A Poesia na Rua

| 18 Abr 2024

Cartaz da autoria de Maria Helena Vieira da Silva, intitulado A Poesia Está na Rua

Cartaz da autoria de Maria Helena Vieira da Silva, intitulado “A Poesia Está na Rua”.

Um dos mais memoráveis cartazes de exaltação do 25 de Abril, da autoria de Maria Helena Vieira da Silva, anunciava: “A Poesia está na Rua”. O cartaz é, de facto, extraordinário e não envelheceu, ainda que este não seja um tempo em que se possa propriamente dizer que a poesia está na rua. De resto, ao contrário do cartaz, os livros de poesia que abundantemente se leram em 1974 já não estão acessíveis e as vozes poéticas outrora escutadas atentamente foram sendo esquecidas, injustificadamente tantas vezes.

É muito pouco provável que alguém consiga encontrar hoje nas livrarias portuguesas uma qualquer obra de Thiago de Mello (1926-2022) e, no entanto, o poeta brasileiro foi um dos autores mais lidos em Portugal após o 25 de Abril de 1974. O Círculo de Poesia da Moraes Editores editou em Janeiro de 1975 Canto do Amor Armado, que inclui um dos mais célebres poemas dos primeiros anos da democracia. Circulou amplamente, reproduzido em postais e em posters, e foi escrito há, cumprem-se este mês, 60 anos, após o golpe militar que instaurou uma ditadura no Brasil. Intitula-se “Os Estatutos do Homem”. Se redigidos hoje, os “Estatutos” seriam, talvez, “do Homem e da Mulher”, ou “do Humano”.

 

OS ESTATUTOS DO HOMEM

Artigo 1.
Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo 2.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo 3.
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo 4.
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo 5.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo 6.
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo 7.
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo 8.
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo 9.
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.

Artigo 10.
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo 11.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama,
e que por isso é belo,
muito mais belo do que a estrela da manhã.

Artigo 12.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
Tudo será permitido,
sobretudo brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begónia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo 13.
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
ou como a semente do trigo,

e a sua morada será sempre
o coração do homem.

 

No obituário de Thiago de Mello, Luís Miguel Queirós indicou que “Os Estatutos do Homem”, “um dos mais divulgados poemas brasileiros contemporâneos”, foi traduzido em mais de 30 línguas e a sua divulgação em Portugal, um dos diversos países em que o poeta viveu, é anterior ao 25 de Abril.

O livro Canto do Amor Armado reproduz as dedicatórias incluídas na edição brasileira, na edição argentina e na edição portuguesa, “que aparece no momento, / grandioso para a causa da libertação do homem, / em que a manhã lava de luz / o coração de Portugal”. Thiago de Mello oferece a obra “ao infinitamente generoso / povo português, / que depois de um largo tempo de trevas / reencontra o seu caminho, sua vocação luminosa, / e aprende publicamente a lição da Liberdade. / E a liberdade ensina, por sobre todas as coisas, / que, depois de erguida a aurora, / é que começa o trabalho / verdadeiramente áspero e difícil: / o da construção do dia. / Trabalho de todos e de cada um, / mas principalmente de quem vai na vanguarda, / abrindo o rumo. / E que tem de ser feito / com a cabeça / com o coração / e também com os punhos.”

Apresentado como uma recolha das melhores poesias do autor, o volume começa com dois textos programáticos, integralmente escritos em maiúsculas, sobre ser preciso trabalhar pela alegria geral e cantar a liberdade.

O primeiro ciclo de poemas intitula-se “Ainda é tempo”. É um conjunto de inéditos. de que consta “É preciso fazer alguma coisa”. Escrito em Setembro de 1974, tem a particularidade de incluir uma alusão ao Portugal democrático, à “nova madrugada lusitana”. Começa assim:

Escrevo esta canção porque é preciso.
Se não a escrevo, falho com o pacto
que tenho abertamente com a vida.
É preciso ajudar o homem.
Agora.

Ajudar, eu insisto, agora mesmo.
Cada vez mais sozinho e mais feroz,
o homem está perdido em seu caminho.
É preciso fazer alguma coisa
para ajudá-lo.

Ainda é tempo, é tempo.

Falando do homem, do “homem autómata, / servo soturno do seu próprio mundo, / como um menino cego, só e ferido, / dentro da multidão”, Thiago de Mello escreve:

É preciso fazer alguma coisa,
livrá-lo dessa sedução voraz
da engrenagem organizada e fria
que nos devora, a todos, a ternura,
a alegria de dar e receber,
o gosto de ser gente e de viver.

É preciso ajudar.
Porém primeiro,
para poder fazer o necessário,
é preciso ajudar-me, agora mesmo,
a ser capaz de amor – de ser um homem.
Eu que também me sei ferido e só,
mas que conheço este animal sonoro
que profundo e feroz reina em meu peito.

 

É preciso ajudar, sim. Ajudar quem gostaria que a poesia estivesse na rua, que a alegria fosse um privilégio de todos. Ajudá-los contra os que lubrificam a máquina do cinismo e do ódio. É preciso ajudar os que, como em todos os tempos, persistem na esperança de justiça e claridade.

 

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