
José Rui Teixeira na Antena 1: “A poesia serve para tudo e não serve para nada.” Foto © António Marujo/7MARGENS
Limar as unhas do diabo é uma empreitada que se pode transformar num verso de poema. Pelo menos, assim pensou o poeta das Astúrias Martín López Vega, que estudou literatura portuguesa na Universidade do Minho e descobriu uma “relação das obras de 1853 no Bom Jesus” de Braga que transformou em poema, publicado em Nicole e a Chuva: “Recolocar uma estrela caída./ Um galo novo para São Pedro e pintar a crista./ Pôr uma pedra na funda de David./ Dourar e pôr penas novas na asa esquerda do Anjo da Guarda./ Brincos novos para a filha de Abraão./ Adornar a Arca de Noé./ Correção dos dez mandamentos./ Renovar o céu e lavar a lua./ Retocar o purgatório e acrescentar almas novas./ Avivar as chamas do inferno e vários arranjos nos condenados./ Limar as unhas do Diabo.”
“A poesia serve para tudo e não serve para nada. É sempre muito angustiante quando colocamos a pergunta” sobre a sua utilidade, “porque ela traz uma pequena malícia, a malícia do mundo pragmático em que nós vivemos e a utilidade das coisas”, comenta José Rui Teixeira, editor da Officium Lectionis, em entrevista ao último programa 7MARGENS na Antena 1.
A editora, surgida há quatro anos, em plena pandemia, publicou até ao momento mais de 70 títulos de obras de poesia ou de ensaios sobre poesia e literatura. “Às vezes perguntam-me se [a poesia] salva o mundo; eu acho que não; mas salva o dia, salva o momento. Há uma redenção que a poesia possibilita, alertando-nos para a importância tão tremenda das coisas que não são necessariamente úteis.”
Nascido no Porto em 1974, José Rui Teixeira licenciou-se em teologia, fez mestrado em filosofia e doutorou-se em literatura. Dirige a Cátedra de Sophia Poesia e Transcendência, na Universidade Católica Portuguesa/Porto, integra centros de investigação na Europa e na América Latina. Além de dirigir o Colégio Luso-Francês no Porto, é também ele próprio poeta e ensaísta.
Para lá de López Vega, a Officium publicou já obras das galegas Nieves Neira Roca, Chus Pato ou Miriam Reis, do venezuelano José Antonio Ramos Sucre, do argentino Hugo Mujica e da alemã Hilde Domin, que morreu em 2006.
Ramos Sucre, sobre quem José Rui Teixeira fez uma pós-graduação em Salamanca, suicidou-se em 1930, aos 40 anos, “o que é absolutamente perturbador, porque vivia um pesadelo na vida”, com “insónias que tornavam quase insuportável a sua vida”, explica o editor. A sua obra, tida como uma das “maiores da América do Sul”, traduz “uma poesia muito densa”, escrita em prosa, “muito marcada pelo simbolismo e por um romantismo muito intrincado”.
Num dos poemas, “A vingança do Deus”, Ramos Sucre escreve: “Aqueles homens recebem a missão da virtude com insolência e excessos e pagam ao enviado com momentos de morte ignominiosa. O Deus castiga-os aumentando a riqueza da Terra que mancham. Nutre-a de tesouros fatais que revelam a cobiça, que dividem o povo em irados bandos de ricos e de pobres. As novas dádivas infestam-na de ódios vingativos e povoam-na de ossos expiatórios.”
Uma poesia também política, que “denuncia muito alguns sinais do seu tempo”, diz o editor. Mas “esta reivindicação de espaços como o sociopolítico, também o económico, até o religioso aparecem na poesia de Ramos Sucre de um modo muito velado, muito intensificado por narrativas estranhas, muito imagéticas.”
Hugo Mujica: “Uma poesia de resistência do humano”.
Outro dos nomes destacados do catálogo, e sobre o qual se fala também na entrevista, é o argentino Hugo Mujica. De ascendência espanhola basca, judia sefardita e siciliana, começou a trabalhar como operário aos 13 anos, foi sindicalista, desertou do serviço militar, viajou, tornou-se monge trapista e acabou padre católico. Hoje com 82 anos, Mujica escreve: “A vida não cabe na vida/ por isso sempre,/ em algum lugar, ela parte-se-nos.”
Esta é uma poesia de “resistência do humano”, diz o editor da Officium. “Resistência à banalidade intranscendente que contamina tudo, como diria José Tolentino Mendonça, resistência a esta desumanização lenta e progressiva que faz com que não percebamos que estamos muito longe (…) daquilo que somos chamados a ser.”
O catálogo da editora inclui ainda a publicação da poesia integral de importantes nomes como Guilherme de Faria, António Pedro, António Nobre ou Teixeira de Pascoaes. “Pascoaes, saudosismo e escatologia” foi o tema da dissertação de José Rui Teixeira em teologia. O que o faz estabelecer uma relação entre poesia e teologia: “O acontecimento poético era um acontecimento do qual eu não dissociava a expressão da minha espiritualidade, ou seja, a minha vivência deste lugar, de um lugar mais íntimo ou menos íntimo para a transcendência.”
