Foi há 150 anos que teve lugar em Lisboa um evento ambicioso que ficaria para a história como as “Conferências do Casino”, que muito incomodaram o rei, o Governo e a Igreja Católica. Como sempre, são os jovens que desencadeiam as revoluções.

“O facto é que as Conferências do Casino provocaram estardalhaço público desde o momento inicial, apesar de funcionarem como instrumento pedagógico”. Foto: retirada do vídeo “Suspensão Conferências do Casino”. RTP Ensina
Foi em Maio de 1871 que um grupo de jovens portugueses, escritores e intelectuais como Antero de Quental, Eça de Queiroz, Oliveira Martins e Teófilo Braga, se movimentaram para desencadear um debate sobre o atraso do país e reflectir sobre os graves problemas políticos e sociais do Portugal da época. Pretendiam ainda dissertar sobre os novos tempos e ideias que sopravam do continente mas que não faziam eco por cá, esta terra à qual o rei chamava sarcasticamente “a piolheira”.
As dez conferências previstas para o Casino Lisbonense, a que chamaram democráticas, ficaram pela metade, pois a 26 de Junho chegou uma ordem governamental no sentido da sua proibição, o que impossibilitou a realização das restantes: “tendo chegado ao conhecimento de Sua Majestade (…) que no Casino Lisbonense (…) se celebram uma série de preleções em que se expõem e procuram sustentar doutrinas e proposições que atacam a religião e as instituições políticas do Estado, e sendo certo que tais factos, além de constituírem um abuso do direito de reunião, ofendem clara e diretamente as leis do reino e o código fundamental da monarquia, (…) determina (…) que o governador civil de Lisboa não consinta as referidas reuniões e conferências (…) sob pena de se proceder contra os transgressores na conformidade das leis”.
O acto censório assinado pelo primeiro-ministro e ministro do Interior, marquês de Ávila e Bolama, pretendia impedir a difusão de novas ideias políticas, consideradas subversivas para os interesses do Estado, da monarquia e da religião.
A reacção foi violenta e deu origem a uma polémica na imprensa da época entre os defensores da liberdade de expressão e de reunião e os apoiantes do Governo monárquico, e aprofundou o fosso entre a Geração de 70 e o segmento mais conservador da sociedade, que já vinha desde a polémica literária conhecida como a Questão Coimbrã (1865-1866), quando Antero de Quental se destacara na crítica à literatura ultrarromântica.
O Portugal do século XIX via assim lançado sobre a mesa um importante movimento de renovação cultural, através de um conjunto de críticos do sistema que “defendiam uma nova estética, uma nova literatura e uma nova ciência social e política”, que queria discutir assuntos como a Associação Internacional dos Trabalhadores, a experiência governativa espanhola resultante da Revolução de 1868, o processo de unificação da Itália e a Comuna de Paris.
O facto é que as Conferências do Casino provocaram estardalhaço público desde o momento inicial, apesar de funcionarem como instrumento pedagógico. Tomadas como um dever de consciência, agitaram e despertaram a opinião pública com vista à transformação das mentalidades por via da livre reflexão mas sem pretender doutrinar. A palestra do jovem poeta Antero, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos, tornou-se mesmo um dos textos mais influentes da cultura portuguesa durante a fase final do regime monárquico, por confrontar o espírito conservador que pontificava no país. Em “Revisitação da Mitologia Anteriana” Eduardo Lourenço chamou-lhe o “acto fundador” da cultura portuguesa moderna, mas acrescenta que o texto “em última análise, nunca foi, por assim dizer, lido. Lido, quer dizer, integrado, incorporado, mesmo através de uma recusa fundamentada e assumida, pelo ‘corpo cultural’ do tempo português de então que ele punha tão apaixonadamente em causa.”
Nele se apelava ao respeito pela memória dos antepassados mas também à recusa da sua imitação em nome do espírito moderno. Apelava-se a trocar o velho catolicismo conservador pela “consciência livre” e a afirmação duma “alma nova”; a monarquia centralizadora e impotente pela república e o municipalismo democrático; a inércia industrial pelo “novo mundo industrial do socialismo”. Segundo Antero, assim como o cristianismo tinha sido a resposta para a decadência do império romano, havia que encontrar uma resposta para a decadência deste país no mundo moderno. Mas em vez de ousar entrar no debate das ideias o poder optou pela censura.
A “piolheira” existia, mas não se podia falar dela.
Se as Conferências do Casino não tivessem servido para mais nada serviram ao menos para que, na sequência da atitude discricionária do Governo, o assunto ter subido à Câmara de Deputados e a oposição servir-se da polémica pública instalada, causada pela inopinada proibição das Conferências, para o deitar abaixo. Foi talvez o primeiro dia do resto da história da monarquia lusitana.
Mal sabia a Geração de 70 que as nações europeias perderiam os seus impérios, que viria a globalização e que o país, agora republicano, integraria hoje uma União Europeia, muito embora ainda esteja muito por fazer em matéria de coesão, de desenvolvimento e de justiça social.
José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.








