A primeira maravilha

| 1 Jul 2023

“O que em muitos ele provocou (o vídeo) foi uma consciência mais clara da beleza da vida humana na sua fase inicial. Antes de condenar o aborto, de discutir argumentos éticos ou de política legislativa, a visão e consciência dessa beleza deveria ser o ponto de partida.” Ilustração: Feto no sexto mês. © Sebastian Kaulitzki / Shutterstock.com /Infoescola

 

Recordo bem um vídeo intitulado A Vida Humana, a Primeira Maravilha, que foi exibido em muitas sessões de esclarecimento realizadas aquando do primeiro referendo sobre a liberalização do aborto, já lá vão vinte e cinco anos. Ainda estão por aí espalhadas muitas cassetes desse vídeo (um suporte que entretanto se tornou obsoleto), mas penso que será sempre bom revê-lo. O que em muitos ele provocou foi uma consciência mais clara da beleza da vida humana na sua fase inicial. Antes de condenar o aborto, de discutir argumentos éticos ou de política legislativa, a visão e consciência dessa beleza deveria ser o ponto de partida.

Recordei-me desse vídeo quando li um livro que tem um propósito semelhante, recentemente publicado em Itália e prefaciado pelo Papa Francisco: I Miracolo della vita – Riscoprire oggi l´avventura di nascere (Piemme, Milão, 2023), da autoria de Gabriele Semprebon, Lucca Crippa e Arnoldo Mosca Mondadori. Também este livro pretende defender a vida humana pela positiva, começando por expor a sua beleza, que, na sua fase inicial, é particularmente eloquente e impressionante, embora, como é natural, também para muitos invisível e desconhecida.

No prefácio desse livro, o Papa Francisco afirma como ele vem responder a apelos que tem feito várias vezes. Por um lado, o livro propõe-se transmitir ao leitor o espanto e a surpresa causadores de admiração (o stupore) e a alegria da vinda ao mundo de cada um de nós. Trata-se da “beleza do colher a vida nascente como titular do direito mais alto que cabe a todos, o direito de existir”. Por outro lado, o livro, cujo primeiro autor é perito em embriologia, responde também ao apelo, várias vezes formulado pelo Papa, ao contributo da ciência para a análise desta questão (do estatuto dos nascituros), porque não estão em jogo dogmas religiosos, mas dados objetivos da ciência.

Nesta linha, salientam os autores do livro como a única possibilidade de escutar a voz do nascituro é a de observar atentamente como tem início o seu percurso. Um processo que suscita admiração pela sua harmonia, que combina de forma altamente sapiente a delicadeza e a fragilidade, por um lado, e a eficácia e potência, por outro lado. Nenhuma fase desse processo acontece por acaso, tudo se desenvolve com admirável equilíbrio e energia, de modo a evitar riscos que tudo poderiam comprometer. Em pouquíssimo tempo, sucedem-se transformações com uma precisão impressionante.

A partir da conceção, gera-se um processo sincrónico, contínuo (sem saltos ou interrupções) e gradual. Se não falharem as necessárias e suficientes condições externas, esse processo (que continua, também sem saltos ou interrupções, depois do nascimento) há de realizar autonomamente todas as potencialidades de que o novo ser humano está intrinsecamente dotado. Desde esse primeiro instante, começa a história desse novo ser humano, começam as primeiras experiências que estão na base da sua existência.

Esse processo fará com que a células idênticas se sucedam células diferenciadas, tecidos e órgão com funções e características diferentes e complementares. Fará com que, a partir da oitava semana, surja e se enriqueça cada vez mais a perceção sensorial.

Também desde o início desse processo se vão ativando várias formas de interação com o ambiente exterior. Vai-se desenvolvendo a “casa” acolhedora para o novo hóspede. A partir da oitava semana, ele sente a carícia da mãe (do pai e de outras pessoas) através da parede do abdómen e assim se inicia uma comunicação positiva com o ambiente externo. De modo especialíssimo, vai-se solidificando a relação afetiva com a mãe, que continua depois do nascimento e que este não deveria nunca interromper (daí – acrescento eu – a violência da chamada “gestação de substituição”, para o filho e para a mãe gestante).

Outros aspetos muito sublinhados pelos autores do livro são: que tudo surge da união de um homem e uma mulher, da doação recíproca de uma parte de si mesmos, do que têm de mais único e precioso (o seu património genético); e que dessa união nasce um ser também ele único, com um património genético próprio, distinto dos da mãe e do pai, e de todos os outros seres humanos. A evolução que se segue não é casual, é a realização de um código único; o meu (e só o meu) código genético, ou o teu (e só o teu) código genético. Até ao momento de uma conceção, nunca algo de igual surgiu sobre a Terra e nunca algo de igual há de surgir depois. Por isso, cada vida humana é única e irrepetível. Somos parte do ecossistema (também isso se evidencia desses esses primeiros momentos), mas não nos confundimos com ele, porque cada um de nós pode dizer “eu”. Eis porque a perda de qualquer vida humana, seja qual for a fase da sua existência, é sempre irreparável.

Comecei por dizer que este livro pretende basear-se em dados objetivos da ciência, e não em verdades de fé. E assim é, na verdade. Mas devo dizer que me parece muito difícil não reconhecer nesses mesmo dados objetivos, “sem tirar nem pôr”, na sua beleza e sapiente harmonia, a marca indelével da beleza e sapiente harmonia do Deus Criador. Muito difícil será dizer que tudo é fruto do acaso cego.

Diante da visão e consciência da maravilha da vida humana na sua fase inicial, das potencialidades que toda a vida humana (única e irrepetível) encerra desde essa fase e que se atualizarão no futuro, compreende-se como tudo deve ser feito para evitar o seu fim precoce que decorre do aborto.

É essa a razão de outro apelo formulado pelo Papa Francisco no prefácio deste livro. Um apelo dirigido «a todos aqueles que, diante da vida nascente, não se detêm e não se rendem a uma solução dramática e definitiva como é o aborto, mas sentem que devem oferecer ao nascituro e à mãe a ajuda de uma sociedade finalmente dedicada à defesa da dignidade de todos, partindo das pessoas mais privadas de proteção». Essa sociedade – afirma também o Papa – deve recusar «a “cultura do descarte” em todos os campos e em todas as fases da existência: na fragilidade do nascituro, na solidão dos idosos, na vergonhosa miséria de muitos pobres que são privados do essencial e a que faltam perspetivas de desenvolvimento, no sofrimento de quem é vítima de guerras, das emigrações desesperadas, das perseguições em qualquer parte do mundo».

 

Pedro Vaz Patto é presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz.

 

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