Uma posição abriu. Uma pessoa candidata-se a uma posição. A pessoa tem uma posição. A pessoa quer subir de posição. Esta é uma nomenclatura que não existiu na minha infância. Os adultos tinham um trabalho. No trabalho trabalhavam. Os pais tentavam ir aproximando-se de casa, mudando o local de trabalho, de escola no caso. O trabalho era necessário, nem sempre agradável, mas estruturador da vida e da sociedade.

Jogo da Glória feito pela família e em família. Foto © Inês Patrício
Penso que a designação da posição entrou na minha vida pelas minhas pessoas ligadas à ciência. E a verdade é que eu continuo sem lhe encontrar grande jeito. Associo posição a coisa parada, situada, estacionada. Quase como se fosse o objetivo, em si, estar ali, naquela posição.
Se eu considerar que tenho uma posição no meu trabalho, parece que significa sempre que sei o que me compete e que faço isso, o que me compete. Mas acontece que, tendo eu alguma responsabilidade, nunca sei bem o que me compete. Quais as fronteiras do que me compete? Para bem e para o mal, porque também já ouvi muitas críticas, eu estou frequentemente bem baralhada, bem desarrumada nas tarefas que me cabem na cadeia das posições.
E assim surge uma outra palavra que é função. Eu tenho uma função e alguma hierarquia de responsabilidade existe. Mas o que eu tenho é uma função. É um exercício de atribuições. Algumas são só minhas, mas muitas, mesmo muitas, são partilhadas. A função põe-me num lugar de acção, de movimento, de conjunto. As fronteiras são menos fixas. Parece-me uma designação mais honesta, menos ligada a autoridade.
Revi o documentário do Kusturica sobre Mujica. Ele, presidente do Uruguai, a viver na sua casa, pouco mais que uma barraca, a ser transportado no seu carocha azul. Ele a terminar o seu mandato com o mesmo fato com que começou. Ele a ceder 70% do seu ordenado para construir casas para os mais pobres dos pobres. Zero aparências, muita política, muita filosofia, muita vida vivida, demasiada solidão, para se dar muita importância.
Volto sempre à declaração de Kofi Annan nas Nações Unidas quando Sérgio Vieira de Mello foi assassinado. “Mesmo para aqueles que não te conheciam pessoalmente, eras apenas o Sérgio”. Parece pouco, mas não se deixar levar por vaidade ou orgulho não é assim tão comum. Escolher ser próximo, ombro-a-ombro, braço dado numa cadeia, pode ser menos excitante, menos glorioso, mas será certamente muito mais justo.
Inês Patrício é médica, vive em Berlim com o marido de olhos de mar e uma filha solar.










