Há dias fatídicos e aquele 16 de junho de 1960 foi um deles: nesse dia, na região de Cabo Delgado (norte de Moçambique), centenas de pessoas morreram às mãos do exército colonial português. Mas, não raras vezes, da tragédia nascem coisas belas e este parece ser o caso: não só aquele dia marcou a viragem na luta pela independência da então colónia, como também inspirou aquela que é a primeira ópera nacional moçambicana. A obra será apresentada em três concertos gratuitos que terão lugar no Rio de Janeiro (Brasil) a 16, 17 e 18 de setembro, e que poderão também ser acompanhados online a partir de qualquer ponto do mundo.
Intitulada “O Grito de Mueda” – nome da localidade onde ocorreu o massacre – a ópera é fruto de um trabalho de criação coletiva que envolveu músicos e dramaturgos de Moçambique, Argentina e Brasil. E “mais do que rememorar a tragédia, transmite uma mensagem de esperança para as novas gerações, reafirmando a importância da memória histórica como ferramenta de transformação social”, adianta um comunicado enviado ao 7MARGENS. Fá-lo evocando temas como “a necessidade de resistir às arbitrariedades do poder, a solidariedade entre os povos africanos, a valorização da autoestima coletiva e a luta contra a pobreza e a adversidade”.
O libreto – escrito por Nilza Laice, Oscar Castro, Feliciano de Castro Comé e Hortêncio Langa – é composto por num prólogo e três atos. No prólogo, uma anciã sobrevivente deseja deixar o seu testemunho antes de morrer. O primeiro ato passa-se numa escola rural em Mueda, em que os camponeses pedem ao professor que redija uma petição a ser entregue às autoridades coloniais. O segundo ato apresenta uma aldeia Makonde, onde jovens estudantes, contra a vontade dos pais, decidem participar numa reunião com o governador. E no terceiro ato, diante do prédio da administração de Mueda, a população apresenta as suas exigências, mas é recebida com desprezo e violência. A história culmina “no massacre que marca a memória coletiva do povo”.
Quanto à música – composta por Feliciano de Castro Comé, Hortêncio Langa, Ilídio Manhica, Pedro Tinga, Samuel Manhica Jr., Luis Caruana, Diego López, Oscar Castro, Maria José Chevitarese e Isaías Ferreira – traz elementos inspirados em melodias e ritmos da tradição oral moçambicana, sem deixar de ser “uma criação absolutamente original, que alia referências culturais diversas a uma linguagem contemporânea”.
A ópera conta com a interpretação musical do Coral Brasil Ensemble da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Camerata de Cordas da UFRJ, sob a direção geral de Maria José Chevitarese, direção cénica de José Henrique Moreira e regência de Feliciano de Castro Comé.
As apresentações – com entrada gratuita – acontecem nos dias 16 e 17 de setembro, às 18h30 (menos quatro horas em Portugal) naquela universidade, e no dia 18 de setembro, às 14h (12h de Lisboa), na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito dos Homens Pretos. Para quem está longe, poderá acompanhar as transmissões online através do canal de Youtube TV SUAT.
A estreia da primeira ópera nacional moçambicana insere-se no II Congresso Africanias, organizado pela UFRJ, um encontro que promove debates, mesas redondas, rodas de conversa e performances artísticas, com a participação de investigadores e artistas do Brasil e de Moçambique.
O evento terá como foco celebrar os 50 anos do Mafro (Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia), homenagear os 50 anos das independências africanas (Angola, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau) e manifestar apoio à população de Cabo Delgado, lembrando os massacres de Pemba (2020) e Mueda (1960).










