
Teologia da Dúvida. Imagem gerada no DALL-E (programa de inteligência artificial que cria imagens a partir de descrições textuais) com prompt de Miguel Panão.
No livro “In two minds”, Os Guinness escreve que “Enquanto houver vida, há esperança!” podia ser aqui entendida como “Enquanto houver dúvida, há fé!”
O contexto é simples e sério. Quando as dúvidas que temos em relação às questões de Deus e de Espiritualidade permanecem uma escolha deliberada de não querer ver essas dúvidas respondidas, o risco de se tornarem descrença é elevado. Distorcer a essência da dúvida impede o nosso caminho de honestidade em relação à vivência e aprofundamento da fé.
Todo o ser humano tem fé no sentido de acreditar porque confia. Esta é uma experiência que está tão presente naquele que hoje se diz ateu como, sobretudo, naquele que se afirma como crente. Porém, quando não queremos por razão alguma ver uma dúvida esclarecida, sejamos crentes ou não-crentes, optamos pelo caminho da descrença e não do esclarecimento. Daí que, “enquanto houver dúvida, há fé”, que exprime como ambas estão intrinsecamente ligadas e não se contradizem.
Por vezes, a experiência por detrás de uma dúvida é pessoal, profunda e dura. Pode nada ter a ver com Deus e, pelo contrário, coloca a esperança em Deus para a compreender e enquadrar num caminho de felicidade. Com o tempo, e sem qualquer apoio ou aprofundamento, a dúvida passa a ser a manifestação de uma experiência não resolvida. E por mais teologia ou filosofia que nos impinjam, o facto de ninguém se dar conta de que por detrás da dúvida está uma experiência, tudo permanece sem resolução, independentemente das inúmeras respostas ao nosso alcance.
No seu documentário Religulous, Bill Maher afirma que “O meu grande ponto é ‘eu não sei.’ É isso que apregoou. Prego o Evangelho do ‘eu não sei.’ É isso que estou aqui a promover: a Dúvida. É esse o meu produto. Os outros tipos vendem a Certeza. Eu não, eu estou no lado da Dúvida.” O que Maher apregoa, também eu apregoou, mas sou, supostamente, um dos “outros tipos” que vendem a Certeza. O trailer do recente filme Conclave, baseado no romance de Robert Harris, inclui uma parte do discurso do Cardeal que o organiza após a morte do Papa, onde emerge esta ideia, que partilho desde 2018, da dúvida como caminho que nos abre ao mistério e a uma fé mais profunda.
A dúvida não é a propriedade dos que apregoam uma visão anti-religiosa do mundo. De um mundo que ficaria melhor se as pessoas que têm fé a abandonassem.
O “eu não sei” não é propriedade dos ateus, mas de todo o ser humano, sobretudo dos crentes. Recordo-me sempre da história emblemática que me contaram e pude confirmar com a teóloga Isabel Varanda que, na sua discussão de doutoramento em Teologia, recebeu do arguente a primeira questão – “quem é Deus?” Procurou responder uma vez com os conhecimentos que possuía de Teologia e fez bem, como reconhecido pelo arguente que voltou a perguntar – “mas quem é Deus?” – Isabel procura responder de novo com mais conhecimento adquirido ao longo do curso e anos em que realizou o trabalho de Doutoramento. O arguente agradece, felicita pela resposta e pergunta… de novo – “mas quem é Deus?” – ao que Isabel responde – “Não sei.” – “Muito bem! Agora podemos começar.” – responde prontamente.
“Não saber” é a única certeza que o crente tem relativamente a quem é Deus. A dúvida é o caminho escolhido pelo crente que “não sabe”, de modo a aprofundar o relacionamento com Deus, aquilo que percepciona do que Ele quer que conheçamos sobre Si mesmo, seja através do estudo, da partilha de experiências, ou da própria experiência de vida que podemos ter ao incorporar nela a vida do Evangelho.
Quando Maria recebeu do anjo a boa nova de ser mãe do salvador, o que fez? Duvidou. – “Como pode ser isso se não conheço homem?” — A dúvida é o caminho mais seguro para o aprofundamento da fé. Sem a dúvida não há impulso para caminhar com Deus. A certeza sem dúvida é inimiga da Verdade porque nos fecha na omnipotência da nossa opinião. Logo, fazendo contraponto à provocação de Bill Maher, como pode um crente vender certezas infundadas se amar realmente a verdade? Um crente não vende (ou deve vender) a certeza sem dúvida. Um crente ama e faz a experiência da fé encaminhado pela dúvida. A única certeza que tem é a de que Deus o ama imensamente. Por isso, essa é a única certeza que oferece, gratuitamente (não vende), aos outros, isto é, que Deus os ama imensamente.
Não há receitas para aprender a lidar com a dúvida como acto de fé, mas talvez ajude a quem duvida pensar que experiência pode estar na origem de qualquer dúvida. E quem escuta profundamente aquele que duvida, consegue perceber melhor qual a experiência que pode estar na origem dessa dúvida. O mais importante naquilo que poderia ser uma Teologia da Dúvida, não é ir ao encontro da dúvida com uma resposta de fé, mas estimular a atenção plena no encontro com o outro, para que, sentindo-se profundamente amado pela nossa escuta, possa fazer uma experiência de Deus que garantiu estar presente no meio de nós (Mt 18, 20), sempre que nos amamos — ao que eu acrescentaria com alguma ousadia: sempre que duvidamos.
Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro “Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (Bertrand, Wook). Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://bit.ly/NewsletterEscritos_MiguelPanao










