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Guilherme d'Oliveira Martins

Entre Margens

A pobreza – prioridade social

 

Com grande oportunidade, o Papa Leão XIV acaba de publicar uma importante Exortação Apostólica sobre o cuidado da Igreja pelos pobres e com os pobres, intitulada Dilexi te, imaginando Cristo a dirigir-se a cada um desses pobres dizendo: Tens pouca força, pouco poder, mas «Eu te amei» ( Ap 3, 9)». O Papa Leão XIV, ao receber essa herança do Papa Francisco, que preparava este documento quando partiu, assumiu-o como seu, sentindo-se feliz nessa condição, acrescentando algumas reflexões no início do seu pontificado e partilhando o desejo do seu antecessor no sentido de que todos os cristãos possam perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o chamamento a tornarmo-nos próximos dos pobres. Na verdade, é necessário insistir neste caminho de santificação, porque no «apelo a reconhecê-Lo nos pobres e atribulados, revela-se o próprio coração de Cristo, os seus sentimentos e as suas opções mais profundas, com os quais se procura configurar todo o santo». A Exortação apostólica, datada do dia da memória litúrgica de S. Francisco de Assis, 4 de outubro de 2025, constitui um documento de grande relevância, sobretudo para o momento atual, uma vez que põe a tónica no reconhecimento do outro como complemento de nós mesmos, com especial relevância para os pobres. E nota-se uma especial preocupação em encontrar novas pistas no sentido de ligar a luta contra pobreza e a provação com o desenvolvimento humano e a busca da universal dignidade da pessoa humana.

O Papa Leao XIV na Praça de São Pedro, na audiencia geral de 30 julho 2025. Foto Vatican Media

“O Papa Leão XIV, ao receber essa herança do Papa Francisco, que preparava este documento quando partiu, assumiu-o como seu, sentindo-se feliz nessa condição (…)”  Foto Vatican Media


O Papa Francisco, ao recordar a escolha do próprio nome, contou que, após a sua eleição, um Cardeal amigo abraçou-o, beijou-o e disse-lhe: «Não te esqueças dos pobres!». É a mesma recomendação feita pelas autoridades da Igreja a São Paulo quando subiu a Jerusalém para verificar a sua missão. E o Apóstolo pôde afirmar anos mais tarde: «foi o que procurei fazer com o maior empenho». Trata-se da mesma escolha de São Francisco de Assis: no leproso, foi o próprio Cristo que abraçou, transformando a sua vida. Assim, a figura luminosa do Poverello jamais deixa de ser inspiradora. E devemos recordar ainda as palavras de S. Paulo VI: «Aquela antiga história do bom samaritano foi exemplo e norma segundo os quais se orientou o nosso Concílio». Deste modo, «pode dizer-se que o compromisso em favor dos pobres e pela erradicação das causas sociais e estruturais da pobreza, embora tenha adquirido maior importância nas últimas décadas, continua a ser insuficiente; até porque as sociedades em que vivemos privilegiam, com frequência, linhas políticas e padrões de vida marcados por numerosas desigualdades e, por isso, às antigas formas de pobreza que (…) se procuram combater, acrescentam-se outras novas, por vezes mais subtis e perigosas». Compreende-se por isso que as Nações Unidas tenham colocado a erradicação da pobreza como um dos objetivos do Milénio.

Preocupam as graves condições em que vivem muitíssimas pessoas, devido à escassez de alimentos e água potável. Todos os dias morrem milhares de pessoas por causas relacionadas com a falta de alimentos. Nos países ricos, as estimativas relativas ao número de pobres são preocupantes. Na Europa, há cada vez mais famílias que não conseguem chegar ao fim do mês. As diferentes manifestações da pobreza estão a aumentar, não são únicas nem homogéneas, e manifestam-se através de múltiplas formas de empobrecimento económico e social, correspondendo a crescentes desigualdades. Acresce que «duplamente pobres são as mulheres que padecem situações de exclusão, maus-tratos e violência, porque frequentemente têm menores possibilidades de defender os seus direitos. E, todavia, também entre elas, encontramos continuamente os mais admiráveis gestos de heroísmo quotidiano na defesa e cuidado da fragilidade das suas famílias» – como afirmou o Papa Francisco na Encíclica Evangelii Gaudium. Contudo, «a organização das sociedades em todo o mundo ainda está longe de refletir com clareza que as mulheres têm exatamente a mesma dignidade e idênticos direitos que os homens. As palavras dizem uma coisa, mas as decisões e a realidade gritam outra, especialmente se pensarmos nas mulheres mais pobres», como recorda Fratelli Tutti.

seca e fome no quénia foto OchaCharlotte Cans

“Preocupam as graves condições em que vivem muitíssimas pessoas, devido à escassez de alimentos e água potável. Todos os dias morrem milhares de pessoas por causas relacionadas com a falta de alimentos.” Foto: Seca e fome no Quénia. © Ocha Charlotte /CANS (The Child and Adolescent Needs and Strengths)

Para além dos dados – que por vezes são “interpretados” tentando convencer que a situação dos pobres não é tão grave assim –, o quadro geral é bastante claro: «Há regras económicas que foram eficazes para o crescimento, mas não são de igual modo para o desenvolvimento humano integral. Aumentou a riqueza, mas sem equidade, e, por isso, nascem novas pobrezas. Quando se diz que o mundo moderno reduziu a pobreza, usa-se uma medida doutros tempos não comparáveis à realidade atual. Por exemplo, noutro tempo não ter acesso à energia elétrica não era considerado um sinal de pobreza nem causava grave incómodo. Contudo, «a pobreza sempre se analisa e compreende no contexto das possibilidades reais dum momento histórico concreto». Num documento da União Europeia de 1984, afirmava-se considerar «pessoas pobres os indivíduos, as famílias e os grupos de pessoas cujos recursos (materiais, culturais e sociais) são de tal modo débeis que os excluem de um tipo de vida minimamente aceitável no Estado-membro em que vivem». Todos os seres humanos têm, porém, a mesma dignidade, independentemente do local de nascimento ou das grandes diferenças que existem entre países e regiões.

De facto, os pobres não existem por acaso e a pobreza não é uma escolha, para a maioria deles. E não podemos dizer que a maioria dos pobres está nessa situação por falta de méritos. Não devemos aceitar uma falsa visão da meritocracia, segundo a qual só tem mérito quem tem sucesso na vida. Em lugar de uma ideia assistencialista, importa assumir uma ideia de diferenciação positiva, segundo a qual à igualdade de oportunidades deve acrescentar-se a correção das desigualdades. Não basta cuidar da equidade no ponto de partida, a realização da justiça deve ser permanente, correspondendo ao serviço dos outros e à partilha de cuidados e responsabilidades.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

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