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A potência benigna de Dietrich Bonhoeffer

A potência benigna de Dietrich Bonhoeffer

by | 26 Jul 19 | Cristianismo, Cultura e artes - homepage, Newsletter diária - título, Últimas

O influente magistério de Dietrich Bonhoeffer, a sua vigorosa resistência ao nazismo e o singular namoro com Maria von Wedemeyer são três momentos da vida do pastor luterano que merecem uma peculiar atenção na biografia Dietrich Bonhoeffer. Teólogo e mártir do nazismo, da autoria do historiador italiano Giorgio Cavalleri. A obra, publicada pelas Paulinas em Maio, permite agora que um público mais vasto possa conhecer aquele que é geralmente considerado como um dos mais influentes teólogos do século XX.

Não é longa a vida de Dietrich Bonhoeffer. Nasce a 4 de Fevereiro de 1906 e é executado por enforcamento, pelos nazis, a 9 de Abril de 1945, no campo de concentração de Flossenbürg, poucos dias antes da chegada dos Aliados. É assassinado por ordem directa de Heinrich Himmler, um dos principais dirigentes da Alemanha nazi.

Dietrich Bonhoeffer podia ter resistido ao regime hitleriano no exílio. No estrangeiro, podia ter continuado a levantar a voz em defesa dos judeus. Tinha ido para os Estados Unidos da América pouco antes do início da guerra. Perseguido pelos nazis, que o impediam de se deslocar livremente, de falar em público, de escrever ou publicar o que quer que fosse e de ensinar, tinha decidido exilar-se. Giorgio Cavalleri escreve que, todavia, “sofre uma forte crise de consciência pelo facto de ter abandonado o seu próprio povo e de não ter tentado lutar a partir de dentro, com maior determinação, contra a louca e criminosa política implementada no seu próprio país pelos homens do partido nazi”. Regressa à Alemanha.

Outra mártir do nazismo, Etty Hillesum, dizia que queria participar no destino do seu povo. Era judia e não queria usufruir de qualquer privilégio que lhe pudesse ser concedido. Dietrich Bonhoeffer também não queria aproveitar a sorte de ter podido sair a tempo da Alemanha. Era aí que deveria lutar contra Hitler. Entre os seus amigos e cúmplices estavam os que, há uma década, se tornariam conhecidos por causa do filme Operação Valquíria, que relata a história verídica do coronel Claus von Stauffenberg, interpretado por Tom Cruise, e de outros oficiais do regime que atentaram sem sucesso contra a vida de Hitler.

A coragem moral e física de Dietrich Bonhoeffer honrou o cristianismo. Essa valentia decorre de uma das principais convicções daquele pastor protestante. Giorgio Cavalleri enuncia-a: “A necessidade de uma fé concreta e histórica, viva e responsável, que, frente a uma situação difícil, obriga o crente a tomar uma opção”. Quando a Igreja Luterana alinhou por Hitler, Bonhoeffer, discípulo de Karl Barth, ajudou a organizar a Igreja Confessante, que congregou a minoria do clero protestante que se opôs ao nazismo e apoiou os conjurados que tentaram abreviar o fim da guerra matando o líder nazi. Esta resistência – inacreditavelmente – apenas a partir de 1996 tem um reconhecimento valoroso, como recorda Giorgio Cavalleri. Nesse ano, um tribunal de Berlim contrariou outras decisões judiciais do pós-guerra – e a opinião dos democratas-cristãos – que consideraram como “traidores da nação” os que tentaram eliminar Hitler.

O prefaciador da biografia, Bruno Maggioni, refere uma eloquente observação do médico que assistiu Dietrich Bonhoeffer até ao seu derradeiro dia. Disse o clínico “que em toda a sua vida nunca tinha visto um homem tão abandonado a Deus”. O abandono e a certeza de que seria atendida a oração daquele “homem extraordinariamente simpático” impressionou profundamente o médico. Junto ao lugar de execução, viu ele ainda “o pastor luterano elevar uma breve oração e depois subir, com coragem e dignidade, a escada que conduzia ao patíbulo”.

Poucos meses antes, Dietrich Bonhoeffer tinha enviado a Maria von Wedemeyer, sua namorada quase apenas epistolar, o poema “Sobre as potências benignas”, que termina assim: “Por potências benignas, maravilhosamente socorridos, / esperamos, consolados, cada acontecimento futuro / Deus está connosco de noite e de manhãzinha, / sem nunca falhar, em cada novo dia”.

O pastor luterano, nota no prefácio Bruno Maggioni, “compreende que, num mundo sem Deus, o sofrimento é o lugar da presença de Deus  e que a única forma de dar testemunho é aquela que o próprio Deus decidiu assumir: a debilidade de quem se entrega por amor”.

 

Dietrich Bonhoeffer – Teólogo e Mártir do Nazismo

Autor: Giorgio Cavalleri; ed. Paulinas, 2019; 160 páginas; 13,50 euros

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