelhos diante dela, a questionar-me o que poderia dizer-lhe… Gostava de ter uma resposta que mudasse tudo! Mas a única coisa que pude fazer foi pegar nas suas mãos e chorar com ela”, contou Justin Welby.

Eu diria que o seu gesto foi essa resposta. Não só para aquela senhora, mas também para muitos de nós, que perante as imagens de sofrimento atroz de tantos inocentes, somos levados às velhas perguntas: “E Deus não faz nada?”, “Onde está Ele?”, “Porque é que permite tanto sofrimento?”. Uns colocam-nas humildemente, lutando com a dificuldade de aceitar e compreender o sentido de tanta dor, outros fazem-nas zangados e revoltados, outros ainda quase em tom vitorioso de quem encontrou mais uma excelente prova de que Deus, ou não existe, ou é um velho rancoroso e vingativo. Esquecemo-nos tantas vezes de dar graças por esse dom maior que é a nossa liberdade. E de assumir a responsabilidade que ela acarreta.

Não digo que estas perguntas não sejam compreensíveis. Mas há outra, mais importante: “Porque é que nós permitimos esse sofrimento?”. Creio que Welby a colocou e por isso regressou à Ucrânia, em vez de esquecer ou desviar o olhar, como tantos temos feito. E no seu encontro com aquela idosa encontrou a tal “resposta que muda tudo”: escutando-a, ajoelhando-se diante dela e do seu sofrimento, tomando-lhe as mãos nas suas e chorando com ela. Regressando e contando a sua história.

Curiosamente, no mesmo dia em que ma contou, dezenas de jovens – sobretudo russos – mostraram também já saber a resposta. Juntaram-se em frente à Embaixada da Rússia em Lisboa e prestaram homenagem a Alexei Navalny, o opositor do Kremlin declarado morto horas antes. Junto a uma árvore, colocaram flores, velas e cartazes com mensagens como “Alexei foi assassinado por Putin”, “Não vamos desistir”, “Libertem os presos políticos” ou “Rússia vai ser livre”.  Ao centro, havia um que se destacava, por ser maior, ter a fotografia de Navalny e uma citação sua. Dizia: “Não basta apenas ‘ser’ contra a guerra. É preciso lutar contra a guerra”. Pensei: Deus não diria melhor. E que o Inferno só pode mesmo estar às moscas.

Homenagem a Navalny, junto à Embaixada da Rússia em Lisboa. Foto Lino Gomes7MARGENS

Homenagem a Navalny, junto à Embaixada da Rússia em Lisboa. Ao centro, um cartaz que diz: “Não basta apenas ‘ser’ contra a guerra. É preciso lutar contra a guerra”. Foto © Lino Gomes/7MARGENS

 

P.S. – Para aqueles que queiram fazer parte da mudança e possam estar em Lisboa neste fim de semana, sugiro duas iniciativas de que o 7MARGENS dá conta.

 

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