Pascoaes – que escreveu também biografias romanceadas de São Paulo, Santo Agostinho ou São Jerónimo – chegou-lhe pela via do “saudoso doutor Ângelo Alves, presbítero da diocese do Porto e grande especialista” no poeta de Amarante, que “entrou como leitura nesse espaço, nessa caixa de ressonância que foi a teologia”. Com dois volumes já publicados da sua poesia, José Rui Teixeira considera-a uma obra “marcadamente espiritual, também ela gnóstica” – uma dimensão que se revela, por exemplo, num dos seus grandes poemas, “Jesus e Pã”, remetendo para uma espécie de diálogo entre Jesus e o deus dos bosques da mitologia grega. “A visão de Pascoaes também passa pela alegria da ressurreição, dessa Páscoa da natureza e simultaneamente a Páscoa da criação inteira”, explica o editor da Officium.
“O saudosismo tem esta visão muito intensificada, da existência nas suas múltiplas dimensões e esse sofrimento, essa dor, este olhar a Cruz faz parte do processo de redenção, não apenas na perspetiva cristã – quantas vezes fazemos essa leitura? É uma leitura que não é descabida, é um olhar sobre o mundo, uma tomada de consciência sobre a vida, que não pode legitimamente prescindir do sofrimento e da dor e da morte. Sem elas será impossível perspectivar as outras dimensões, as mais luminosas, a alegria, a ressurreição.”
Pentateuco das Passagens, um dos títulos de Joaquim Félix de Carvalho publicados na Officium: “Plataformas de graus de trans-imanência”.
A poesia moderna pode estabelecer relação com o sagrado? E a literatura, mesmo quando não tem nenhuma vinculação confessional, pode propor um “caminho para lá daquilo que é a sua evidência”? Autores como Guerra Junqueiro, Antero de Quental ou José Saramago podem contribuir para esse caminho? “Junqueiro, Saramago ou Antero de Quental são autores que nos provocam o sentimento de Deus ou esta angústia da sua ausência, que é muito própria dos místicos”, diz José Rui Teixeira. “Temos aquela ideia errada de que o místico é alguém que goza da presença de Deus em todos os seus pensamentos e é exatamente o contrário: é alguém que sofre tremendamente pela ausência, pelo deserto que atravessa. O místico é alguém que vive a presença de Deus no mistério profundo da consciência da sua ausência ou do sentimento da sua ausência.”
Antero, Junqueiro ou Saramago fazem “grandes provocações que nos fariam desinstalar e olhar o problema de Deus e o problema do Homem de um modo de um modo mais aberto, mais interrogativo, seguramente mais fiel àquilo que é a grande interrogação histórica do Homem em relação a Deus que o cristianismo corporiza”, acrescenta José Rui.
Entre os nomes portugueses da Officium, além dos já referidos, estão os do próprio José Rui Teixeira, além de Carlos Alberto Braga, Ilda Figueiredo, Jaime Rocha, Joaquim Félix de Carvalho, Jorge Melícias, Luís Soares Barbosa, Maria Eulália de Macedo, Rui Nunes, Ruy Ventura, Sandra Costa, Valter Hugo Mãe e, mais atrás no tempo, Frei Agostinho da Cruz.
Sobre Joaquim Félix de Carvalho, padre responsável do Seminário de Braga, dinamizador da construção das novas capelas Árvore da Vida e da Imaculada, e colaborador regular do 7MARGENS, o editor refere vários dos seus poemas como um diálogo entre a realidade física e a realidade metafísica “ao ponto de criar plataformas de graus de trans-imanência”.

José Rui Teixeira: “Criar uma editora num tempo instável é quase um desafio de ironia”. Foto © António Marujo/7MARGENS.
O livro Longos Dias, Breve o Medo, de Luís Soares Barbosa, inclui o poema “O rapaz de Alepo”: “era novo ainda,/ mas sua vontade usada,/ daquelas que não se cruzam com vez nenhuma/ e nem a própria sombra habitam.// percebeu, por fim, que não havia regresso aonde voltar.”
“Este livro concreto fala de muitas viagens. É um livro de muitos lugares, e mais que tudo, parece-me uma espécie de epiderme que está à volta de tudo, de película. No fundo é o olhar do poeta sobre o mundo, um olhar compadecido, um olhar transtornado, um olhar comovido”, diz José Rui Teixeira. “Ao resgatar estas imagens do mundo que é o seu mundo e transformando-as em poesia, também as eterniza”, num poema “magnífico” e “belíssimo.”
Sobre a criação da Officium Lectionis, José Rui Teixeira diz que o nome da editora “remete para a ideia de ofício de leitura e para a ambiguidade”. E acrescenta: “Criar uma editora que fosse fundamentalmente de poesia, num tempo instável”, marcado pela pandemia e por “crises económicas subjacentes à instabilidade política e militar no mundo” é “quase um desafio de ironia”.
Os livros da Officium estão à venda em várias livrarias seleccionadas, pelo país (mas não nas grandes cadeias) ou na página da editora na internet.
Nas suas sugestões finais, o editor da Officium propõe o artigo do 7MARGENS “A retórica inconsequente dos bispos – uma leitura” e a audição do disco Cinema, de Rodrigo Leão. “É um álbum muito marcante na discografia do compositor português. É um álbum admirável.
A entrevista pode ser ouvida na íntegra na RTP Play: https://www.rtp.pt/play/p12257/e784438/7-margens











